
Enquanto me encontro ainda nas escadas, tenho como que diante dos olhos uma fotografia, entre as muitas vistas pouco antes no Lager. É a fotografia de um homem sem nome, provavelmente, pelo aspecto, um balcânico, um europeu sul-oriental. O rosto está desfigurado pelos golpes, os olhos são dois grumos inchados e sanguinolentos, a expressão é paciente, de resistência humilde e sólida. Enverga um casaco cheio de arranjos, as calças mostram remendos cuidadosamente colocados, por amor da compostura e do asseio. Este respeito por si próprio e pela própria dignidade, mantido no coração do inferno e estendendo-se às calças que se vestem, faz surgir os uniformes SS, ou das autoridades nazis de visita ao Lager, em toda a sua miséria de farpelas de carnaval, trajes alugados no penhorista, na convicção de que um banho de sangue os poderia fazer durar milénios. Duraram doze anos, menos do que a minha velha canadiana que habitualmente uso em passeio."
Claude Magris, Danúbio, Biblioteca Sábado - 2009, pag. 133.
http://www.holocaustresearchproject.org/othercamps/mauthausen.html

