sexta-feira, julho 21, 2006

Carpe Diem


Até ao próximo dia 29 estarei a viver a vida em modo offline, num belo repouso algarvio. É a primeira vez que passo férias no Algarve, e estou a modos que ansioso por dias de areia escaldante e águas tépidas. Daqui a uma hora farei como os pássaros, que sempre foram mais espertos que qualquer um de nós: rumarei a Sul.

A todos os que por aqui passam (e porque não? a todos os que nunca por aqui passaram, igualmente), desejo uma boa semana, quer estejam a viver os dias calmos, ou no meio das horas asfixiantes de produtividade.

Voltarei renovado, e de escrita renovada. Levo comigo a Sr.ª Patrícia Highsmith e o Sr. Truman Capote, para me fazerem companhia, mas posso também adiantar que terei outra companhia mais palpável e infinitamente mais agradável, pelo que prevejo umas boas férias.

Fiquem bem, e continuem a sonhar. Até logo.

Leituras VII

"- Costuma ler o Record?

- Olho para ele mas não o leio. Os jornais não dizem verdades, só contam factos. Quer discutir essa questão?

- Fica para outra vez - respondeu Ellery, sorrindo. - Mas tenho de confessar que o admiro, Toyfell. Tem aguentado muito bem golpes que teriam deitado abaixo um homem mais fraco. Em pouco tempo, morrem-lhe dois patrões e um amigo, e você continua aqui... a filosofar.

- Conhece-te a ti mesmo - disse Harry Toyfell, ajoelhando novamente [no jardim]. - A alma do homem é imortal e imperecível.

- Você é religioso?

- Foi um pagão que disse isto. Leia Platão. Mas as pessoas já não lêem Platão. Só os jornais. A minha religião é adorar a Deus em cada semente. Na igreja não há nada além de flores cortadas."

Ellery Queen, Cara ou Coroa, Biblioteca Visão Mestres Policiais, Linda a Velha, 2000, páginas 71 e 72.

Lugares de sonho II


(continuando)

Trata-se, portanto, de uma colisão entre a realidade vivida e imaginada com a realidade existente. Digo vivida e imaginada porque nunca os nossos lugares de sonho foram tão perfeitos na altura em que os frequentámos, como quando agora os imaginamos; existe sempre uma cortina de idílio que cobre o véu das recordações, e esconde as arestas mal entalhadas da paisagem; é assim que sei que o recanto debaixo da ponte até era um pouco desconfortável, com todos aqueles mosquitos e moscardos em busca de carne quentinha para aferroarem as suas presas. E a pedra onde estendia a toalha também ficava a dever um pouco ao conforto de um espaço de terra macia coberta de relva.

Mas era o meu lugar de sonho, na medida em que passei lá muitas boas tardes, que agora procuro resgatar da memória.

Assim, como o personagem do romance de Nick Hornby que ansiava por um emprego numa moldura temporal específica, também acredito que há locais que apenas podemos encontrar num determinado tempo: são os nossos lugares de sonho. Já não existem na esfera material da realidade presente, porque dificilmente conseguiremos reunir todas as condições para que os mesmos sentimentos – recordações – sejam sentidos espontaneamente.

O que não deixa de me provocar certa tristeza, pois relembrar momentos felizes do passado significa assumir que nunca mais poderemos existir naquela série de circunstâncias, e estamos voluntariamente a dizer a nós mesmos que aquela felicidade não volta mais. E não volta mesmo. São lugares de sonho porque permanecem apenas nos sonhos, e só os evocamos num determinado tempo, que, como todo o tempo do mundo, correu, correu, gastou-se e passou, sem olhar para trás.

Quem conseguirá ficar totalmente feliz, depois de ter vivido momentos felizes, mesmo que agora esteja a viver outros momentos felizes? A lembrança da felicidade passada não trará apenas um certo amargo aos dias presentes? Poderemos verdadeiramente congratularmo-nos por uma infância alegre, despreocupada, se o próprio facto de a estarmos a recordar significa que – melancolicamente falando – nunca mais os dias serão assim tão inconsequentes? Porque será que fico triste quando me lembro de quão pouco triste era?

Arquivamos essas memórias como livros na prateleira, que servem como reconforto de uma vida plena mas também como monumento à perenidade das coisas: tudo acaba, tudo chega ao seu termo, nada volta ao que era. Tentar resgatar isso apenas introduz um elemento de anormalidade na vida, porque não podemos regredir no tempo, e já não somos as mesmas pessoas que viveram aqueles momentos. Crescemos, evoluímos, e como cobras que despem a pele que já não lhes serve, como uma meia velha, também nós temos que descartar certas vivências, e atirá-las para um poço de lembranças.

Estes três dias que passei em Viseu serão, no futuro, um lugar de sonho: Viseu, entre 14 e 16 de Julho de 2006. Foi um tempo e um local onde me entreguei por completo à despreocupada felicidade, mesmo tendo alguns maus augúrios a ensombrarem-me o céu sem nuvens. Foram dias de jantar na esplanada de um restaurante na zona antiga da Sé, ao som de um concerto ao vivo dos Fingertips a vinte metros das mesas, depois de uma tarde quente dividida entre o repouso na relva fofa e o mergulhar na água fresca. Foram fins de tarde carinhosos com alguém que muito amo na varanda de casa, por entre goles de cerveja e festas ao gato que ofereci à minha sobrinha, ao som da mais acertada escolha de músicas da RFM que já presenciei.

E foram também os dias da desilusão do encontro com o monstro de cimento que o rio debaixo da ponte se tornou, mas também dias mágicos de descoberta da ponte romana, mais adiante, que conduz a outra enseada verdejante, igualmente bela.

São assim os meus lugares de sonho. Existem apenas geográfica e temporalmente precisos em momentos que não se repetem, mas que melhoram com o passar dos anos. Pertencem ao mapa e ao calendário, o que os torna ainda mais distantes daquilo que sou agora. Posso esquecê-los, eventualmente, mas não são esquecidos. Evoluem, como eu.

Este post também evoluiu para direcções diferentes daquelas que eu imaginava levá-lo. Queria que tivesse saído um pouco mais poético, porque era esse o meu estado de espírito quando me decidi a escrevê-lo, e espero bem que me sirva de lição: nunca adiar a escrita quando ela quer ser escrita. Serve no entanto de aviso à navegação, pois amanhã por esta hora estarei a rumar para um lugar de sonho (Vila Real de Santo António, entre 22 e 28 de Julho de 2006), o que significa que privarei os meus três ou quatro leitores e leitoras do aborrecimento de lerem monólogos fastidiosos e intermináveis durante alguns breves dias :).

Até lá, boa noite, e bons sonhos.

segunda-feira, julho 17, 2006

Lugares de sonho I



No livro “Alta Fidelidade” de Nick Hornby, a dada altura vemos o personagem principal a tentar elaborar uma lista com os seus cinco empregos de sonho. O primeiro é, se a memória não me falha, ser jornalista da Rolling Stone entre 1972 e 1977 (os anos podem ser diferentes, não me apetece ir vasculhar os livros acumulados para conferir).

Cheguei hoje de uma viagem de três dias com a namorada (chuac!), da mui nobre e bela cidade de Viseu, pátria dos meus segundos passos da infância, que costumo visitar com alguma frequência, pois toda a família é de lá, e penso que poderemos aplicar um raciocínio similar aos nossos lugares de sonho.

Que todos temos, julgo. – Seja uma praia onde se passaram férias fantásticas, seja um local que se partilhou com alguém especial, seja o restaurante onde fomos pedidos (as) em casamento, ou aldeia onde crescemos, e até mesmo o chaparro debaixo do qual perdemos a virgindade. – Ou que, pelo menos tenho eu, e como tal os identifico. Embora não tenha perdido a virgindade debaixo de um chaparro (nem em cima, já agora).

