sexta-feira, dezembro 10, 2010

Leituras XII











“Pensei que me bastava voltar para trás e tudo ficaria resolvido. Mas atrás de mim, comprimia-se uma imensa praia vibrante de sol. Dei alguns passos para a nascente. O árabe não se moveu. Apesar disso, estava ainda bastante longe. Parecia sorrir, talvez por causa das sombras que se lhe projectavam na cara. Esperei. A ardência do sol queimava-me as faces e senti o suor amontoar-se-me nas sobrancelhas. Era o mesmo sol do dia em que a minha mãe fora a enterrar e, como então, doía-me a testa, sobretudo a testa e todas as suas veias batiam ao mesmo tempo debaixo da pele. Por causa desta queimadura que já não podia suportar mais, fiz um movimento para a frente. Sabia que era estúpido, que não me iria desembaraçar do sol simplesmente por dar um passo em frente. Mas dei um passo, só um passo em frente. E desta vez, sem se levantar, o Árabe tirou a navalha da algibeira e mostrou-ma ao sol. A luz reflectiu-se no aço e era como uma longa lâmina faiscante que me atingisse a testa. No mesmo momento, o suor amontoado nas sobrancelhas correu-me de súbito pelas pálpebras abaixo e cobriu-as com um véu morno e espesso. Os meus olhos ficaram cegos, por detrás desta cortina de lágrimas e de sal. Sentia apenas as pancadas do sol na testa e, indistintamente, a espada de fogo brotou da navalha, sempre diante de mim. Esta espada a arder corroía-me as pestanas e penetrava-me nos olhos doridos. Foi então que tudo vacilou. O mar enviou-me um sopro espesso e fervente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando tombar uma chuva de fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão que segurava o revólver. O gatilho cedeu, toquei na superfície lisa da coronha e foi aí, com um barulho ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo principiou. Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte, onde as balas se enterravam sem se dar por isso. E era como se batesse quatro breves pancadas, à porta da desgraça.”


Albert Camus, O Estrangeiro, Edição Livros do Brasil – Lisboa, pags. 130-131.

quarta-feira, maio 23, 2007

Mudar o mundo



A primeira recordação que tenho da escrita data da terceira classe, já lá vão – meu Deus! – quase trinta anos. Não era um miúdo tímido, mas reservado o suficiente para preferir passar horas agarrado aos livros e às revistas de banda desenhada, ao invés de esfolar as sapatilhas no campo de terra batida, a dar pontapés na bola. Agora vejo o Cristiano Ronaldo na televisão e penso se terá sido uma boa opção, mas foram boas horas, sentado no sofá, deitado no chão, estendido na cama, a ler até os cotovelos doerem, a devorar palavras como se não houvesse amanhã. Creio ser daí que me nasceu esta vontade incontrolável de regurgitar textos infindos: ainda estou a deitar cá para fora todos os milhões de palavras que fui digerindo ao longo da vida. Sem dores nas canelas e sem um tostão no bolso.

Esta bulimia literária não é doença recente; desde que descobri os sonhos que se escondem na palavra escrita, que tento dar-lhes forma no papel, e não foram poucas as vezes que me debati e suei, a espernear interiormente, nas tentativas de esculpir uma amostra de ideia, um conceito pungente, em algo que possa ser lançado ao mundo, aos berros como um recém nascido zangado que não recebe atenção. Mudar o mundo? Não. Só quero fazer um pouco de barulho.

Na terceira classe a professora mandou-nos escrever uma redacção sobre o último dia de aulas. Estávamos no início do Verão, e os dias aqueciam, soalheiros, a prever incêndios e mergulhos no rio Paiva. Dos campos ao redor da vila levantava-se o cheiro da natureza que sente o ar que começa a abafar de calor, e os zumbidos da bicharada eram chamamentos que nos punham a todos, prisioneiros na frescura austera da escola primária, irrequietos nos assentos, a ansiar pela vida ao ar livre debaixo de um céu sem nuvens.

