quinta-feira, junho 15, 2006

A Valsa do Adeus

Existe um livro, que eu nunca li, e nem sequer conheço de relance a história, mas que ficou na memória por causa de um simples conjunto de palavras que formavam o título - palavras impressionantemente belas e simples - que nunca mais esqueci: A Valsa do Adeus. Milan Kundera sempre se destacou por livros belos apresentados com títulos belos, e este não poderia ser excepção.

Apesar de, como já disse, não saber do que trata o livro, tenho uma ideia muito própria sobre o que poderá ser a Valsa do Adeus, e é também uma ideia poética e bela, como o título. Para mim, a Valsa do Adeus é aquele ultimo momento em que nos despedimos de alguém, ou de algo, um momento que tanto pode ser instantâneo como prolongado, onde é executado e sentido de forma consciente ou inconsciente, o derradeiro Adeus. Pode ser uma troca de olhares entre duas pessoas, uma dentro de um comboio em andamento e a outra na estação, pode ser o ultimo abraço antes da partida, pode até ser um prolongado olhar carregado de tristeza e saudade pousado em um avião que levanta voo. Ou uma ultima dança, quem sabe uma valsa, em um quarto anónimo de um hotel anónimo, ao som de uma melodia antiga trauteada com amor por alguém que está abraçado a quem ama.

A Valsa do Adeus pode ser qualquer coisa, mas o que a torna tão marcante é o significado que encerra em si mesma: o de Despedida, permanente ou temporária, sempre dilacerante e plena de mágoa e dor. Não é a situação em si que a define, mas o modo como esta é sentida pelos seus intervenientes, e todo o sentimento que acarreta no seu âmago.

Neste mundo tão frio e duro, tão cheio de essência de realidade impiedosa, não existem muitas coisas de que verdadeiramente possamos nos despedir com uma Valsa do Adeus. Claro que passamos o tempo numa perpétua insatisfação, numa eterna procura de algo que possa preencher as nossas vidas, que permita uma construção sólida e estável, assente em bons pilares, daquilo que queremos para nós mesmos, e a maior parte das vezes encontramos essa satisfação em coisas pequenas, de somenos importância, mas que mesmo assim são tudo a que nos podemos agarrar.

E logicamente nos convencemos que temos tudo o que queremos, ou pelo menos aquilo que queremos mais, sem nos apercebermos que o que na verdade fazemos é procurar e procurar, sem parar, porque aquilo que possuímos nos satisfaz agora, mas não irá nos satisfazer depois do agora. E é fácil dizermos adeus a certas coisas que temos, porque o espaço que elas ocuparam está a ser preenchido por outras quase iguais, sem sequer nos darmos conta de quão fútil e desprovida de sentido é esta constante busca insatisfeita daquilo que não temos.

Contudo, existem momentos chave na vida em que passamos pela estranha situação de encontrar algo, por fim, que de uma forma brutal, e talvez até egoísta, vem preencher muitos espaços antes ocupados por todas essas coisas fúteis, e até preencher espaços vazios que desconhecíamos ter dentro de nós. Se olhássemos com atenção, iríamos notar que o que temos agora realmente consegue nos dar de uma forma definitiva aquilo que há muito tempo buscávamos e esperávamos desesperançadamente. Que ao possuirmos aquilo, ganhamos perspectiva e visão, encontramos um caminho diferente repleto de alegrias e dores que vêm carregadas com o próprio material de que a vida é feita. Não uma vida fútil, pretensiosa, feita de satisfação inconstante, mas sim uma vida que não é desperdiçada com esforços para alcançar aquilo que não vale a pena alcançar, uma vida que sempre desconfiámos existir, mas que nunca nos permitimos sonhar viver a fundo, para não sofrer uma desilusão grande demais caso não existisse.

Bem... sonhar sempre sonhamos, mesmo que não o admitamos para nós mesmos. È no entanto um sonho ténue e difuso, presente em muito do que fazemos, mas quase sempre ignorado, como se não estivesse lá.

Lamentavelmente, por vezes estamos já tão acostumados a esse jogo hedonista de encontrar, satisfazer e procurar, que acabamos a agir da mesma maneira com isso que apareceu à nossa frente. Não é que procuremos algo de novo, mas é a atitude assumida perante aquilo que deveria ser o bastante – que na verdade É o bastante –, uma atitude de querer mais, sempre algo mais.

O que me leva a falar de atitude. Não sei se é assim que as coisas se passam com todas as pessoas, e possivelmente aquilo que digo é apenas o modo como encaro tudo, ou como penso encarar, e cada um de nós guarda dentro de si o seu próprio mundo e a sua própria visão, pessoal e intransmissível, desse mundo. Se cada ser humano alberga um mundo dentro de si, então também a visão que aplica sobre ele é exclusiva, e talvez seja isso a única coisa que podemos verdadeiramente chamar de nosso.

Dentro da minha própria visão, é assim que vejo a mim mesmo e aos outros: sombras que se movem entre sombras à procura de muitas coisas ao mesmo tempo, mas sempre com algo inescrutável ao fundo, como se houvesse uma cortina de névoa que nos impede de ver claramente, de fixar o olhar. Sabes o que é?