O mal dos locais de sonho é a erosão do tempo. Não estou a falar da memória que eventualmente se desvanece, ou encapsula as recordações distantes numa forma de idílio celestial. Refiro-me ao desgaste físico, ou mesmo à destruição por mão humana. É assim que a praia que foi palco de um romance inesquecível, marcada por horas de namoro debaixo do pôr do sol, pode apresentar-se-nos, viajantes sedentos em busca do resgate de memórias saudosas, coberta de gaivotas histéricas, fruto da instalação recente de canos fétidos que desembocam na linha de água. E é uma desilusão.

Já passei por esse sentimento de perda demasiadas vezes; havia uma passagem na estrada velha que ligava Viseu a Vila Nova de Paiva, logo após uma curva ampla que concluía uma recta tão côncava como as dobras na virilha de uma mulher, que sempre considerei mágica: as árvores em volta da estrada quase que pareciam estar a dobrar-se, a quererem tocar-se através do espaço vazio, e formavam um longo túnel de verde frondoso que criava padrões de luz surreais nos dias solarengos. Foi com um constante pasmo de beleza, reverente respeito, que passei ali vezes sem conta, e foi com uma dor física no peito que verifiquei, há alguns anos, que um incêndio elevado a catástrofe reduzira aquele túnel, que nos abraçava com folhas, a uns poucos cotos enegrecidos nas margens do alcatrão. Ainda me dói quando lá passo, felizmente que construíram uma estrada alternativa.

Nessa mesma estrada (deverão já ter percebido que a própria estrada é para mim um local de sonho), quilómetros antes, há uma passagem que cruza com o rio Vouga, em forma de ponte em arco. A ponte eleva-se a uma altura respeitável sobre um desfiladeiro fundo, onde o rio cava, lá em baixo, o seu infindável caminho. Esse ponto do rio, há cerca de vinte, trinta anos, era bastante concorrido, e recordo-me de tardes alegres nas enseadas que então existiam, passadas com a família. Ainda sinto o cheiro do churrasco preparado ao ar livre, da fome de uma manhã passada a chapinhar atrás dos peixes.

Vieram entretanto as vias rápidas para o mar, as agências de viagens com pacotes turísticos pagos a prestações, a moda de ir para fora lá fora, e o local foi sendo progressivamente abandonado, deixado ao crescimento desenfreado das silvas e giestas. Só uns poucos resistentes voltavam ano após ano, e acreditem, havia bons motivos para isso: mesmo debaixo da ponte formava-se um pequeno açude convertido em piscina natural, que terminava numa escorregadia cachoeira que, por sua vez, era ladeada por enormes pedras que pareciam estar sempre em equilíbrio precário, e onde meia dúzia de banhistas estendiam as toalhas e se refastelavam como lagartos ao sol.

Admirava a beleza simples do local, a harmonia entre a cascata construída há décadas por mãos humanas e a beleza da natureza envolvente, que se tinha inteligentemente adaptado a uma arquitectura antiga feita de pedras empilhadas unidas com cimento grosso. Todas as casas das aldeias parecem habitar a paisagem como se tivessem sido feitas pela natureza, e aquela cachoeira dava a sensação de ter sido feita à custa do martelar constante da água, não destoava mais do que os rochedos gigantes. Foi sempre um local de sonho. Até lhe perdoei quando a minha irmã escorregou nas algas – e poderia ter sido muito mais grave – e ficou com um dedo virado ao contrário na mão que usou para se apoiar.

Frequentador assíduo do espaço, verifiquei como, de ano para ano, a minha toalha ia ficando mais sozinha na pedra gigante. Não me importei, e nem me preocupei se o motivo da falta de visitantes estaria de alguma forma relacionado com a qualidade da água. “Óptimo, mais sossego tenho”. E nunca deixei de voltar ao local, com a família, nos dias sufocantes do Verão.

Até há um par de anos, quando algumas mentes brilhantes – diria mesmo iluminadas – consideraram que seria uma excelente ideia encher o local de cimento em pontos estratégicos, desviar o curso da água lateralmente, promover a cascata a barragem à custa de quilos de massa, e, de uma forma geral, deformar completamente a paisagem, que passou de harmonia entre rochas, água e verde, a profusão de cinzento árido e água estagnada.

Porra.
(amanhã continuo)

terça-feira, julho 11, 2006

Leituras VI


"Apontei para a secretária vazia de Miss Fromsett e a loura acenou com a cabeça e carregou numa cavilha. Abriu-se uma porta e Miss Fromsett surgiu com o seu ar altivo, indo sentar-se à secretária, fitando-me com uma expressão fria e interrogativa.

- Faça favor de dizer, Mr. Marlowe. Mr. Kingsley ainda não chegou.

- Estive agora mesmo com ele. Onde podemos conversar os dois?

- Conversar?

- Queria mostrar-lhe uma coisa.

- Ah, sim? - Olhou desconfiada para mim.

Talvez muitos outros homens tivessem tentado atraí-la com coisas para lhe mostrar. Noutra altura qualquer também eu próprio era capaz de tentar a minha sorte."

Raymond Chandler, A Dama do Lago, Biblioteca Visão Mestres Policiais, Linda-a-Velha, 2001, página 100.

Palavras caras


Estive este Domingo na Feira do Livro, no Parque Urbano de Ermesinde, por um feliz acaso. Este tipo de eventos é o meu Toys ’R’ Us dos dias adultos, mas não pelos descontos nos livros novos; esses passam-me ao lado, é mesmo pelos livros em segunda mão. Confesso que me perco quando começo a vaguear pelas mesas de livros amarelados, com capas adoravelmente kitsch, e um vago odor a mofo. Metamorfoseio-me em mulher fanática por compras, na época de saldos. Acredito, inclusive, que os instintos femininos assomem à superfície, pois recuso-me a comprar o que quer que seja antes de ter manuseado tudo o que há para ver (“comprava já isto, mas e se na próxima loja estiver algo que me agrade ainda mais?”)

Duas horas depois estava com um saco em cada mão, razoavelmente cheios, restos de gelado no lábio, e um ar satisfeito de quem acabou de adquirir:

~ Shōgun, James Clavell, Vol. I, Publicações Europa-América, 541 páginas.
~ Shōgun, James Clavell, Vol. II, Publicações Europa-América, 543 páginas.
~ Cara ou Coroa, Ellery Queen, Biblioteca Visão Mestres Policiais, 256 páginas.
~ A Clínica do Terror, Mary Higgins Clark, Biblioteca Visão Mestres Policiais, 272 páginas.
~ A Dama do Lago, Raymond Chandler, Biblioteca Visão Mestres Policiais, 206 páginas.
~ A Sangue Frio, Truman Capote, Biblioteca Visão Mestres Policiais, 320 páginas.

Total: 6 livros, 2138 páginas, 10 euros (na verdade os dois primeiros foram oferecidos - obrigado amor -, mas o preço total está correcto).

À partida, não seria necessário escrever mais nada, uma vez que se a (o) cara (o) leitora (or) – é bom variar hábitos de escrita para o feminino, não acham? – tem paciência para me ler, não lhe serão alheios os preços mercenários da literatura, hoje em dia. Mas vamos penetrar só mais um pouquinho no âmago da questão (adicionei esta expressão fálica para os leitores não pensarem que beneficio apenas as mulheres).