Escrever redacções era a minha actividade favorita, na idade da inocência, em contraponto directo ao desagrado que sentia por tudo o que estivesse envolvido com números e contas. Assim, aplicava-me particularmente e compensava as desgraças matemáticas com louvores escolares que celebravam as vitórias do português. Naquele dia escrevi um texto elaborado (pelo menos achava que sim) sobre o meu último dia de aulas, exactamente no momento em que vejo as minhas notas afixadas no quadro de cortiça, e saio a correr da escola, acompanhado do meu inseparável sidekick, o cão Farrusco, que nunca existiu a não ser na minha cabeça e naquela folha do caderno que, a existir, deve estar bem amarelecida e com tinta a desbotar. O Farrusco era um animal prodigiosamente interessante, aparte o facto de ser um produto da imaginação juvenil, pois compreendia tudo o que lhe dizia, tal e qual o Tim dos Cinco.

Enfim. O motivo pelo qual nunca esqueci esta redacção em particular – não foi a primeira ou a última – deve-se a uma frase que rabisquei cuidadosamente na folha, com o orgulho do escritor consagrado, onde comentava com o Farrusco que agora é que era, com o começo das férias já podíamos brincar aos piratas no rio, e fazer um monte de coisas divertidas. Um monte de coisas divertidas. O Farrusco respondia com o latido é-verdade-tens-toda-a-razão-do-que-é-que-estamos-à-espera?, enquanto galgava as ruas empedradas da vila em passada acelerada, ao meu lado.

Um monte de coisas divertidas. Quando o caderno voltou da caneta inquisidora da professora, mulher pequena vestida de negro que ocultava um coração frio sob a aparência de Vóvó Donalda, as palavras “monte de” traziam um grosso risco vermelho a todo o comprimento, e por cima, como se tivessem morrido e lhes pairasse a alma acima do corpo, estava a substituta “muitas”, acompanhada do comentário que não se faziam montes de coisas, mas sim muitas coisas. Que me lembre, também foi nesse momento que senti pela primeira vez a pontada amarga da injustiça, a ferroar o coração com a marca da indignação: Um monte? Claro que era um monte! Se o personagem da história era eu, é lógico que falasse “um monte” e não “muitas”, então se eu dizia “um monte” um monte de vezes, ora que merda. Riscar a minha expressão cuidadosamente colocada e fiel ao espírito da personagem, colocando em seu lugar uma substituta de quinta categoria, sem qualquer respeito ou capacidade de compreensão da intenção do autor, era um flagrante atentado à liberdade criativa, uma tentativa brutal de agrilhoar a minha voz, de moldar as minhas palavras aos modelos impostos pela sociedade.

Não o exprimi em tantas palavras, mas a verdade e que fiquei mesmo chateado, e agora nem sei se o facto de ser um defensor pétreo da liberdade sob qualquer forma de expressão artística não se deve a esse traço vermelho que manchou uma página imaculada. Seria ridículo se assim fosse, heh, ou talvez não. De mais a mais a redacção ainda trazia uns rabisquitos encarnados, fruto do excesso de vírgulas. Sempre foram o meu fraco, as vírgulas.

Deixemos o Farrusco para trás, a correr com um rapazinho franzino que só pensa em empunhar uma espada e descobrir tesouros enterrados, e avancemos mais ou menos dez anos. Nessa altura estava no Brasil, e de pirata sanguinário passei a adolescente inseguro, eternamente fascinado com as formas femininas que esticavam e repuxavam t-shirts de algodão e calças jeans de corte piroso (lembrem-se, eram os anos oitenta). Fiz lá o décimo primeiro e décimo segundo anos do secundário (os equivalentes do ensino português, o nome era diferente), só com aulas de manhã; antes de apanhar o ônibus para casa passava sempre na Biblioteca de Suzano (estado de São Paulo) e trazia um ou dois livros que me acompanhavam nas tardes tropicais. Ainda tenho um cartão dessa biblioteca, e sorrio sempre que vejo as datas que a funcionária ia registando: todos os dias entregava livros, e todos os dias trazia livros. Nas primeiras vezes era olhado com alguma desconfiança, e quase conseguia ver os mecanismos a rodarem atrás dos olhos inquiridores (mas o que é que ele faz com os livros? Será algum fetiche?).

