domingo, fevereiro 11, 2007

Inside The Fire



“Como não percebo patavina disto, pensei "what the hell”, e se eu tentasse?". E tentei.”
Quarta-feira, Maio 24, 2006


Diz-nos a Patrícia, no seu blog, que é uma “mulher sonhadora (até à ingenuidade), que cresceu cedo demais”, e é bem verdade que os seus escritos deixam transparecer um certo encanto primordial de menina que descobre o mundo em cada olhar, mas também uma sensatez e força que só algumas mulheres parecem ter, e que se vislumbra não raro nas suas opiniões e nos comentários pessoais que deixam adivinhar, aqui e ali, pedaços da sua vida, e do seu universo.

A Patrícia tem os cabelos cor de fogo na fotografia que recebe os visitantes do blog, e não me refiro àquele fogo loiro que arde rápido e consome em segundos, mas sim ao fogo vermelho de combustão lenta, ondulante e sensual, que vai queimando devagar em torrentes de calor. E há um não sei quê de misterioso no rosto em perfil de uma mulher – bonita, por sinal – emoldurado em ondas de vermelho escuro, pousado num ramo, na enigmática contemplação de algo que se encontra fora do enquadramento da fotografia. É uma imagem de várias leituras, com diversos entendimentos, e que espelha de uma forma particularmente visual aquilo que podemos encontrar nos seus textos: intimidade incompleta.


“Sorrio e rio. Imenso. Com a mesma força com que solto lágrimas de fogo. Emoções ao rubro, sempre. E vale a pena.”
Terça-feira, Junho 27, 2006


É o que mais me agrada na Patrícia: é capaz de se expor de uma forma tão provocadoramente ingénua ao passante comum, e de revelar tanto do que lhe atravessa a alma, mas com o sempiterno cuidado de nos fazer perceber – sem palavras – que nada do que vemos e lemos se pode traduzir numa imagem definida e enquadrada. Como a fotografia que nos acolhe, há sempre algo que faz parte da imagem, mas está fora do alcance da objectiva. Num mundo em que cada vez mais as pessoas se fecham sobre si, isoladas em pequenos cubículos de intimidade ensaiada, a Patrícia vem quebrar as barreiras do self-containment e agracia-nos com pequenas fotografias incompletas da alma, retratos de retalhos da personalidade que não revelam mais do que o que as palavras encerram, mas permitem teorizar e imaginar o que desponta para além do teclado.


“Dou por mim a pensar que as pessoas já só teorizam sobre o Amor, já só o pensam em abstracto. Objectivamente, vêem-no em filmes, lêem-no em poemas, ouvem-no em músicas. Ainda o conseguem sentir? Algum dia conseguiram?”
Domingo, Maio 28, 2006


Não me recordo exactamente o que me trouxe ao seu blog, mas sei que foi numa daquelas noites em que decidi fazer zapping pelo universo bloguístico, pouco tempo depois de ter criado o meu próprio blog. Houve algo nos posts que me chamou a atenção, e desde essa altura que encontro sempre qualquer coisa nova naquilo que lhe leio, e vou construindo a imagem que tenho dela, embora nunca chegue verdadeiramente a saber para onde olha, que é o mesmo que dizer que há muito que fica por descobrir.

Já percebi, no entanto, que há muito em comum entre nós: seja pelas opiniões que partilhamos, pelo romantismo de que padecemos, pela paixão e compaixão pelos animais que defendemos, pelo gosto que temos em ler-nos, ou pelas curiosas coincidências que vamos descobrindo ao redor.


“Na minha vida, tudo parece acontecer com a celeridade e o impacto de uma rajada de vento. Aprendi a viver assim, a receber tudo o que surge com a ingenuidade da tábula rasa.”
Segunda-feira, Junho 19, 2006


E se coincidências não existem, como ambos parecemos acreditar, o que dizer do facto de os nossos blogs terem nascido no mesmo dia, separados por cerca de 12 horas, perfeitamente delineando a fronteira entre a luz e a escuridão que nos separa? Eu mantenho-me no fundo negro e mando mensagens criptografadas ao mundo, sob a forma de textos com pretensões literárias, e a Patrícia revela-se no fogo que incandesce, e abre o espírito em palavras que decifram o puzzle feminino da sua pessoa mas não deixam ver para além de onde a luz termina, e começa a noite.

É daí que nasce esta empatia que sinto por ela: como se, de alguma forma, duas pessoas que nunca se encontraram se possam conhecer através dos estranhos acasos que o destino vai desenhando, para cada um de nós. E não precisando de ver a Patrícia, ou de falar com ela cara a cara, sinto que está ali alguém que me compreende, ou poderia compreender. Alguém que me lê, e sabe exactamente o que está a ler, mesmo que essa compreensão nasça a partir do que ela sonha entender das minhas palavras, da mesma forma como eu adivinho o ponto para onde ela olha, com o queixo apoiado no ramo, de todas as vezes que a visito.

É para ela que olha (mulher menina que sonha com ingenuidade). E para nós.

Visitem-na.


“Mas aqui não cabe uma vida.”
Terça-feira, Outubro 24, 2006

Imagem: Hugo Logg


2 comentários:

Patrícia disse...

Vês mais do que revelas. E sim, reconheço-me em ti, neste texto e noutros.

Sem acasos, estava provavelmente escrito que nos havíamos de encontrar, ainda que neste universo estranho e tão mais propício às máscaras e à frieza. Mas tu, noite quente e doce, de sonhos envolventes, não constróis qualquer muralha nem ensaias seduções enganadoras.

Admiro-te no Amor que nutres e embalas (e que desejo, com toda a minha força, que te inflame sempre de felicidade), admiro-te na paixão da literatura, admiro-te na arte que te brota dos dedos para este papel virtual, admiro-te no Homem que te adivinho. Pleno e mágico como uma Noite de Verão.

Obrigada pelo carinho, Sandman

Aqui ou no mundo não virtual, haverá sempre espaço para a nossa amizade.

Marta disse...

when there's nothing else to burn, we have to set ourselves on fire