O livro “A Sangue Frio”, de Truman Capote, está actualmente a ser comercializado a um custo de 17,96 € (dados obtidos na Fnac, Edições D. Quixote), e também aqui quaisquer óbvias conclusões tornam-se redundantes. É correcto afirmar que a edição na Fnac tem uma capa bonita, em alusão ao filme recentemente estreado, e fará melhor figura na estante lá de casa do que a edição de capa dura da Visão, que até diz “Colecção Lipton”, com o respectivo logótipo da bebida na contracapa. Mas isto é totalmente irrelevante para quem compra livros para ler (talvez esteja a aplicar o meu molde a todos os bons leitores, mas eu – sei bem – não compro livros para expor na prateleira. Não o faria, sequer, se tivesse uma prateleira).

Por outro lado, quem visita livrarias com alguma frequência, e vai para além das estantes frontais dos tops do momento, sabe decerto que o preço do livro de Truman Capote não estava tão inflacionado, antes da estreia do filme. Não há qualquer censura implícita nesta jogada da editora, afinal, tudo é negócio, e se se podem colocar livros tecnicamente off the immediate market a render mais umas moedas, quais prostitutas desdentadas momentaneamente elevadas à condição de novidade da semana, hey hey hey, more power to you, mighty publisher.

Mas não resisto a dar uma rapidinha na novidade da semana: só mesmo na mente de um bando de mentecaptos gananciosos que ouviram demasiadas teorias de marketing é que um livro com 40 anos de existência poderia ser trazido para a ribalta de preços de primeira edição, depois do relativo sucesso comercial de um filme baseado nesse livro de 40 anos, sendo que a punch line, nesta triste anedota, é que o filme deve a sua existência justamente ao sucesso do livro em questão. Confusa (o)? Já estou a ver os masterminds da editora a salivarem de antecipação perante as notícias da box office, os olhinhos cheios de cifrões, como os desenhos animados de há 40 anos, a imaginarem as dúzias de pacóvios que vão generosamente abrir as carteiras para pagar preços mais elevados por um livro, só porque alguém decidiu, um dia, adaptar a história ao cinema. E na maior parte das vezes nem se dão ao trabalho de disfarçar: é imprimir umas sobrecapas com as trombas do actor que faz o papel do personagem principal, embrulhar nas edições encalhadas em centenas de livrarias, e já está; saldos ao contrário, aproveite antes que façam a sequela. Outras vezes não é preciso encapotar o abuso; basta comparar os preços do Código da Vinci, que cheguei a encontrar a 13 ou 14 euros, depois de esgotada a euforia inicial, e agora já se alavancou a uns respeitáveis 16,16 €, com o lançamento do filme.

Os filmes baseados em livros incentivam a leitura das obras originais? Claro que sim. Os abutres também voam em círculos onde sentem carne fresca, mas isso não é motivo para tentar sacar mais alguns tostões das poucas pessoas cujos hábitos de lazer sustentam essas mesmas editoras. Queixam-se que actualmente se lê pouco? Da minha parte, considero que a invenção das sanitas de assento fez mais pela criação e incentivo de hábitos de leitura do que estas empresas que só sabem contar moedas.

E já sei o que fazer de agora em diante: estar bem atento às notícias sobre cinema, para decidir que livros comprar, antes que alguém decida prostituí-los.

sábado, julho 08, 2006

Cinefilias I (Poseidon)



Na década de 70 o cinema americano era fértil em filmes catástrofe: “A torre do inferno” (incêndio), “Aeroporto” (desastre aéreo), “Terramoto” (abelhas assassinas, obviamente), e muitos outros, tendo “A Aventura do Poseidon” alcançado um certo degrau de sucesso comercial.

Essa fase conheceu o seu inevitável fim, e eis que quase 40 anos depois voltamos à fase do revivalismo, onde parece que os argumentistas ficaram todos sem ideias de jeito, pelo que se entretêm a desempoeirar velhos hits do passado, com uma roupagem ligeiramente modificada, e a apresentá-los com uma panóplia alucinante de efeitos especiais. Também poderia dizer que esta é a fase dos filmes visuais, ou bombásticos, onde qualquer personagem credível, diálogos inteligentes e histórias coerentes, são substituídos por efeitos especiais caríssimos, de arregalar a vista, que visam exclusivamente colmatar todas as falhas referidas (a outra táctica é contratar mulheres com seios enormes – nunca falha).

Felizmente que “Poseidon” não é nada disto (está bem, eu confesso: é). Sim, tem efeitos especiais de cortar a respiração. Sim, os personagens são tão superficiais e caricaturizados quanto os dos livros da Margarida Rebelo Pinto. E sim, a história, apesar de tentar manter alguma pouca coerência, é simplista o quanto baste (pensaram que eu ia escrever q.b. não pensaram, seus hereges?). O filme sofre de todos os defeitos que normalmente caracterizam o consumo de massas preparado especialmente para acéfalos comedores de pipocas, mas, pelo menos, assume totalmente essa vocação comercial, atira-nos para uma montanha russa de emoções e perigos, e manda-nos para fora da sala com a refrescante sensação de que fomos total e obliviamente entretenizados.

Muito rapidamente, a premissa do argumento: Barco gigante de recreio, na noite de passagem do ano novo, é atingido por onda gigante, e fica virado ao contrário. Alguns passageiros recusam-se a esperar pela salvação (uma atitude bastante sensata, pois a cavalaria, em Hollywood, chega sempre tarde demais) e unem esforços para escapar pela única saída possível: a abertura das hélices.

É um pouco forçado, eu sei, mas neste tipo de filmes temos que nos sentar com a “suspensão da credulidade” ligada no nível máximo. E mesmo assim, há algumas passagens que realmente são demasiado inverosímeis (a sequência dos parafusos na grade, por exemplo), mas enfim, tudo é sacrificado em nome de uma boa diversão.

Wolfgang Petersen parece estar a especializar-se em: a) filmes catástrofe (ver “The Perfect Storm” e “Das Boot”) e b) filmes de ambiente náutico (ver “The Perfect Storm” e “Das Boot”), e consegue dirigir a história com segurança e mestria, optando por um ritmo avassaladoramente rápido, intercalado nos momentos certos por pequenas pausas na acção que permitem que nos recostemos para trás, e acalmemos os nervos. E acreditem que nervos é o que o espectador (bem como as personagens) mais vai sentir, seja pelas situações de insuportável aflição em que os personagens se vêem metidos, seja pelo facto de estarem sempre, sempre, sempre, a sair da frigideira para o fogo, em momentos de tensão cumulativamente mais stressantes.

Apreciei algumas opções do argumento que, ao evitar a banal sucessão de clichés de filmes do género, consegue surpreender (ver a cena do Valentin no elevador, e do afogamento de um personagem que em qualquer outro filme, seria intocável). Também gostei de notar que o realizador não se coibiu de nos mostrar todas as pouco higiénicas cenas macabras que um desastre destas dimensões certamente teria, se tivesse realmente acontecido (ao contrário do avião despenhado de Spielberg, no “Guerra dos Mundos”, que concerteza não tinha um único passageiro a bordo).

E depois é o festim visual: começa com a cena inicial, onde apreciamos as tremendas dimensões do navio, num plano de travelling só possível através de efeitos digitais, de belíssimo efeito. O momento do embate da onda também está muito bem concebido, e os cenários do navio, seja antes do desastre (um luxo grandioso), seja depois (um caos grandioso), são de uma perfeição difícil de igualar (reparem no hall principal do navio, antes e depois). Tecnicamente, “Poseidon” está impecável, e nota-se o extremo cuidado posto no projecto, o que só por si serve como garantia da (alguma) qualidade do filme, mesmo sendo pipoqueiro ao extremo. Os actores servem o propósito do argumento, e não se esforçam muito a aprofundar subtilezas: aqui, é sempre a correr, e para a frente, numa cadeia de dificuldades sucessivas, em crescendo. Notam-se aqui e ali alguns clichés, rapidamente engolidos quando o filme começa a acelerar.