Quando fiz dezoito anos recebi uma máquina de escrever dos meus pais, a pedido, e não imaginam a satisfação que senti quando destravei pela primeira vez as patilhas da caixa em formato de mala de viagem, de cor verde-hospital, e fiz deslizar cuidadosamente o animal metálico de teclas reluzentes para o mundo. Foi o prazer de quem encontra um destino.

Passei horas debruçado no martelar das teclas, a escutar o som característico, tão agradável, tec tec tec, das palavras a nascerem. Os computadores e teclados são muito bonitos e práticos, e sem dúvida que a tecla backspace é uma bênção que brotou de uma nascente do céu, mas também perdemos o encanto daquele tec tec tec, o ideal romântico dos escritores em quartos escuros, com uma garrafa de gin ao lado e uma mulher nua adormecida na cama, a fazerem barulho por entre as golfadas de fumo do cigarro esquecido no cinzeiro transbordante. A fazerem barulho? Não. A mudarem o mundo.

O primeiro texto que escrevi na máquina era uma imitação insossa dos romances policiais que não me cansava de ler: contava a história de um policia à paisana que vai a um bar de aspecto sujo e decadente, e descobre que o serial killer, ao estilo do Jack o Estripador, que anda a deixar um rastro de sangue na cidade, escolhe as ruas alfabeticamente para cometer os seus assassinatos. Depois de sair do bar, que tive o cuidado de descrever exaustivamente em todos os ínfimos pormenores, o polícia dirige-se à rua onde deduziu que ocorreria o próximo crime, e acaba deitado numa poça do próprio sangue, emboscado pelo facínora. Afinal era o próximo da lista, reparem no delicado entretecer de pistas até à surpresa final. Ai ai, que amador…

Depois escrevi nada mais nada menos do que quatro livros. Sim, quatro, qual é o espanto? O primeiro nasceu de uma inspiração momentânea: estava quase a adormecer e tive de agarrar no papel e caneta, e passar a noite toda acordado: tratava-se da história de Sardasan no formato de poemas curtos, um ser/rapaz/animal/qualquer coisa, que vive numa pedra no meio de um lago e um dia recebe a visita de um bicho inidentificável, que o informa da existência do Amor e da Felicidade. O nome Sardasan apareceu-me num sonho, e o personagem embarca numa jornada interior e exterior, onde conhece variados animais falantes, até encontrar por fim o Amor e a Felicidade. Não se riam, que esse tipo de romantismo lamechas ainda cá anda, mais ou menos camuflado, embora já não tenha a desculpa dos meus dezassete anos para o justificar. O título era “Não conheço aqueles que se lembram da Felicidade” (também apareceu num sonho).

Os dois livros seguintes foram as sequelas da história de Sardasan, e pela primeira vez tive o mérito (?) de me dizerem que demonstrei o que era o verdadeiro amor (a segunda foi recentemente). Foi o meu amigo Fernando Yujiro Sumiya, que, juntamente com o meu grande amigo Renato Matsui Pisciotta, eram as cobaias sofredoras a quem eu submetia as minhas barbáries literárias. Não os vejo há mais de quinze anos, e tenho saudades deles.

O quarto livro foi um projecto mais ambicioso: uma história em prosa, com capítulos e tudo, na melhor tradição da literatura de ficção científica. Dois soldados inimigos são colocados num planeta deserto por uma raça de alienígenas, para lutarem até à morte, recaindo sobre eles o destino da humanidade. Fantástico, na verdade, e é mesmo uma pena que fosse uma cópia descarada (mas não plágio) de uma história que tinha lido há pouco tempo nas Selecções do Readers Digest.

