segunda-feira, agosto 07, 2006

Bits ao abandono

O computador onde escrevo estes textos é uma arcaica peça de museu chamada Pentium II Celeron que funciona a uma velocidade de 450 Mhz, possui 320 Megas de RAM, e dois discos rígidos: um, que foi uma adição tardia, de 10 Gb de capacidade, e o original, com uns impressionantes 2,5 Gb. Este patamar de tecnologia só foi alcançável após um upgrade, há uns anos, visto que a maquinaria original não passava de um rafeiro Pentium MMX adquirido nos idos anos de 1998. O expert de informática que me estará a ler, neste momento, já se benzeu três vezes, e acendeu um velinha ao Santo Intel, com toda a certeza. :-)

Recordo os tempos em que andava no antigo sétimo ano do secundário, e tinha o hábito de me sentar nas escadas da escola, à espera que o professor (a) chegasse, com os olhos fechados, a imaginar batalhas espaciais. Assim mesmo, em 3d, e com uma panóplia impressionante de efeitos especiais, lá andava eu a conduzir o meu caça intergaláctico (bastante parecido com as naves da série “Galáctica”, que idolatrava), a disparar lasers fulminantes ao mesmo tempo que me desviava de inimigos ágeis.

Algum tempo depois entrei em contacto com o fascinante mundo da informática, através de um potente Spectrum Zx 48K, que era de um amigo com pais que tinham capacidade financeira para esses luxos. Era um bichinho impressionante, com teclas de borracha que dificultavam sobremaneira a escrita, ligado a um gravador e acoplado a um televisor, onde jogávamos durante horas a fio aqueles jogos que vinham em cassetes e que, quando estavam a ser carregados para a memória, produziam um ruído sumamente parecido com o de uma legião de gatos a serem esfolados com água a ferver.

Quando jogava esses jogos, que não passvam de uma série de pontinhos coloridos em deslocação no ecran, acompanhados de uma cacofonia digital, sonhava com um jogo que me permitisse explorar os confins do espaço, com planetas a sério, cidades de arquitectura futurista que pudesse sobrevoar com a minha nave. Depois olhava para aqueles bonecos simplistas e pensava: “Não é possível! Como é que eles poderiam fazer um jogo assim?”. Anos mais tarde, com este computador e uma novinha em folha placa gráfica Voodoo 2 (que me custou 56 contos – perdi mesmo a cabeça com esta), pude finalmente experimentar essa sensação de liberdade, com os jogos Wing Commander IV e V, e o Privateer. Foram noites frenéticas de orgasmos mentais consecutivos, por entre o vácuo espacial.

A tecnologia avançou e o meu Groo (este computador: qualquer dia ainda vos explico o porquê deste nome) parou no tempo. Não é que não tivesse capacidade financeira para o actualizar, ou para comprar algo melhor, mas acontece que, nessa altura, o meu emprego fornecia a intervalos regulares máquinas quase-topos-de-gama. Só utilizava este pc durante os fins de semana, em Viseu, pelo que não senti necessidade de maiores investimentos. Entretanto, esse emprego terminou, as capacidades financeiras baixaram drasticamente, e eis-nos chegados ao agora, eu e ele.

Apesar do gosto pela acção espacial, sempre tive uma queda especial por aventuras gráficas. Para quem não conhece, trata-se de jogos onde controlamos um personagem envolvido numa história que o força a descobrir certos segredos, decifrar enigmas, falar com personagens, viajar a determinados locais, realizar acções, recolher objectos, etc. Tudo isto para desvendar o grande mistério, ou completar o hercúleo objectivo, e terminar o jogo. As aventuras gráficas não primam pela acção (mas também não desgosto um Doom), são jogos que se jogam de forma pausada, com calma, e que normalmente obrigam a uma certa capacidade de raciocínio.

Penso que devo ter jogado todos os grandes clássicos do género: The secret of Monkey Island 1, 2, 3 e 4; Full Throttle; Day of the Tentacle, Simon the Sorcerer 1 e 2, Beneath a Steel Moon Sky, Under a Killing Moon, Indiana Jones and the Fate of Atlantis, The Legend of the Amazon Queen, Broken Sword 1 e 2, Gabriel Knight 1, 2 e 3, Grim Fandango, e muitos, muitos mais. Para os que conhecem estas coisas não terá passado despercebido que a maioria dos títulos mencionados foram lançados pela Lucas Arts, nos seus primórdios, quando ainda se dedicavam em pleno às aventuras gráficas (e eram os mestres do género): destaco particularmente o Grim Fandango, que é um dos mais recentes, e que considero (não apenas eu) uma das melhores aventuras gráficas jamais feitas. Se por acaso acha que gostaria de jogar um jogo deste tipo, aconselho que o adquira o quanto antes: é perfeito (Tim Schaeffer no seu melhor).