Resumindo: para quem procura o significado da vida enquanto entidade intangível da sublimação do real no imaginário, o filme é mais do que apropriado, uma vez que quem tem esse tipo de problemas tende a encontrar respostas no que quer que seja que se lhes apresenta à frente, através de enfatuados processos mentais.

Agora se o que desejam é desligar o cérebro durante cerca de duas horas, mais vale irem ver um filme expressionista alemão, ou impressionista francês, para dormirem um pouco. Neste filme, ninguém dorme, todos nadam.
E correm.

Quer uma segunda opinião?

terça-feira, julho 04, 2006

O sobrevivente


15 minutos atrás. Estou a chegar a casa. Na rua paralela à da minha humilde residência sou bloqueado pelo camião do lixo, e municio-me de paciência, pois já sei, de encontros anteriores, que ainda vou apanhar mais três contentores carregados de dejectos citadinos, antes de chegar ao cruzamento onde posso virar, e afastar-me do mamarracho de ferro. Não tenho hipótese de fuga, a rua é estreita, de paralelos, revestida de carros estacionados de ambos os lados. Mais vale acender um cigarro, e esperar.

Admiro a profissão dos homens do lixo; têm um trabalho duro, odorífero, e deve dificultar sobremaneira os engates, depois de lhes perguntarem o que fazem. São úteis, e condenados à incompreensão social.

Um dos contentores está mais cheio do que o normal, provavelmente alguma empresa que despejou o lixo acumulado do fim-de-semana. Observo a azáfama dos homens, entre o distraído e o atento à música na rádio, e reparo que um deles pára por momentos o que está a fazer, para observar o objecto que tem nas mãos: é um livro. Parece antigo, ainda do tempo em que as pessoas mandavam encadernar os livros com capas castanhas e letras a dourado, para aumentar a durabilidade, e desenhar uniformidade nas estantes da sala. Também tem um volume de páginas respeitável. Imagino que tipo de idiota achou que seria boa ideia atirar com um livro para o lixo, e pergunto-me se não haverá mais amontoados de palavras, presas dentro daqueles sacos azuis, inchados. É um pouco triste.

Felizmente, aquele livro em particular recusa-se a resvalar para o esquecimento; não quer morrer uma morte pouco digna por entre os detritos. O homem do lixo, trajado com roupas fluorescentes, folheia por breves segundos as suas páginas, o papel amarelo a deslizar por entre as luvas grossas de cabedal, e encaixa o sobrevivente numa das protuberâncias de metal do camião. Não sei qual o título na capa, nem o que terá ele lido que despertou a sua atenção, mas sei que foram palavras poderosas, palavras que não estavam destinadas a perder-se. Cada vez que disser, de hoje em diante, que não escolhemos os livros, eles é que nos escolhem a nós, vou recordar-me do livro condenado, que se salvou nos últimos instantes. O sobrevivente.

Aquele livro nasceu de um sonho que alguém um dia teve, e dedicou dias e noites a materializar em palavras o que até então era apenas traduzível em imagens, sons, e recordações; foi lido por alguém que decidiu que o conteúdo era bom o suficiente para levar outros a disponibilizarem-se a pagar uma determinada quantia, para conhecer os sonhos do autor; já esteve disposto nos escapatares de uma livraria, a cheirar a novo, com uma capa colorida, e atraiu a atenção dos passantes; foi lido, possivelmente relido, adorado ou odiado, e depois arquivado numa estante, ou num canto de uma secretária; talvez anos mais tarde tenha sido transferido para um sótão, onde acumulou pó durante anos e anos; pode ter sido herdado por algum energúmeno, que não se deu ao trabalho de ler o que continha, e decidiu matá-lo, atirá-lo para o limbo dos livros que já ninguém lê, nunca ninguém lerá. Aquele livro estava destinado a nunca mais ser lido, e compreendam que para um amante de livros, como sou, estas são palavras terríveis, com uma fatalidade de dimensões trágicas. Estou contente por ter sobrevivido, por ter encontrado o caminho de casa.

As palavras nunca morrem.

sexta-feira, junho 30, 2006

Leituras V

"Pode abordar o acto de escrever com nervosismo, excitação, esperança ou mesmo desespero - com a sensação de que nunca poderá transpor para a página o que lhe vai na cabeça e no coração. Pode aproximar-se dele com os punhos fechados e os olhos semicerrados, pronto a partir tudo e a registar os nomes. Pode aproximar-se dele porque quer que uma rapariga se case consigo ou porque quer mudar o mundo. Aborde-o de qualquer maneira excepto irreflectidamente. Permita-me que o diga outra vez: não se aproxime irreflectidamente da página em branco.

Não lhe estou a pedir que o faça de maneira reverente ou incondicional; não lhe estou a pedir que seja politicamente correcto ou que ponha de lado o sentido de humor (Deus queira que o tenha). Não se trata de um concurso de popularidade nem das Olimpíadas da moral, e não é a igreja. Mas trata-se do acto de escrever, gaita, e não de lavar o carro ou de pintar os olhos. Se consegue levá-lo a sério, podemos conversar. Se não for capaz ou não estiver disposto, é altura de fechar o livro e de fazer qualquer outra coisa.

Lavar o carro, talvez."

Stephen King, Escrever, Temas e Debates Editora, Lisboa, 2001, página 96.

quarta-feira, junho 28, 2006

O porquê das coisas: Rosto

Sandman, ilustração de Gene Colan (cores invertidas)

“Beyond, outside my Dreamworld there is infinite dust, infinite dark. And the Dreamworld is infinite although it is bounded on every side. The way to the center is a slow spiral. One passes the houses of mystery and secrets... old way stations on the frontiers of nightmare. From there one charts a course nightward until one reaches the Gates of Horn and Ivory. I carved them myself, when the world was younger, and order was needed. I hasten to the Gates.

The dreams that pass through the gates of Ivory are lies, figments and deceptions. The other admits the truth. No one guards the horned gate anymore. I remember the way of old. Once through it I can see my castle. Through it I will be able to see... my home...”

Neil Gaiman, Sandman, Vol. I Preludes & Nocturnes - Imperfect Hosts

O Sandman sempre fez parte do folclore, desde tempos imemoriais, presente em inúmeros contos infantis contados de forma a iludir as crianças para irem para a cama. Tradicionalmente, o Sandman espalha um pouco de areia nos olhos das crianças, para que estas adormeçam e tenham sonhos felizes; as remelas que todos temos, pela manhã, são os resquícios dessa areia mágica que abriu as portas do sonho.

É uma ideia bela. Demasiado bela para não ser aproveitada, e realmente foi. Tanto em livros, como em bandas desenhadas, sempre existiram histórias do Sandman. Na Detective Comics, o Sandman era um herói de ideais ingénuos próprios da década de 40, que combatia o crime com uma arma de gás que adormecia os malfeitores; em 1970 o personagem foi alvo de uma revitalização, mais adequada aos tempos de então, e passou a ser um super herói de fato justo amarelo e vermelho, que protegia as crianças quando estas se aventuravam nos reinos do pesadelo.


Em 1988, um jovem autor de nome Neil Gaiman, que até à data havia apenas escrito duas novelas gráficas (nome popularmente dado a histórias independentes em banda desenhada que se afastam dos cânones normais de publicação, e que primam por uma maior qualidade gráfica), propôs à DC Comics a publicação de uma revista mensal, com o Sandman como personagem principal. A ideia foi aceite, mas ninguém sabia bem o que iria sair dali.