Escrevi outros contos posteriormente, e lamento ter perdido todas as cópias que tinha dessas tentativas pueris de me lançar na escrita. O Renato ficou com algumas páginas, e de tempos a tempos lá o chateio para digitalizar e me mandar, mas até agora as minhas surtidas ainda não tiveram efeito naquela mente perversa. É pena, gostava mesmo de me submerger na nostalgia de ler textos que já não recordo ter escrito.

Quando vim para Portugal trouxe a máquina de escrever, e o último conto que registei nas teclas musicais foi a história futurista de umas pessoas que vivem num pântano repleto de rãs, depois da hecatombe humana, sobrevivendo a custo, escondidos das máquinas que são os novos senhores do mundo. Depois fui para o Exército, e passaram-se anos – pontuados por textos ocasionais – até encontrar a Internet, os fóruns, e as palavras, novamente. Se calhar nunca as perdi, e se fossem seres vivos, as palavras, imagino todos aqueles anos em que estiveram semi-adormecidas, talvez pacientemente emboscadas nos recessos do subconsciente, à espera da oportunidade de atacar, de viver outra vez.

Dos fóruns passei para os blogs, algum tempo depois da moda que acometeu tudo quanto é internauta com algo (ou nada) para dizer, que nunca fui pessoa de embarcar à primeira nos desvarios da humanidade. Passada que foi a explosão inicial, resolvi-me a criar este espaço, sem expectativas de audiência, sem sonhos de glória e fama e fortuna. Pelo menos nisso sou realista, ora bolas. E espanto-me com as pessoas que já conheci, com aquilo que já disse, com o barulho que já fiz, e como mudei o mundo, o meu mundo, com as minhas palavras.

Como é possível, passado um ano, que ainda exista este monstro que constantemente me atormenta com pedidos de posts, esta coisa que faz um ano hoje, e ainda berra como recém-nascido que quer mamar um biberão de palavras, todos os dias. Faço-o passar tanta fome, eu sei, mas quando me decidi a criar o Passengers foi com o acordo prévio de que seria atípico dos milhares de blogs actualizados diariamente com parágrafos isolados, imagens, filmes, reflexões momentâneas certeiras ou mordazes, pequenos episódios do dia a dia. Não, meus amigos e amigas, aqui escreve-se ao quilo, com a eficácia de um comprimido para dormir, e por vezes com a inépcia de um macaco que escreve à máquina na esperança de criar um Shakespeare.

Passou um ano, e ainda cá estou, e passaram-se muitos anos, e ainda cá estou. Pirata sem perna de pau, adolescente frustrado que sonha com o seu nome em capas de papel couché, soldado cavaleiro aprumado que sonha longe da parada, civil apaixonado com dores nas costas que se estica para o mundo através de um monitor, temos todos ainda muito mais para contar, pelo que pedimos que verifiquem se ainda têm o vosso bilhete na mão, e se encostem nos assentos. A viagem vai continuar.

Montes de coisas para contar. Este macaco tem montes de coisas para contar, ainda. Montes. Montes. Montes.


PS – Aproveito para dar os parabéns à Patrícia, que vive dentro do fogo também há exactamente um ano. O espaço dela é feito de luz e intimidade, ao contrário do meu, que mascara e ilude nas sombras, por entre as verdades ocasionais. Que continues por muitos (montes de) anos, nesta tarefa de macacos, e que a tua convicção, força, e amor, se mantenham inabaláveis.

segunda-feira, abril 16, 2007

Leituras XI



“Penso que é tempo de termos uma pequena conversa. Estão confortavelmente sentados? Vou começar, então…

Calculo que estejam a perguntar-se porque motivo foram chamados aqui, esta tarde. Bem, como vêem, não estou inteiramente satisfeito com a vossa performance ultimamente. Receio que o vosso trabalho esteja a piorar e…

…e, bem, receio que estejamos a pensar seriamente em dispensá-los.

