quinta-feira, maio 25, 2006

Puro Veneno



Ready or not
Here I come
You can’t hide
Gonna find you
And take it slowly


Aborrecem-me pessoas que me olham com complacência fingida, que reviram os olhos e de sorriso amarelo em sorriso amarelo, perturbam com toques de caterpillar toda a saudável fundação que procurei estabelecer das minhas convicções, todos os argumentos lógicos e ilógicos com que justifico a chama interior que supostamente deveria orientar os meus passos.

Irritam-me jovens obcecados com a teoria da beleza, que malham incessantemente em ginásios anti-sépticos com iluminação fluorescente e musica de elevador no ar, 10 quilos em cada bíceps, 30 extensões em 3 minutos, martelar, remar, elevar, fundir, moldar, suar, esculpir com grunhidos roufenhos um corpo pleno de altos e baixos, como se um torso à lá David ou Vénus conseguisse de alguma estranha e abstrusa maneira compensar um espírito vazio e falho de ideias, conversas ocas a ecoarem no ruído da multidão, argumentos inconsistentes e pastosos, banalidades que se tornam dogmas quando repetidas até à exausta exaustão.

Enoja-me o desfile semanal de roupas compradas a preço de saldos perante um nariz perscrutador de um qualquer segurança composto com a máscara da dignidade e autoridade, dançarinas seminuas em colunas, com sorrisos quentes e olhares de desprezo para a feira de vaidades que observam, para a curiosa multidão de ovelhas espalmadas no conforto da partilha dos mesmos ideais vazios, dos mesmos sentimentos pobres e imediatos, sequiosas da mesma satisfação momentânea proporcionada por shots ácidos e melodias industriais que amortecem os tímpanos e pregam um evangelho mecânico de movimentos descoordenados e fúteis.

Enervam-me mulheres com mais banhas que roupa em exibições públicas, rapazes altivos com poses de macho a tentarem imitar os heróis dos filmes, e jovens raparigas que desconhecem os prazeres da carne, com ganas de entrarem no clube dos objectos de desejo, a afivelarem tiques sensuais em corpos púberes. Constrange-me o marchar desesperado de condutores que sabem para onde vão mas não para onde deviam ir, que aceleram nas passadeiras, passam no vermelho, não param no stop, buzinam nos semáforos, mudam de faixa como uma puta muda de clientes, lavam carros ao fim de semana, entopem os parques dos shoppings, as marginais à beira mar, os passeios durante a semana. Desprezo os exércitos de drogados que educadamente pedem moedas a dez metros de idosos em cadeiras de rodas, que não dizem uma palavra, abomino opinion-makers enfatuados, absorvidos num ritual semanal de arrogância lírica, revoltam-me homens bêbados que mijam nos passeios e roubam antenas de carros, irritam-me publicitários que partilham e incitam a mentira de corporações sem rosto, sem coração e sem princípios, odeio jornalistas histéricos que apregoam os podres do mundo e espalham como uma doença infecta e pútrida toda a sucessão de desgraças, males, catástrofes, merda embrulhada em merda, que avidamente consumimos todos os dias, antes, durante e depois de comer a sopa de dejectos que nos é impingida.

Não me venhas dizer que me amas, nem disfarces com lágrimas o facto de não saberes o que queres. Eu não te amo.

Não me venhas dizer que a convivência ocasional que tivemos, ou que as gotas de suor que trocámos em lugares escuros, constituem argumentos para um sentimento que possa ter crescido em mim, tímido mas incontrolável, tão impossível de parar como uma enchente do rio Douro. Não aceito esses argumentos, não me dizem nada, atenho-me aos factos, sou um bloco de lógica com fundações de concreto. Não me digas que fiquei afectado com as mensagens que recebeste e escreveste para outro que não eu, que as flores que te dei, os livros que te comprei, as massagens que te fiz, são partes de um todo, capítulos de uma história que se escreve por si própria.

Não te amo. Nunca te amei. Não é por tua causa que passo agora os dias sozinho, sem querer falar, sem querer privar da companhia de amigos e colegas, a debitar maços de cigarros com uma velocidade que me deixa os pulmões corroídos e a mente pesada, a ouvir musicas tristes e agressivas, agarrado a livros que já li demasiadas vezes, escolhidos ao acaso em livrarias onde me refugio diariamente.

As noites que passo às voltas na cama, ou a olhar para o tecto, não têm nada a ver contigo. Dei para ter insónias ultimamente, mas também nunca dormi em condições, logo não quer dizer nada de nada. Se estou sem apetite às refeições é porque me empanturrei quando era adolescente, porque a comida anda cheia de químicos hoje em dia, porque não quero engordar, porque o verão está à porta e quero estar confortável nas roupas, nem tenho dinheiro para comprar outras, aliás.

Se era carinhoso contigo antes de saber que nas minhas costas dedicavas a tua atenção a outro, foi porque o carinho para com as mulheres já faz parte de mim, foi-me inculcado com os beijos que recebi em criança, e não porque sabia que gostavas que te afagasse a pele, que apreciavas o toque dos meus dedos em passeio pelo teu corpo, pelos teus cabelos, o roçar dos meus lábios em ti. Nem sequer porque eu próprio gostava do contacto, das curvas de que és feita, das reentrâncias onde me perdia sem mapa e sem noção do mundo.

Não te iludas com olhares doridos, nem com palavras em tom magoado. Ando aborrecido ultimamente, não por tua causa, mas porque o mundo vai mal, o mar está carregado de merda, o ar irrespirável, a guerra vai começar, e existem muitos filhos da puta com controlos remotos nas mãos. Não tens nada a ver com isso, não me afectas da maneira que pensas, e não me peças para te perdoar, para não remoer coisas que nunca aconteceram, para reconsiderar e voltar. Não perdoo, não penso, não reconsidero e não volto.

Porque não te amo.
(Este texto já tem 3 anos, pelo que aproveito para o incluir aqui. Irei em breve criar uma secção específica com textos da minha autoria, que actualizarei irregularmente.)

2 comentários:

Juliana disse...

Sei bem como é! Mas veja lá, não me faças mais isto, do contrário aposento meu colírio na função de me lavar os olhos.
És mesmo um poeta!

Juliana disse...

Sei bem como é! Mas veja lá, não me faças mais isto, do contrário aposento meu colírio na função de me lavar os olhos.
És mesmo um poeta!