O “Sandman” teve uma publicação mensal ininterrupta de 75 revistas, desde 1988 a 1996, e pelo caminho tornou-se um verdadeiro fenómeno de massas, tendo revolucionado por completo o género. Até à data, as revistas de banda desenhada eram consideradas como entretenimento superficial para crianças e adolescentes, estreladas por heróis de corpo quadrado em fatos de spandex, e heroínas de seios voluptuosos e curvas perfeitas, em trajes minúsculos.

“ROSE: Say, whoever you are. Do you know what Freud said about dreams of flying? It means you're really dreaming about having sex.

MORPHEUS: Indeed? Tell me, then, what does it mean when you dream about having sex?”

Neil Gaiman, Sandman, Vol. II The Dolls House - Into The Night

O “Sandman” destacou-se justamente por ser uma das poucas revistas que existia totalmente fora desse universo, e apresentou uma série de histórias destinadas a um público maduro, abordando assuntos adultos e controversos, prenhe de uma qualidade de escrita considerada literária, e assumindo com justiça um lugar de destaque no pódio das grandes obras literárias do século XX. Os prémios que recebeu durante a sua publicação foram demasiados para serem enumerados, mas há pelo menos um que posso indicar, e que demonstra cabalmente a qualidade da obra: A história “A Midsummer’s Night Dream”, onde William Shakespeare apresenta a peça com o mesmo nome, pela primeira vez, ao Sandman e a uma delegação das Fadas, ganhou o prémio World Fantasy Award, em 1991, para Best Short Fiction, e o ultraje foi tamanho que no ano seguinte as regras do concurso foram alteradas, para que nunca mais uma história em banda desenhada pudesse concorrer contra histórias em prosa.

O personagem principal é o Sandman, ou Dream, senhor do reino dos sonhos (Lord of The Dreaming), que não mais é do que uma personificação antropomórfica imortal dos sonhos. A sua família é composta de mais seis personagens, chamados “The Endless”, e cada um deles assume também uma representação de algum aspecto da realidade (Delirium, Despair, Destruction, Desire, Destiny e Death), e é conhecido por vários nomes (Morpheus, Oneiros, Lord Shaper, Dream).

“Never a possession, always the possessor, with skin as pale as smoke, and eyes tawny and sharp as yellow wine: Desire is everything you have ever wanted. Whoever you are. Whatever you are.

Everything.”


Neil Gaiman, Sandman, Vol. IV Season of Mists – Episode 0

Não é uma personagem simpática, a princípio, este Sandman. No primeiro volume de histórias (Preludes & Nocturnes), é aprisionado, e forçado a passar 70 anos dentro de uma bolha de vidro, enquanto no mundo grassa a “Doença do Sono”. Quando se liberta, há algo que mudou em si, apesar dele não se aperceber, e é nas histórias seguintes que vamos ver o que o Sandman era antes do seu cativeiro, e no que se tornou depois. Eventualmente, essa série de mudanças levará a um fim trágico, mas isso é outra história.

Entrei em contacto com estas revistas no longínquo ano de 1989, era eu um adolescente borbulhento, no Brasil. Foi o meu grande amigo, Renato, que não vejo desde 1991 (mas que ainda é um grande amigo), que me emprestou os primeiros volumes, que eu devorei como uma debulhadora a funcionar a todo o vapor, em seara de trigo. “Isto é diferente”, lembro-me de dizer a mim próprio. Infelizmente (e felizmente, por uma série de outros motivos) depois voltei para Portugal, e nunca mais tive acesso às suas histórias, até ao belo ano de 1998, numa visita à Livraria Inglesa, no Porto. Comprei os 12 volumes originais, que reuniam a compilação de todas as revistas, e fiquei fã. Quando comecei a explorar estes mundos virtuais, de salas de chat e conversas com desconhecidos, foi o nick que adoptei, porque me identifico com a ideia geral por detrás das histórias, com a poesia submersa nas palavras de Neil Gaiman, e porque sou um sonhador inconformado, desperto ocasionalmente.

“DESTRUCTION: I like the stars. It's the illusion of permanence, I think. I mean, they're always flaring up and caving in and going out. But from here, I can pretend. I can pretend that things last. I can pretend that lives last longer than moments.

Gods come, and gods go. Mortals flicker and flash and fade. Worlds don't last; and stars and galaxies are transient, fleeting things that twinkle like fireflies and vanish into cold and dust.

But I can pretend.”


Neil Gaiman, Sandman, Vol. VII Brief Lives – Chapter 8

Foram as histórias do Sandman que despertaram em mim o desejo de começar a escrever as minhas próprias histórias: como pequenas teclas que emitem sonoras vibrações, houve partes de mim que vibraram com insistência, enquanto lia (e leio), e me fizeram pensar “Isto é muito bom, e eu quero tentar fazer algo assim. Mesmo que não consiga, como provavelmente não conseguirei. Mas quero tentar”. O “Sandman” nunca foi algo destinado a ter o sucesso que teve, e deveria realmente ter sido uma pequena série de histórias obscuras, destinadas a afundarem-se no nevoento esquecimento.

Neil Gaiman apenas sabia que era aquilo que queria escrever, independentemente de quaisquer estudos de mercado ou estratégias de marketing ou literaturas destinadas a atingir a máxima rentabilidade financeira. Ele queria escrever aquelas histórias, de um mundo trágico rodeado de personagens de contos de fada, mitológicos, fantasiosos, que reflectia exactamente o mundo interior em que todos vivemos, fora das quatro paredes que construímos para nos protegermos. E escreveu.

Consigo identificar-me plenamente com esse sentimento: não estou aqui para tentar ser rico a escrever spin offs de romances históricos de fundo religioso, ou amontoados lamechas de palavras comercialmente românticas que apelam ao piegas que há em todos nós. Posso escrever isso se quiser, e talvez o faça, eventualmente, mas agora não; sei que tenho uma escrita por vezes maçuda, e que talvez a maioria das minhas histórias não despertem grande apelo comercial, posto que não têm muita acção, nem bombas e murros portentosos; são mais revoluções interiores. Mas é isso que quero fazer, e realmente é pelo prazer que o faço, mesmo sendo um tanto ou quanto realista, e sonhando inocentemente um dia conseguir tornar-me algo parecido com um escritor a tempo inteiro. Na verdade, nem é pelo dinheiro, é só porque detesto acordar cedo. :) E isso, camaradas, é sermos nós mesmos.

“AMELIA: A woman shouldn't have to sleep her life away. Women aren't about dreaming. We're about the real world. Even your grandma woke before she died. Women are about waking, Rose.

As mothers we wake them from nothingness to existence. As maidens we wake them to the joys and miseries of adulthood, wake them to the worlds of lust and responsibility. And when their time's up, it's always us has to wash them for the last time, and we lay them out for the wake.”


Neil Gaiman, Sandman, Vol. IX The Kindly Ones – Six

Curiosamente, também foi o “Sandman” o responsável pela entrada maciça de leitoras femininas no universo da banda desenhada, mundo até há algum tempo exclusivo dos homens; é a força com que os personagens são retratados, a realidade com que vemos as mulheres daquele mundo, no que dizem, pensam, e fazem. O modo como interagem entre si, ainda que nas situações potencialmente absurdas em que por vezes se vêem enredados (as).

As histórias permitem que nos percamos e passemos alguns minutos bem passados, mas também servem como fonte de reflexão, e podem inclusive engrenar novas perspectivas de ver o mundo. Ou, pelo menos, uma sonhadora e poética maneira realista de ver o mundo em que vivemos.

“MORPHEUS: It has always been the prerogative of children and half-wits to point out that the emperor has no clothes. But the half-wit remains a half-wit, and the emperor remains an emperor.”

