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quinta-feira, dezembro 15, 2011

Leituras XIII


"A mulher jovem que, à entrada da câmara de gás de Auschwitz, se volta para Höss e lhe diz, desdenhosamente - como ele descreve - que não quis fazer-se seleccionar para o trabalho, como lhe teria sido possível conseguir, para acompanhar as crianças que lhe haviam sido confiadas, e que depois avança tranquilamente com elas para a morte, é a prova da incrível resistência que o indivíduo pode opor àquilo que ameaça aniquilar a sua dignidade, o seu sentido. Nos diversos Lager e também nesta escada de Mathausen verificaram-se muitos feitos que tais, outras tantas termópilas que se opõem à maré da abjecção...

Enquanto me encontro ainda nas escadas, tenho como que diante dos olhos uma fotografia, entre as muitas vistas pouco antes no Lager. É a fotografia de um homem sem nome, provavelmente, pelo aspecto, um balcânico, um europeu sul-oriental. O rosto está desfigurado pelos golpes, os olhos são dois grumos inchados e sanguinolentos, a expressão é paciente, de resistência humilde e sólida. Enverga um casaco cheio de arranjos, as calças mostram remendos cuidadosamente colocados, por amor da compostura e do asseio. Este respeito por si próprio e pela própria dignidade, mantido no coração do inferno e estendendo-se às calças que se vestem, faz surgir os uniformes SS, ou das autoridades nazis de visita ao Lager, em toda a sua miséria de farpelas de carnaval, trajes alugados no penhorista, na convicção de que um banho de sangue os poderia fazer durar milénios. Duraram doze anos, menos do que a minha velha canadiana que habitualmente uso em passeio."

Claude Magris, Danúbio, Biblioteca Sábado - 2009, pag. 133.

http://www.holocaustresearchproject.org/othercamps/mauthausen.html

sexta-feira, dezembro 10, 2010

Leituras XII











“Pensei que me bastava voltar para trás e tudo ficaria resolvido. Mas atrás de mim, comprimia-se uma imensa praia vibrante de sol. Dei alguns passos para a nascente. O árabe não se moveu. Apesar disso, estava ainda bastante longe. Parecia sorrir, talvez por causa das sombras que se lhe projectavam na cara. Esperei. A ardência do sol queimava-me as faces e senti o suor amontoar-se-me nas sobrancelhas. Era o mesmo sol do dia em que a minha mãe fora a enterrar e, como então, doía-me a testa, sobretudo a testa e todas as suas veias batiam ao mesmo tempo debaixo da pele. Por causa desta queimadura que já não podia suportar mais, fiz um movimento para a frente. Sabia que era estúpido, que não me iria desembaraçar do sol simplesmente por dar um passo em frente. Mas dei um passo, só um passo em frente. E desta vez, sem se levantar, o Árabe tirou a navalha da algibeira e mostrou-ma ao sol. A luz reflectiu-se no aço e era como uma longa lâmina faiscante que me atingisse a testa. No mesmo momento, o suor amontoado nas sobrancelhas correu-me de súbito pelas pálpebras abaixo e cobriu-as com um véu morno e espesso. Os meus olhos ficaram cegos, por detrás desta cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas as pancadas do sol na testa e, indistintamente, a espada de fogo brotou da navalha, sempre diante de mim. Esta espada a arder corroía-me as pestanas e penetrava-me nos olhos doridos. Foi então que tudo vacilou. O mar enviou-me um sopro espesso e fervente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando tombar uma chuva de fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão que segurava o revólver. O gatilho cedeu, toquei na superfície lisa da coronha e foi aí, com um barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo principiou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte, onde as balas se enterravam sem se dar por isso. E era como se batesse quatro breves pancadas, à porta da desgraça.”


Albert Camus, O Estrangeiro, Edição Livros do Brasil – Lisboa, pags. 130-131.