Oh, eu sei, eu sei, vocês já estão na empresa há muito tempo. Quasedeixem-me pensar. Quase dez mil anos! Palavra de honra, o tempo voa, não acham? Parece que foi ontem… recordo-me perfeitamente do dia em que começaram as vossas funções, a balançarem-se das árvores, inexperientes e nervosos, um osso apertado nos punhos encrespados…

Por onde começamos, senhor?’ vocês perguntaram, submissos.

Percorremos juntos um longo caminho, não é verdade? E sim, sim, estão correctos, em todos estes dias não faltaram uma única vez. Muito bem, meus bons e fiéis servos. Por favor não pensem que me esqueci do vosso extraordinário serviço, e de todas as inestimáveis contribuições que deram à empresa… o fogo, a roda, agricultura… é uma lista impressionante, meus caros. Uma lista deveras impressionante, não me interpretem mal.

Mas… bem… para ser sincero, também tivemos os nossos problemas. Não vale a pena tentar esconder isso. Sabem de onde penso que nascem estes problemas? Eu digo-vos… é da vossa básica falta de vontade de prosseguirem com a empresa. Vocês não parecem ter desejo algum de encarar qualquer tipo de verdadeira responsabilidade, ou de serem os vossos próprios patrões. Deus sabe que já vos deram oportunidades suficientes. Já vos oferecemos promoções por mais do que uma vez, e a cada uma delas vocês acabam por recusar. ‘Não conseguíamos fazer o trabalho, chefe’ choramingaram, ‘Nós sabemos qual é o nosso lugar.’

Para ser sincero, não estão realmente a tentar, pois não?

Sucede que vocês estão paralisados há demasiado tempo, e já se começa a notar no serviço. E se me permitem acrescentar, no vosso comportamento em geral. As disputas constantes no piso da fábrica não escaparam à nossa atenção. Nem as erupções de desordem no pessoal da cantina. E depois, claro, há… hmmm, bem, eu realmente não queria trazer isto ao de cima mas tenho ouvido alguns rumores perturbadores sobre a vossa vida pessoal. Não, não importa quem me contou. Pelo que percebi, são incapazes de se darem com os vossos conjugues. Ouvi dizer que discutem, que gritam. Actos violentos foram mencionados. Estou informado por fontes seguras que vocês sempre magoam aqueles que amam. Aqueles que nunca deveriam magoar.

E em relação às crianças? São sempre as crianças que sofrem, como vocês bem sabem. Pobres pequenos. O que é que eles podem fazer?

E não vale a pena colocarem as culpas da quebra nos padrões do serviço na má gestão, embora a gestão seja péssima. De facto, não vamos estar com rodeios: a gestão é terrível. Tivemos uma série de corruptos, fraudes, mentirosos, e lunáticos a tomarem uma série de decisões catastróficas. Isto é simples facto.

Mas quem os elegeu?

Foram vocês. Vocês que nomearam estas pessoas. Vocês que lhes deram o poder para tomarem as decisões no vosso lugar. Embora admita que qualquer um possa cometer um erro ocasionalmente, continuar a cometer os mesmos erros século após século não me parece nada menos do que deliberado. Vocês encorajaram estes maldosos incompetentes que transformaram a vossa vida e trabalho numa ruína. Vocês aceitaram sem questionar as suas ordens desprovidas de sentido. Vocês poderiam tê-los parado. Tudo o que precisavam de dizer era ‘Não’.

Vocês não têm espinha. Vocês não têm orgulho.

Vocês deixaram de ser uma mais valia para a empresa.”

Alan Moore, V For Vendetta, Vertigo, 2005. Ilustrações de David Lloyd.

Esta é uma tradução amadora do fantástico texto de Alan Moore, que pode ser lido na íntegra e na sua versão original aqui. Para informações adicionais sobre este excelente livro em banda desenhada, visitem este site.