Neil Gaiman, Sandman, Vol. IX The Kindly Ones – Eight

Foi com alguma perplexidade que alguém um dia observou que os leitores do “Sandman” transcendem um pouco o que é normal no meio, na medida em que desenvolvem uma vontade latente de ser algo mais do que um mero espectador: querem também ser os encenadores dos seus próprios sonhos (na arte de contar histórias). Não fico surpreendido, pois sou um perfeito exemplo disso, e considerando que foi deste desejo que nasceu este blog, nada mais apropriado do que beber directamente da fonte, e criar algo que reflicta um pouco esse espírito: sonhar e contar, contar e sonhar. Sonhar, e fazer sonhar.

“CHORONZON: I am a dire world, prey-stalking, lethal prowler.

MORPHEUS: I am a hunter, horse-mounted, wolf-stabbing.

CHORONZON: I am a horsefly, horse-stinging, hunter-throwing.

MORPHEUS: I am a spider, fly-consuming, eight legged.

CHORONZON: I am a snake, spider-devouring, posion-toothed.

MORPHEUS: I am an ox, snake-crushing, heavy footed.

CHORONZON: I am an anthrax, butcher, bacterium, warm-life destroying.

MORPHEUS: I am a world, space-floating, life nurturing.

CHORONZON: I am a nova, all-exploding... planet-cremating.

MORPHEUS: I am the Universe -- all things encompassing, all life embracing.

CHORONZON: I am Anti-Life, the Beast of Judgement. I am the dark at the end of everything. The end of universes, gods, worlds... of everything. Sss. And what will you be then, Dreamlord?

MORPHEUS: I am hope.”


Neil Gaiman, Sandman, Vol. I Preludes & Nocturnes – A Hope In Hell

Boa noite, e bons sonhos.

segunda-feira, junho 26, 2006

O porquê das coisas: Voz


Após inúmeros e insistentes pedidos (na verdade foi só um, e bastante polido) por parte de uma gentil leitora, vou explicar os motivos por detrás deste blog. Não serão os motivos pelos quais escrevo e criei o blog, uma vez que estes já foram extensivamente respondidos, mas antes um esclarecimento sobre o nome que este modesto escriba adoptou (acto que por si só revela uma ignominiosa soberba), e outras curiosidades que tais.

Primeiro, a voz do Sandman. "Passengers" é o título de uma das suas histórias, e que contém a minha citação favorita de toda a série (que podem ler parcialmente logo abaixo do título do blog). Convém no entanto dizer que o Sandman é o equivalente do nosso "João Pestana", personagem que borrifa os olhos dos humanos com areia, para que estes adormeçam e sonhem. Nos livros de Neil Gaiman, o Sandman é Morpheus, o Senhor dos Sonhos, e utiliza os sonhos das pessoas, para viajar pelo mundo, sendo que a citação completa refere justamente uma destas viagens (em que ele busca a cidade de Mayhew, à procura de uma jóia - big story - don't ask - read the book):
"I am a passenger. I am moving through your dreams. I am riding in your dreams.
I ride on dragonback from Manhattan, the dragon is made of rivetted iron and smells of cotton candy. I travel briefly by bus: in the back the dreamer copulates desperately, not noticing his autonomous passenger. I sit at the front and talk to the driver.
Approaching the state of Delaware, the dreamer is a small dog, dreaming impatiently of a past life, long forgotten when he sailed tall ships across uncharted. The salt spray of the ocean stings my face.
I am moving through dreams, pulling toward Mayhew, feeling for the jewel. Through your dreams, my sleeping children, you had a passenger, and you never knew."
Há qualquer coisa nesta citação que me arrepia... a pura poesia interior, a forma como as imagens se casam perfeitamente com as palavras (neste caso no livro, em B.D.), e como as palavras aguentam bem sem as imagens. A ideia de deslocação, passagem de um ponto/estado/local/sentimento para outro é algo que ressoa forte em mim, porque pode ser (como muitas outras coisas, mas esta particularmente) uma poética metáfora para a vivência.
Haverá algo que defina tão bem a miséria e glória humanas como a esplanação do percurso de uma vida, assente nos risos e lágrimas que vamos coleccionando pelo caminho?
Eis portanto que nasce o texto "Passengers", e muito posteriormente a ideia do blog, sujeito a uma multiplicidade de temas, e com uma série de constrições e libertações, mas, principalmente, dedicado aos sonhos, e não apenas aqueles que vivemos nas horas mortas da noite.
Todos os sonhos, até aqueles que já esquecemos.
Continuamos amanhã. Boa noite, e bons sonhos.

quinta-feira, junho 22, 2006

Teaser (escrituras inacabadas)

"De madrugada, o beijo caiu na cidade.

Posteriormente, aventaram-se todas as possibilidades lógicas e mirabolantes para o sucedido, mas a verdade é que toda a história, em si, foi bastante estranha, e não menos estranha terá sido a forma como terminou.

No início, porque toda a estranheza começa com a altercação populista da normalidade, o som do falatório atravessou ruas, de janela em janela, porta para porta, espalhou-se pelo ar como ondas rádio de alta frequência, em clima de perplexidade geral, e aterrou nas páginas dos jornais locais, primeiro em notícias de tom jocoso, depois em editoriais irados de ignorância, por fim em crónicas onde o medo palmava o pulso às palavras. Levantou voo novamente – desta vez em verdadeiras ondas rádio –, pelo éter, notícias de hora a hora intercaladas por anúncios singelos a estabelecimentos regionais, a galgar montes e planícies, mais rapidamente que o azoado dos pássaros, até ganhar dimensão tridimensional com notícias de fecho dos telejornais nacionais, entre nascimentos de ursos no jardim zoológico e festas em instituições de caridade, inevitavelmente transmitidas por pivots de sorriso ao canto da boca.

Na cidade, levantaram-se as mais alteradas e dissonantes vozes, para explicar o sucedido: uns, amnésicos do seu próprio tempo, iraram-se contra o que consideraram ser uma – mais uma – leviandade da juventude, outros revoltaram-se contra as autoridades municipais pela alteração patrimonial, que julgaram ter sido feita à revelia da população. As beatas levaram as mãos ao céu pintado no tecto da igreja românica, onde querubins de aspecto rosado e bem tratado pairavam por detrás da pintura a escamar, e clamaram às hostes terrenas e celestiais o seu ultraje pela orgíaca destruição da virtude.
Indubitavelmente, os lunáticos das conspirações associaram o inusitado fenómeno às recentes aparições de luzes de origem desconhecida, nos campos mais afastados da muralha que circundava a cidade, e os fanáticos da regionalização invectivaram as massas à revolta, apregoando ser este mais um exemplo do poder arbitrário do governo centralista, que considera as cidades do interior tão pouco ou menos importantes, que nem são tidas nem achadas no que concerne à colocação, escolha, e alteração dos monumentos, vulgo mobiliário urbano."
Sandman, O Beijo, Porto, 2006, ainda inacabado, e a precisar de umas (valentes) polidelas, antes de ver a noite deste blog, mas de qualquer forma hoje estou cansado, e apetecia-me mesmo escrever qualquer coisa, mas a cama seduz-me com encantos que a escrita não tem, pelo que não quis ir sonhar antes de vos deixar este teaser, na vã esperança que se ofereçam para me depositar uns trocados na conta bancária, de maneira a que eu não precise de trabalhar durante o dia, e possa dedicar toda a minha atenção ao raio do conto, e terminá-lo, por fim. :-) (Não, isto não foi um pedido despudorado, foi uma piada. Está bem, não teve graça, sue me.

terça-feira, junho 20, 2006

I see your face before me


Afaga-me. Passa-me as mãos pelo rosto, descobre os meus altos e baixos, quero ter-te no escuro, cegos ambos, a ver-me através dos teus dedos. Não acendas a luz, não é preciso, amor, nunca precisei de te ver com clareza para saber de cor o desenho do teu corpo, e sempre encontrei o meu tesouro nos teus segredos, sempre soube como eras, de que formas és feita. Não acendas a luz. Afaga-me com ternura, devagar, sabes que este amor só o podes viver em slow motion, e ao contrário dos teus dias, quero que as noites sejam feitas de vagar, quero que me descubras até me saberes de cor, de olhos fechados.

