sexta-feira, setembro 01, 2006

Problemas de Expressão (Ridículas II)




It’s like I just woke up one morning
Looked out the way that we live
For things could be so much better
They must be better than this





A noite caiu em silêncio, e assobia no ar um sopro frio que convida ao recolhimento. Estive durante algum tempo na varanda a observar as pessoas apressadas, em direcção às suas casas, vindas de qualquer lugar, e agora estou aqui sentado. Mais uma vez em frente a uma folha branca feita de zeros e uns virtuais, a tentar traduzir o inconsciente, o que não se pode relatar em palavras. A ordenar pensamentos e a procurar que alguma ideia coerente escorra da mente confusa para a ponta dos dedos que febrilmente bailam sobre o teclado.

O momento mais difícil é sempre este: começar. Cada vez que revolvo os cantos dos sentimentos, para encontrar qualquer coisa que valha a pena dizer-te, deparo-me com uma barreira quase intransponível, que é a tradução daquilo que trago no peito de uma forma que possas compreender. Sei que houve alturas em que me entendeste bem demais, em que leste todos os textos e poemas que trago guardados mas não revelo a ninguém, mas também momentos existiram em que senti que não conseguias alcançar para além da superfície, que alguma noção ou ideia te toldava os pensamentos e desviava o entendimento para zonas mortas, onde existia um reflexo daquilo que eu demonstrava, mas que não era aquilo que eu era.

No leitor de cd’s os Clã debitam langorosamente os seus problemas de expressão, e acendo um cigarro, de sabor fumarento. Por instantes perco-me a observar o revolutear sinuoso do fumo cinzento, esguio e ágil como um ser vivo, sensual como uma bailarina do ventre, pleno de contorções e reviravoltas, que, como tudo no mundo, também podem servir de metáfora para a vida, e, em ultima análise, para o amor. As palavras custam a sair, e por vezes digo o contrário do que estou a sentir, mas também não é todos os dias que se vive um grande amor, e certamente não é todos os dias que se perde um grande amor, pelo que alguma reserva uma pessoa deve ter antes de condenar e procurar os inevitáveis porquês do fim, que ultimamente parecem andar sempre rodeados de culpas e mágoas.

Não tenho bem a certeza do que vai sair de mim, com esta carta. Aliás, nunca soube que pedaços entregava, a cada texto que te escrevia, e esta não vai ser excepção, pelo que te peço alguma paciência. Algures vais encontrar uma noção basilar, e é à volta dessa ideia central que gravitam todas as palavras que te escrevo, sozinho no quarto com musicas tristes e uma cerveja meio bebida, sem mágoa nem pudor. Quero que saibas, no entanto, que se desconheço o que esta carta vai ser, tenho ao menos uma ideia clara do que não vai ser: não é um pedido de desculpas, não é um pedido de retorno, não é para te “iludir” para mais um encontro, não é para te deixar triste, não é para dizer que te amo ou odeio, nem sequer para descarregar lamentos ou frustrações. Se tiveres paciência e alguma curiosidade para leres o que te quero dizer, permite-me que pegue a tua mão, e te leve para os próximos parágrafos; se não queres mais olhar para dentro de mim, então tens toda a liberdade de saltar até ao último parágrafo, onde certamente te darei um beijo imaginativo e original de boas noites, com votos sinceros de felicidade.

Não é fácil, sei bem, e percebo que exista muita mágoa, e palavras que ficaram por dizer – talvez até sentimentos que ficaram por revelar – na nossa história. Acredito que o amor é, por si mesmo, uma expressão de algo mais grandioso que nos ultrapassa, uma força natural que atrai e repudia, e tanto nos leva aos píncaros como nos rebaixa aos insondáveis abismos. É preciso esforço, muito esforço, para que o encaixe que parece tão natural ao princípio se prolongue para aquele acomodamento gentil e doce, que afinal não mais é do que um amor intenso vivido de forma gradual e calma.