Infelizmente, emprestei a minha cópia a um amigo, e não quero estar a escrever de memória, mas pretendo um dia destes escrever um post próprio sobre esta obra (e outras, de Alan Moore). Até lá, se tiverem oportunidade, leiam o livro. Nunca mais vão encarar a banda desenhada da mesma forma.

domingo, março 11, 2007

Cinefilias IV (O Labirinto do Fauno)



“Conta-se que há muito, muito tempo, a filha do rei do mundo subterrâneo sentiu um desejo irresistível de abandonar o seu reino de sombras e escuridão, e conhecer o mundo de luz, à superfície. Apesar da vigilância atenta dos servos do reino, conseguiu escapar, e fugir pela escadaria que desembocava na abertura ao mundo exterior. Lá em cima, a luz do sol irremediavelmente apagou as suas recordações de herdeira do reino, e tornou-a mortiça e frágil como os humanos, acabando a princesa eventualmente por morrer, esquecida do seu passado e das suas origens. Diz a lenda que o rei e a rainha ainda aguardam o retorno da sua filha, em outro corpo, quem sabe?, para reclamar o seu lugar como princesa herdeira do trono subterrâneo.”

Começa desta forma o filme do realizador mexicano Guillermo del Toro (mais ou menos, esta sinopse inicial foi escrita com base no que recordo, pois não consegui encontrar uma transcrição literal), e permitam-me que avance desde já com a informação que há algum tempo que não via um filme assim, que me enchesse por completo as medidas (desde “Little Miss Sunshine”), e ao qual não conseguisse apontar rigorosamente nenhuma falha. É frequente sentir-me assim perante algumas particulares obras, que depois não sobrevivem a uma segunda leitura ou visionamento (como “O código da Vinci” que adorei quando li a primeira vez, e que achei mediano e mal escrito na maioria das passagens, à segunda leitura); este apontar de perfeição deve-se ao deslumbre inicial quando sou confrontado com algo que me entusiasma particularmente, e que me deixa incapaz de notar as falhas mais ou menos óbvias. Pode ser que assim suceda com “O Labirinto do Fauno”, mas caramba, vai continuar a ser um dos favoritos. Sem dúvida.

Depois da introdução fantasiosa, somos apresentados à pequena Ofélia, uma rapariga fascinada com histórias de contos de fada, que viaja numa comitiva militar com a sua mãe, em estado de gravidez avançada, para ter com o seu padrasto, o capitão Vidal, um militar destacado para um posto militar rural no interior de Espanha, no período da guerra civil espanhola. A meio da viagem Ofélia encontra uma pedra com um olho esculpido, que encaixa numa estátua de aspecto antigo e pagão na margem da estrada. Este acto faz com que um insecto de aspecto estranho (maravilhosamente criado por computador) saia da boca da estátua, e a siga até ao posto militar, localizado no meio da floresta, num velho moinho.

O padrasto de Ofélia é um homem frio e calculista, que as recebe de uma maneira formal e distante, e naquela noite Ofélia é visitada pelo insecto, que assume a forma de uma fada, e a convence a segui-la até ao labirinto próximo do moinho, e a descer pelo poço que se encontra ao centro. Lá em baixo, Ofélia conhece o Fauno, que lhe diz que ela é a princesa perdida do reino subterrâneo, e que terá de cumprir três tarefas, para ocupar novamente o seu lugar a lado dos verdadeiros pais.

Dito desta maneira, poder-se-á pensar que “O Labirinto do Fauno” é um filme fantasioso e imaginativo, completamente deslocado do mundo onde vivemos. Até certo ponto, é verdade, pois nunca temos a certeza de que o que Ofélia vê (e nós), seja real, podendo até assumir que tudo aquilo não passa do delírio de uma criança que leu demasiados livros (como se isso fosse possível). O génio do realizador consiste em colocar todo este ambiente mágico num momento particularmente negro e cruel da história de Espanha, desenvolvendo praticamente duas histórias diferenciadas, embora com paralelismos aqui e ali.