Lembras-te das Pontes de Madison County? Nunca entendeste que aquela história é a nossa história, que a dança ao som da música do Johnny Hartman é a nossa dança, e que vivemos todos os dias sem saber o que esperar, sem saber que partimos para regiões desconhecidas. Acalenta-me, diz-me que toda a nossa vida vai ser um romance impossível como o dos filmes, e que te vou perder tantas vezes como te vou reaver, porque não acredito em amores seguros, tenho que saber o que é estar sem ti, e deixar que a dor me acaricie o peito, para melhor te saborear na noite seguinte.

Toco-te com dedos interrogativos, na cegueira do negrume, e vejo a tua face, e sei que és o meu único sonho, não há nada mais do que a tua face nos meus dedos, e nada mais do que o meu sonho nesta cama. Estamos os dois no meio dos lençóis suados, e só consigo ouvir a tua respiração entrecortada, se fosse surdo nem saberia que estás aqui, parece que sonho, que estou sozinho a lutar para não acordar, a imaginar uma pessoa que não existe. Já sonhei tantas vezes contigo, nem imaginas o que é isso, ter-te ao meu lado e ser surdo e cego, não te ouvir a respirar, agora que já aqui estás, deixa-me voltar a ser só, para ler o teu rosto no toque dos dedos, e acordar do sonho de solidão.

Não acendas a luz, e não me perguntes nada. O dia já tem demasiados porquês, quero que a noite seja uma pergunta sem resposta, um desconhecimento dos sentimentos, a incógnita do carinho. Entra-me como eu entro em ti, penetra-me com o medo do explorador incauto, como eu adentro o teu intimo húmido, sem mapa, não digas nada e não acendas a luz, toca-me e olha-me nos olhos cegos, afaga-me.

Fecha os olhos, afaga-me.

A Bomba

Tive a honra de ser mencionado de forma elogiosa pelo bombista Flávio, no seu espaço, pelo que venho aqui retribuir a cortesia, pois que o homem merece.

Um blog "sobre filmes, livros e todas as outras coisas" pode não parecer nada de especial à primeira vista, mas acreditem, este é mesmo uma BOMBA, assim mesmo, em negrito e maiúsculas, a adivinhar a detonação. É um espaço de opiniões lúcidas, bem fundamentadas, longe de hermetismos analíticos que impregnam tantas críticas que lemos, actualmente. Não paguem para ler opiniões destas, não gastem trocos suados na "Premiére", ignorem as secções cinéfilas e literárias dos jornais e revistas, está aqui tudo o que queriam ouvir. E é grátis.
Lembrem-se: é explosivo, mas é de qualidade, e grátis. Tudo o que queriam ouvir, em detonações controladas.

segunda-feira, junho 19, 2006

Leituras IV

"(...) Vidal trazia num bolso o carimbo de borracha com o número de registo que legalizava a organização sindical e um atado de fichas de filiação em branco. Noutro bolso guardava um recorte tirado de Ecrán, uma revista de cinema.

- Sabe quem é? - perguntou-me, mostrando-me a formosa e enigmática mulher.

- Greta Garbo - respondi eu.

- Ela protege-me. Sou ateu, mas é sempre bom ter alguém a quem a gente se encomende - garantiu Vidal."

Luis Sepúlveda, As rosas de Atacama, Porto, Edições Asa, 2001, página 72.

sábado, junho 17, 2006

O futebol não é tudo


Foi nos momentos imediatamente a seguir à derrota de Portugal com a Grécia. Tinha prometido que nunca mais, jurei mesmo, ao deus cristão, aos restantes do panteão celestial, nunca mais vou deixar que estas coisas me afectem desta maneira, não pode ser, o futebol não é tudo na vida de um homem, nem sequer é 10% daquilo que constitui o ror de coisas importantes. Logo eu, que nunca liguei assim tanto a estas coisas, como vejo outros fazerem, logo eu que sorrio quando o Sporting ganha, e encolho os ombros quando perde. O futebol não é tudo. Não é mais que um filho, um beijo, um sorriso, uma amizade, um amor.

Depois arrastei-me sorumbaticamente para o canto mais escuro que encontrei, e, sozinho, pesado, mandei embora o “monstro” para os recessos do subconsciente, enterrei-o sobre camadas de preocupações e existências. O futebol não é tudo, lembra-te das guerras e da fome no mundo, deixa lá isso.

Mas não aprendo. Nunca aprendo. Vejo hoje o jogo contra o Irão, e porra, logo contra um país que quis recuar no tempo, que ameaça toda a gente, maltrata as mulheres, e restantes cidadãos em geral. Logo um país que no passado foi o expoente no que dizia respeito às artes, à orgulhosa história, e agora parece um daqueles brutos no recreio da escola, de pau na mão, a querer bater em todos. E a mim, só me apetece dizer que somos países irmãos, quero sentar-me numa esplanada com um iraniano e conversar longamente sobre como o jogo foi bom, eu com a minha cerveja e ele com o que quiser beber. Quero encontrar uma iraniana à saída do estádio, e trocar a minha bandeira pelo “chador”, erguer bem alto o que é a liberdade, seja em mãos levantada, seja sobre a fronte pousada.

Dá-me para estas coisas, o futebol. Vivo no oposto do ódio ao adversário, existo num mundo redondo que não é o mesmo daqueles que destilam a raiva nos caprichos da bola. Tantos toques elegantes, movimentos coordenados, sinto-me esmagado perante as fintas de génio, os remates mortíferos, as defesas que deveriam ter sido golos, foscas só podia ter sido golo, mas não foram. São bailados as coreografias que se fazem, valha-me Deus que não percebo nada disto, e sofro como nunca sofri, nem me atrevo a chorar, não consigo rir, atravesso os 90 minutos agarrado às mãos, pequeno como os mais pequenos, a enlouquecer porque o jogo ainda não acabou.

Nunca aprendo. Queria ser como os intelectuais que vituperam contra o fanatismo do gosto pelo futebol, e nem percebem que também são fanáticos, do prazer do não-futebol. O máximo que consigo é desenvolver uma serenidade distraída, o alheamento disfarçado, enquanto a febre não entra em ebulição. Depois sento-me, a observar os preparativos, a festa das bancadas, e peço uma cerveja, companhia inseparável dos minutos que não passam. E digo a mim mesmo que, se perdermos este jogo, nunca mais. Garanto-vos que nunca mais, é a última vez.

E agora, algo completamente diferente

Títulos possíveis do 24 Horas de 16 de Junho de 2006:

1.
DEVES TER COMPRADO ACÇÕES DO JORNAL PARA APARECERES TANTAS VEZES
ou
DEVES NAMORAR COM UM JORNALISTA PARA ESTARES SEMPRE NA CAPA

em vez de:

"TRIBUNAL TIROU CASA E CARROS AO EX-FUNCIONÁRIO DE HERMAN"
Página 1 - Desconhecido

2.
POIS. CHANTAGEM NO JORNAL NÃO CONTA POIS NÃO?

em vez de:

"MERCHE GOSTAVA QUE RONALDO LHE DEDICASSE UM GOLO
Merche Romero admite que gostava que Cristiano Ronaldo lhe dedicasse um golo, mas garante que nunca lhe pediu. «Tinha que ser ele [a decidir], não peço nada a ninguém(...)»"