Visto esta máquina não ter capacidade para que eu possa jogar aquilo que se vai lançando para o mercado hoje em dia (estou a falar, por exemplo, de Syberia 1 e 2, que são jogos belíssimos), resolvi munir-me da pá e do capacete de mineiro, e escavar as profundezas da Internet, em busca dos velhinhos clássicos que nunca tive oportunidade de jogar. Hoje em dia, estes jogos são chamados de Abandonware, por se encontrarem fora do mercado, e existem centenas de sites que se dedicam a disponibilizarem-nos para todos os saudosistas. Não é legal, aviso desde já, pois os jogos continuam a ser propriedade dos seus criadores, e mesmo o acto de download de um jogo que já não esteja à venda continua a constituir um infringimento das leis de copyright, tanto quanto se o jogo em causa tivesse sido lançado este mês.

Existe no entanto uma certa complacência para com estes sites, uma vez que não se trata de pirataria no sentido real do termo: será mais uma forma das pessoas poderem reencontrar os jogos que fazem parte do seu imaginário infantil e juvenil. É uma homenagem. No meu caso trata-se também de uma forma de conseguir jogar o que quer que seja neste calhambeque, e dessa forma poder aliviar um pouco os sintomas de insanidade mental, e fingir que não tenho um blog para actualizar, he he.

Amanhã falo dos jogos que fui buscar, e dos sentimentos que me despertaram. Tentarei igualmente esta semana dar mais alguma arrumação ao blog, com a adição de links para novos blogs, e a criação de uma imagem para o cabeçalho da página.

Até lá, e como sempre, boa noite e bons sonhos.

7 comentários:

maria.c disse...

Ah! maroto...ehehehe!

Sandman disse...

:)

É uma ilegalidade relativamente inofensiva, Lusce. A grande maioria das companhias que produziram esses jogos já não existem, ou então foram absorvidas por outras, pelo que é bastante difícil destrinçar quem é o detentor dos direitos legais dos jogos.

Permanece ilegalidade, mas pelo menos não se prejudica ninguém, e acabamos por prestar uma homenagem a estas obras antigas, e até a revitalizá-las no contexto actual.

Quero dizer, não ficam esquecidas, entendes?

*

Lótus disse...

Olá olá:)* .. bem agora q me fizeste lembrar esses tempos idos ;D .. pois tb fui uma vítima dos efeitos nefastos do Spectrum Zx 48K ;) hihihi lá vou à procura desses clássicos...

Pelo menos uma coisa temos em comum.. esse gosto por ficção ciêntifica, seja em filmes ou em jogos.. mas eu gostava mais de arrebentar com naves, estás a ver? .. aquelas maravilhosas máquinas do salão de jogos, para onde iam todas as minhas moedinhas, em tempo de férias :X ... era disparar contra tudo e todos, sem misericórdiaalguma :D uma maravilha para o stress hihihi ...

Espero q esteja tudo bem contigo. Lá tentarei aparecer mais vezes ;) beijokas ***

Sandman disse...

Olá Lótus, sê bem vinda como sempre.

Podes encontrar muitos clássicos nestes endereços:

http://www.abandonia.com/genre.php?genre=adventure&page=2

http://www.flashback-aw.net/gamelist.php?TopTen=Rating

Vais precisar de um programa como o DOS BOX para os poderes jogar. Procura no google, que é freeware.

Agora se o que pretendes são mesmo os clássicos do spectrum, então mais vale pesquisares por um emulador, que normalmente já traz uma série de jogos desses.

Jocas.

Patrícia disse...

Glup... não pesco nada de informática... Nem sei como descrever o meu portatilzinho querido... sei que é azul, foi comprado no final de 2003 e é Toshiba, pronto... serve? ;D

Eu cá jogo muitos jogos complexos... puzzle bubble (no telemóvel) e bejewelled e bookworm(no portátil)... :D I'm a geek, I know...

Flávio disse...

Por mais que os gráficos evoluam, nada se pode comparar aos jogos do bom e velho ZX Spectrum: os Masters of the Universe, o Rambo e, claro está, o Green Beret.(Ou se calhar os jogos de computador continuam iguais e quem mudou foi eu e nao os jogos, enfim) Mas o grande acontecimento era o Commando da japonesa Konami, que eu jogava em conjunto com o primo e o mano: um a controlar o boneco, outro a disparar e o terceiro a mandar granadas. Nunca me diverti tanto em frente de um computador como nesses tempos.

Sandman disse...

Não eram apenas os jogos que eram bons, Flávio, mas havia um sentimento de descoberta, a entrada num universo novo. Por muito bons que os jogos sejam, hoje em dia, não é possível resgatar o mesmo divertimento, o deslumbramento...

Fomos nós que mudámos, é verdade. Por muito bom que seja, não é a mesma coisa. E pergunto-me se os miudos de hoje irão sentir a mesma nostalgia, daqui a 20 anos... será que até agora sentem o mesmo que sentíamos na altura?