É a única coisa que realmente queremos, escondida tão profundamente que por vezes passamos por ela e não percebemos que está lá.

Toda a satisfação que obtemos de tudo o resto não passa de migalhas na mesa de um banquete que terminou, de pequenas doses de prazer que avidamente buscamos, a desejar que fosse o suficiente para sermos felizes, mas totalmente conscientes que o que temos não é nada.

Nada.

Nada.

Mais tarde ou mais cedo achamos algo que é Tudo. Pessoas sensatas acarinham o que têm e agem de forma a que daí possam nascer frutos mais duradouros. Pessoas insensatas agem como se não fosse o bastante ou suficientemente importante, e pensam que se podem dar ao luxo de desperdiçar aquilo que encontraram.

E pessoas que não são sensatas ou insensatas, ao se aperceberem do que acabaram de perder, ou estão em vias de perder, abrem os olhos para uma realidade até há pouco ignorada ostensivamente e tentam recuperar aquilo que está por um fio, conscientes por fim de que nada vem sem esforço, e de que por vezes uma mudança de perspectiva de vida se torna imperiosa. Porque passamos tanto tempo agarrados à nossa própria visão do mundo, como um náufrago se agarra a um pedaço de madeira que flutua no mar bravio, uma visão que sabemos ser mesquinha e errada, mas que achamos tão difícil abandonar, até que essa visão condiciona de tal forma os nossos actos e palavras que acabamos por perder aquilo que sempre ansiamos ter.

É assim tão difícil largar por terra essa maneira de pensar e agir que sempre nos serviu? Não. Não é. Na realidade, é tão difícil quanto ao náufrago que agarra a tábua abrir os braços e deixar que as ondas tonitruantes o levem a bom ou mau porto. Basta nos libertarmos.

Mas nesse momento de simplicidade, quanta complicação por vezes vemos.

Tanta, tanta complicação…

É esta a minha Valsa do Adeus. Um amontoado de palavras ordenadas sobre uma folha branca que na realidade não existe, uma tentativa fraca de colocar sentimentos e sensações e ideias e confusões de uma forma compreensível, mais para mim do que para qualquer outra pessoa. É este o momento em que me despeço daquilo que não tenho, e em que renego aquilo que nunca vou parar de procurar – nunca nunca nunca – até encontrar, e que pensei ter. Agora.

Mas não tinha. Ainda não.

Estou de partida para oceanos mais calmos. Em jeito de despedida. Já icei as minhas velas, tenho a âncora pendurada no casco, e as ondas chamam-me com outras canções. Não procurámos ambos isto? Não foi algo que desejávamos? Paciência. A banda está a tocar, e a música vem carregada de despedida, de lenços brancos a acenar, de lágrimas que vão estar para sempre suspensas naquele sítio para onde as lágrimas vão, quando caem para dentro de nós.

É assim esta vida. Feita de pequenas melodias, e de valsas que calam fundo, e que querem dizer Adeus, e Obrigado. Por muito que doa ou tenha doído, teremos sempre novos mares para singrar, e portos seguros para acostar, quando as tempestades nos levantam no ar e brincam connosco, como se fossemos papagaios que crianças tentam domar em colinas ventosas.

Está a acabar a valsa para ti, amor. Ainda amor. E em breve lembrança, melancolia, nostalgia, sonho do que poderia ter sido e não foi. Antes da última nota ter sido tocada, vais ter que me deixar sair do aconchego dos teus braços, e não quero que me acompanhes à porta. Fica onde estás, observa-me a sair, e sopra-me um último beijo antes de eu desaparecer. Não foi assim tão mau como isso, afinal, e os momentos doces serão sempre momentos doces, mesmo que existam na memória, e não no dia a dia, como eu desejei em alturas mais felizes.

É esta a minha Valsa do Adeus. Cada um tem a sua de tempos a tempos, mas esta é só minha e tua.

Sempre.

4 comentários:

Patrícia disse...

Este texto diz-me que temos muitas conversas prontas a nascer... :)

Desculpa-me pela invasão num espaço tão íntimo.

Sandman disse...

Já tem uns aninhos, este texto... pertence a um (talvez dois) período da minha vida, que primou pela calada melancolia triste. Entretanto muita coisa mudou, e penso que actualmente, a partitura da minha vida é regida mais pelo "Ridículas" (são todas ridículas, é certo, mesmo as que tenho guardadas nos meus arquivos, sem ver a noite do blog, mas indispensáveis).

E não peças desculpa, serás sempre bem vinda. Quando escrevo, é para manifestar, e permitir que se manifestem. E para descobrir ecos em quem lê.

:-)

Juliana disse...

Estou convencida de que existe mesmo um universo tão grande dentro de cada um de nós quanto aquele lá fora ainda desconhecido. Mas são as semelhanças que nos amenizam a dor e nos permitem acreditar que na verdade não existe a solidão e de que sempre é começo, não há meio ou fim.

Juliana disse...

Juliana disse...
Estou convencida de que existe mesmo um universo tão grande dentro de cada um de nós quanto aquele lá fora ainda desconhecido. Mas são as semelhanças que nos amenizam a dor e nos permitem acreditar que na verdade não existe a solidão e de que sempre é começo, não há meio ou fim.

11 Janeiro, 2007 15:18