Assim, de um lado temos as provas que Ofélia tem de encarar, com fantásticas criaturas e monstros absolutamente tenebrosos (a sério, há pelo menos um que é de arrepiar a espinha – o da foto acima), e por outro temos a luta que o Capitão Vidal empreende contra os rebeldes escondidos na floresta, e como este personagem se revela um monstro absolutamente maior e mais apavorante do que qualquer criatura do reino da fantasia. Não estou a brincar, este homem é assustador, a forma como assassina sem remorsos, tortura sem piedade, e o desprezo total que vota a todos os que o rodeiam (perante os problemas de gravidez da esposa não hesita em dizer ao médico para não se preocupar com a vida dela, se necessário, mas que salve o filho a todo custo), conseguem ser ainda mais arrepiantes.

Numa altura em que a maioria dos filmes produzidos pela máquina de Hollywood parecem ter sido feitos apenas e somente com base em fórmulas predefinidas de marketing, destinadas a arrancar o máximo de dinheiro possível das audiências no primeiro fim-de-semana de estreia, constato que cada vez mais encontramos ideias frescas e originais em cineastas que cresceram e aprenderam à margem dessa cultura de lucro fácil, ainda que tenham sido influenciados positivamente por ela. Grande parte dos realizadores de Hollywood, actualmente, sofrem de uma gritante falta de ideias, preferindo repetir fórmulas de sucesso à exaustão (e fazer remakes inúteis de filmes estrangeiros). Em cima disto, há a pressão das bilheteiras imposta pelos produtores, que preferem estrear filmes com a classificação mínima, por forma a maximizar a audiência potencial. Esta atitude compromete a visão de quem escreveu e de quem realizou os filmes, e se estas regras fossem aplicadas a “O Labirinto do Fauno”, o filme não seria metade da obra prima que é.

Vejamos, por exemplo, a cena onde Ofélia tem que entrar na sala do monstro da foto acima. Só de olhar para a aparência dele, percebemos que dali não pode sair nada de bom, mas para melhor ilustrar a ameaça que pende sobre a protagonista, Guillermo del Toro não se coibiu de, em primeiro lugar, mostrar-nos a decoração da sala, carregada de painéis onde o monstro aparece em variadas cenas macabras, a torturar e a comer bebés e crianças. Depois a câmara foca-se num canto da sala, onde existe uma pilha enorme de sapatos de crianças, as vítimas da besta. Agora imaginem os produtores de Los Angeles a ver isto, e a pensarem na classificação que o filme vai ter, e nos milhares de clientes com idades abaixo dos 13 anos que não vão poder entrar nas salas para ver o filme; quase consigo ouvir os cortes de tesoura a que o filme poderia ter sido submetido, fossem outros os financiamentos, e outro o realizador. Desenhos de bebés a serem esquartejados e devorados? Snip snip, não, não podemos chocar os espectadores, ora bolas, senão como poderíamos concretizar o cinematográfico objectivo mundial de transformar as multidões de indivíduos pensantes na massa amorfa capaz de pagar para engolir tudo aquilo que lhe enfiamos pelas goelas?

Ofélia é uma criança solitária, inserida num mundo terrível de violência e atrocidades sem par, povoado de monstros que poderiam ter existido (e que na verdade existem, neste mundo em que vivemos), portanto não é de estranhar que encontre escape nas fantasias dos contos de fada, mesmo que sejam contos de fada sombrios, como aliás todos os contos de fadas são (pelo menos antes da trituradora da Disney). Com um aspecto visual verdadeiramente impressionante, e perfeito em todos os detalhes, este filme representa um escape ideal para as nossas preocupações do dia a dia (ainda que durante a duração da película), e, no que me toca, vai ser sempre um dos favoritos. É um sonho fantástico, salpicado aqui e ali por elementos de pesadelo, que termina de uma forma ambígua, cabendo ao espectador decidir o que realmente aconteceu. Imperdível.

Precisa de uma segunda opinião?