Há muitas concessões e exigências nisto de amar alguém, e sei que alturas existiram em que dei a entender que não estava disposto a abdicar de nada, que não mais eras na minha vida do que uma nota de rodapé, uma anotação à margem das páginas. Sei que tenho a vida demasiado preenchida, e momentos houve em que abdiquei de estar contigo para poder responder a mais algum compromisso, e não posso pedir desculpa por isso, porque… bem vês, é assim mesmo que a vida é, não há nada que possamos fazer. Tu sempre foste a melodia central da minha vida, aquele pulsar ao fundo que marca o ritmo de tudo, mas no meio da canção sempre existiram notas que se introduziram à traição, e que distorciam um pouco o tempus da composição. Ao fundo, era sempre a tua canção que estava a tocar, era sempre a tua música que eu ouvia.

Porque sempre foste o meu porto de abrigo, aquele farol imutável que permanece sólido e afronta todas as tempestades, constantemente a alumiar o meu caminho. Por mais voltas e reviravoltas que a minha vida desse, por mais locais onde fosse e pessoas conhecesse, tu estavas sempre ao fundo da viagem, e mesmo indo na direcção contrária, era para ti que eu ia. Para ti, mais ninguém.

Não quero com isto dizer que te considerava “sempre ali”, eternamente disponível, viesse eu de onde viesse. Não. Quero dizer que podia sempre contar contigo, e não importa quão louca e movimentada fosse a minha vida, não interessava em que turbilhões da cidade e do pensamento me perdesse. Sabia que estavas lá, e sempre ia encontrar a paz no teu regaço, o descanso nos teus braços, a doçura nos teus seios.

O que é o amor, afinal?, o que significa na verdade amar alguém, senão encontrar nessa pessoa aquele refúgio onde podemos ser nós próprios, sem máscaras e sem mágoas, onde podemos sentir que amar é tão simples, tão fácil, tão verdadeiro, que nunca poderia ser de outra forma? Nunca precisei de me esforçar para te amar, e mesmo quando discutíamos, ou te zangavas comigo, eu sabia que eras tu, só podias ser tu. Contigo era simples, não havia lugar para lógicas complicadas, para equações de paixão, raízes quadradas de desejo, ou algoritmos de sentimentos. Estava implícito, e só isso é mais do que podemos esperar de uma vida regida por cálculos que contornam os sentimentos.

Nunca procurei em outros braços aquilo que os teus braços me davam porque não precisava, tu eras a fonte que matava todas as minhas sedes, mesmo que esta frase seja um terrível lugar comum e deva ser evitada a todo o custo. E se te pareci distante, alheio até, é porque não sentia necessidade de deconstruir o que me passava pelo peito, pois sabia que estavas ali para me receber, que aquilo que sentias era tão incondicional como o que sentia. Nem me apercebi que te afastava, que algures no teu íntimo uma outra compreensão se instalava. Parecia-te desinteressado? Dei-te a sensação que não tinhas a importância que devias ter? Fiz-te sentir menos especial do que aquilo que és, e mereces sentir? Não era a minha intenção, e só não te peço desculpa agora porque silenciosamente, ao longo destes tempos, já a pedi muitas vezes.

Sei que a vida tomou um rumo que talvez te leve para longe de mim. Sei que outros pensamentos te ocupam o espírito, e talvez não me dediques, no coração, mais que um fugaz aceno de lembrança, e está tudo bem, acredita. Um amor incondicional exige entrega e abnegação, e eu quero que sejas feliz, mesmo que a tua felicidade passe fora do meu, do nosso caminho. Da mesma forma que sei que mereces ser feliz, também sei que fomos felizes, mesmo no meio da amargura e das discussões. Porque a vida e o amor têm que ter atrito para conjurar calor. Todos temos que ter momentos menos bons para que os momentos felizes sejam realmente felizes. É assim que eu vejo a nossa história, e sei que foi uma história bonita, de amor profundo, altos e baixos, risos e lágrimas, beijos e olhares duros, mas não seria profundo se não tivesse existido nada disso. E talvez já não te amasse, se nada disto tivesse acontecido.

Não te vou esquecer, porque não se esquece alguém como tu, e se tens que ser feliz seguindo o teu próprio caminho, sozinha ou sem mim, então estou mais que disposto a recolher-me silenciosamente para o lado e deixar-te passar, lançar-te um olhar prolongado e deixar que este amor me leve para outro local, para onde tenho de ir. Talvez as coisas pudessem ter corrido de outra forma, e talvez estivesse nas minhas mãos o rumo para que tal sucedesse, e eu não soubesse para onde deveria ter ido, ou para onde te deveria ter levado, mas não é altura para recriminações, ou lamentações sobre o que poderia ter sido, mas não foi.