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Sem certezas



Preparei há minutos um café bem forte, que vai ser uma ajuda inestimável à insónia que tem preenchido as minhas noites, ultimamente, e fui para a marquise, chávena numa mão, cigarro na outra, observar as tonterias dos gatos vadios no quintal da casa desocupada em frente. Há mais de uma semana que não estou contigo e sinto-me só, tão só que gostava de ser um gato vadio e não fazer mais na vida do que caçar e brincar no escuro de um quintal promovido a selva.

Não entendo como é possível que sejam trivialidades banais do dia a dia o motivo último para que estejamos separados, mas compreendo que por detrás destas trivialidades existam factores mais profundos e cortantes, que criam rupturas e cisões onde de outro modo existiria um saudável amor completo de rotinas. Só não me encaixa como é que umas coisas levaram às outras, e agora, por causa de banalidades, tenhamos chegado aqui.

É o que mais falta me faz, as rotinas de estar contigo como sempre estivemos, nestes passados três anos. Por esta hora estava a preparar-me para ir a tua casa, invariavelmente atrasado, e também esta rotina era reconfortante, saber que o meu atraso tinha-te a ti, no fim. Agora tenho todo o tempo do mundo, e não, não estou atrasado para nada, mas também só me restam as idiotices da televisão, observadas a partir da minha cama, ou este computador, esta cadeira que me arrebenta as costas e não diminui em nada a dor de não estar no sofá enroscado em ti. Este cigarro e esta janela debruçada sobre o mundo que passa debaixo de mim.

Queria ligar-te, mas não posso. Liguei demasiadas vezes, fui ao teu encontro demasiadas vezes, e preciso de saber que também és capaz de engolir o orgulho, abdicar de um pouco para estar comigo. Quero que queiras estar ao meu lado, sem a certeza de que vou ao teu encontro onde quer que estejas, seja como for que a nossa relação esteja. Porque vou, e isso é uma certeza tão certa como a de que te amo, como nunca amei ninguém. Sabe Deus que estou disposto a toda e qualquer humilhação para te ter nos meus braços. Só não posso é viver sem saber se és capaz do mesmo.

Já me conheces, adivinhaste decerto que entre o amor e eu há uma relação de extremos. Sou louco o suficiente para largar tudo o que tenho e tudo o que sou, em teu nome, mas sensato o suficiente para não querer menos de ti. Desde que te vi sentada na cadeira da aula de inglês, desde que me apaixonei sem qualquer esperança de um sentimento correspondente da tua parte, desde que desisti de ti. Desde que te dei o primeiro beijo no meio da confusão, do fumo e do barulho do Triplex, e em cada segundo de todos os minutos de todas as horas de todos os dias destes últimos três anos, que sinto em mim algo que me avassala e me altera por completo cá dentro, pelo que não posso ser egoísta a ponto de não exigir sentimento menor dentro de ti. Seria injusto, estás a ver, não podemos construir um amor assente apenas numa pessoa, e eu não posso suportar toda a carga disto, não posso ser o único com vontade de largar tudo e correr para ti, como já fiz tantas vezes. Temos que nos esforçar ambos.

Mas também te conheço bem, e sei que não vais fazer isto. Pelo que talvez seguirmos caminhos diferentes, como me disseste, seja a melhor coisa a fazer. Se não queres deixar o teu caminho nem por um instante, para me acompanhares no meu - acompanhares-me apenas, sem palpites ou direcções, só confiança de que sei para onde vamos - que posso mais eu dizer ou fazer senão deixar-me estar parado, a ver-te partir? Que mais?

Só queria que não custasse tanto, e que não pairasse esta certeza de que foste o meu último amor, aquele que passamos a vida inteira a recordar, a lamentar que tenha nascido, e que tenha morrido. Queria ser um gato que brinca no escuro e não pensa em amores ou caminhos separados, queria que não houvessem mais certezas. De nada e de coisa alguma.

Imagem: Jim Zuckerman