Irão as nossas linhas da vida cruzar-se novamente, como já se entrelaçaram antes? Não sei. Dizem que o amor nunca afasta verdadeiramente ninguém, e mesmo que caminhemos em direcções opostas, nesta terra que querem que acreditemos ser redonda, acabaremos por nos encontrar algures pelo caminho. Talvez nos encontremos livres de tudo o que nos afastou da primeira vez, e possamos olhar um para o outro, redescobrir o que nos trouxe e traz sempre de volta, começar outra vez. Mais maduros, mais seguros, mais vividos, com mais bagagem de alegrias e tristezas, mais prontos para nos aceitarmos.

Não te quero esquecer, não te vou esquecer, e sempre trarei a tua imagem guardada ciosamente e com carinho no coração. Porque há momentos para fugir de nós próprios e de quem amamos, e momentos para acreditarmos que estas certezas só surgem uma vez na vida, não as conseguimos ocultar, afogar em desilusões, asfixiar em ressentimentos. Há amores que sabemos instintivamente que foram únicos, e por terem sido únicos sempre viverão dentro de nós. Esta certeza é algo que vou carregar comigo, enquanto existir, mesmo que te veja ao longe com outra pessoa, mesmo que te olhe nos olhos e desvies o olhar, mesmo que passes por mim, e não digas uma palavra. Sei bem qual é o som da tua voz, e sempre vou conseguir ver o verde dos teus olhos.

Antes que a cortina final encerre este ultimo acto de nós dois, há ainda uma coisa que te quero dizer, e não é nada elaborado ou romântico de uma forma pretensiosa. É apenas uma constatação:

Foste tu. Foste sempre tu, a única certeza da minha vida, aquela que trago desde que te vi pela primeira vez, e que vai permanecer comigo muito tempo depois de teres desaparecido no horizonte.

E é tudo. Desejo-te boa noite, com um beijo prolongado, do tamanho das estrelas que brilham no teu olhar, suave como o toque sedoso da tua pele, e sentido, como todo o amor que nos uniu, que nunca nos vai separar.

24 de Janeiro de 2006 (escrito a pedido)

8 comentários:

Anónimo disse...

é uma carta que tras muita magoa e tu bem sabes porque..mas ao mesmo nao sei porque ha um sorriso ca dentro que fica lindo ao ler a carta, tu bem sabes porque amigo melhor que ninguem...este torbilhao de emoçoes que foram e serao essas palavras e ideias que elas transmitem...aquele abraço maior e obrigado..ja agora so por curiosidade esta a tocar i got you babe...

Sandman disse...

Um abraço, amigo. :)

Marta disse...

Porto de abrigo mais fiável de todos: uma pessoa conhecer-se a si própria. Tudo o resto pode falhar, pode mudar, pode ir embora. Mas isto tem de se manter - sólido, seguro, imbatível, imperturbável contra marés tenebrosas e demolidoras. A única mudança que aceita é o crescimento.

Patrícia disse...

o email do blog funciona?

Sandman disse...

Sim, Marta, podemos sempre contar com nós mesmos, com o conhecimento interior. Afinal, nós vamos sempre estar aqui, á nossa beira. Mas nem sempre basta.

Quero dizer, o problema de apenas confiares em ti é que um dia olhas para o lado e não tens ninguém. Ninguém em quem te apoiar quando a vida te ultrapassa e sozinha não vais lá.

E já dizia o outro: "Ninguém é uma ilha..." (Na verdade dizia "Nenhum homem é uma ilha" mas já passamos essa fase de designar a espécie humana com atributos puramente masculinos, não é?)

:)

Marta disse...

Até os faróis construídos no meio de um mar bravo têm de ter o seu ponto de apoio. ;>

Marta disse...

Hoje preciso mesmo de me agarrar a esta ideia para me convencer... O ponto que estou a fixar está a ficar cada vez mais desfocado. Vou imprimir isto e colar aqui à minha frente.

Sandman disse...

:)

Força nisso e não esmoreças.