Página 3 - João Mira Godinho

3.
JÁ ESTAMOS A ENCOMENDAR AS FAIXAS DE CAMPEÕES
ou
AINDA BEM QUE OS OUTROS SÃO DE OUTRAS RELIGIÕES
ou
SE NOSSA SENHORA NÃO FOSSE PORTUGUESA NÃO NOS SAFÁVAMOS

em vez de:

"Madaíl foi a Fátima rezar por um bom mundial
«PEDI AJUDA A NOSSA SENHORA»"
Página 3 - Desconhecido

4.
NADA DE NOVO NO FRONT

em vez de:

"A DESAGRADÁVEL SURPRESA DO JULGAMENTO NO TRIBUNAL SUPERIOR"
Página 15 - Dr. Barros Figueiredo

5.
COM ELA, EU QUERIA MAIS 10

em vez de:

"ANGELINA JOLIE E PITT QUEREM MAIS UM FILHO"
Página 37 - Desconhecido

6.
TÃO NOVINHOS E JÁ ESTÃO NA OPOSIÇÃO

em vez de:

"BEBÉS PATRIOTAS NÃO QUERIAM NASCER EM ESPANHA
Os três bebés que desde a tarde de quarta-feira estão para nascer no Hospital Materno-Infantil de Badajoz não estão pelos ajustes e até parece que recusam a vir ao mundo em Espanha.(...)"
Página 45 - Luis Maneta

7.
MAS NÃO FALAM DA VIDA PRIVADA. É UM ASSUNTO PESSOAL NÃO REMUNERADO, SABES?

em vez de:

"JUNTOS NO AMOR E NA PUBLICIDADE
Patrícia Candoso e João Catarré (...) para dar credibilidade a um banco, vão aparecer na TV a dar um grande beijo.(...)"

Página 49 - Susete Henriques

8.
O QUE EU AQUI ESCREVIA SE ESTE NÃO FOSSE UM BLOG DECENTE

em vez de:

"ESTOU TODA MOÍDA
«(...) Vocês não imaginam o que isto é», confidenciou ontem Sílvia Alberto, de forma fugaz, ao 24horas, entre os passos do Tango que está a ensaiar(...)"
Página 50 - Andreia Valente

9.
E EU NOS BLOGS A PASSAR FOME

em vez de:

"FÁTIMA LOPES VIRA ESCRITORA
«Amar depois de Amar-te» é o título do primeiro livro de Fátima Lopes(...)"
Página 52 - Belas & Perigosas Cláudia Borges, Emily Brown, Orsi Fehér (será? pfffff)

A taça vai para:

10.
APONTAR O ÓBVIO É TÃO ORIGINAL
ou
NÃO PARECE, MAS TAMBÉM TEMOS CÉREBROS
ou
O TALENTO SALTA SEMPRE UMA GERAÇÃO

"Gostamos todos tanto de animais! Eles sem dúvida que são os nossos melhores amigos, não têm é o poder de falar..."
Página 54 - Gémeas Sara e Tristana Esteves Cardoso (filhas de Miguel Esteves Cardoso)

sexta-feira, junho 16, 2006

O Blog

O Blog é um monstro. Com fome. Um kraken de dentes cariados – como livros aguçados, empilhados nas estantes –, e boca escancarada, a salivar sobre o pressionar das teclas, a cobiçar sopas de letras, a degustar, por antecipação, descrições e metáforas ainda não escritas.

O Blog não tem paciência para actividades paralelas. Não se compadece com momentos de lazer, menospreza saídas à noite, rosna perante temporadas longe do teclado, é um chicote permanentemente erguido, em tom de ameaça e urgência, sobre a cabeça do autor. O Blog não quer saber dos programas que passam na televisão, dos livros que se acumulam na mesinha de cabeceira, dos filmes que se prostituem por bilhetes, das músicas que arranham a alma, das peças de teatro que definham no deserto de ideias, das pessoas interessantes nos bares, dos locais atmosféricos nas pessoas interessantes. O Blog gargalha quando confrontado com argumentos de pesquisa de material fresco, e enquanto ri, tem uma das mãos, coberta de bolhas purulentas, a acariciar o chicote pendente em ritmo masturbatório.

O Blog é o bloqueio de escritor ao contrário. É o desespero por torrentes de palavras. É os olhos que vemos acesos na escuridão, por entre as árvores, o decalque dos medos que arrepiam os sonhos da infância, as garras que aguardam pacientemente debaixo da cama
(dentro dos armários),
as línguas viscosas das algas que nos lambem debaixo de água, os leprosos beijos de bactérias invisíveis. O Blog é o kalkito do terror de não ter nada a dizer.

O Blog despreza toda e qualquer vida pessoal, só existe para ele mesmo, apenas se preocupa com o alimento que consome, e com a periodicidade com que é saciado. É um perseguidor incansável/implacável, sempre a relembrar o acossado dos posts que ainda deve – da dívida acumulada com juros agiotas –, que nunca poderá saldar as contas. Nunca, ronca o Blog, enquanto o autor se passeia longe do monitor, nunca pagarás, mas alimenta-me, não se acaba o teu trabalho, estou com fome, volta para o teclado, alimenta-me. Alimenta-me. Alimenta-me. Alimenta-me.

Ainda mal o post foi publicado e já a aventesma o mordeu, mastigou, trucidou, saboreou, trucidamastigaesmagaesfarelacorróidevorou. O autor carrega no botão de “publicar”, e já o animal está a bater na mesa, sôfrego, o estômago a borbulhar de ácidos biliosos, a reclamar mais, mais posts, mais palavras, mais ideias, mais reflexões, mais fome.

Mais fome. Com as palmas das mãos suadas e escorregadias. O Blog é um monstro faminto. Com a pele esverdeada da ressaca viciada. Esfaimado. Com os lábios molhados de baba. Esganado. Com o olhar febril diante da próxima dose. Raivoso. Como um espelho que reflecte um rosto de olhos inchados e pele curtida, pela manhã. Emboscado. Como dentes impacientes perante a panela fumegante.

Quero mais.

terça-feira, junho 13, 2006

Leituras III

"(...)Beijei-lhe a mão como da primeira vez, mas então aconteceu algo que eu não esperava, ela manteve a minha mão agarrada e levou-a aos lábios. Nunca na minha vida uma mulher me tinha feito isto, senti-o como um choque na alma, um estremecimento do coração, e ainda agora, madrugada já, decorridas tantas horas, enquanto acabo de passar ao caderno os acontecimentos deste dia, olho a minha mão direita e encontro-a diferente, embora não seja capaz de dizer em que consiste a diferença, deve ser coisa de dentro, não de fora.(...)"

domingo, junho 11, 2006

Corações apagados

Tens o rosto da cidade, banhada pelo azul luarento, e vejo-te em todas as esquinas, onde o lixo se acumula como sarro nos vincos do corpo. Os teus dedos são os prédios espetados na vertical, a acusarem as estrelas, e tens os olhos em cada janela que brilha e tremula no horizonte assimétrico, tanta gente a acender e a apagar o que vive, afinal és tu que me piscas o olhar cheia de malícia.

A tua voz é o eco de cada escape ruidoso nas ruas desertas, cada ambulância que arranca gritos das paredes, cada vozear de seres humanos à distância, juro-te que não estão realmente ali, só as suas vozes chegam até nós. Pertencem a outros tempos, outras dimensões, são chamamentos de pessoas que viraram pó, e aguardam por nós. Nós pó.

As ondas do rio sujo, que banha as margens e rasga a cidade como cicatriz aberta, são as curvas do teu corpo, ondulantes e oleosas, quando te debruças para cima de mim, te espalhas sobre as minhas mãos, e me arrancas respirações, esfomeada. Quase diria que me queres privar do ar que me sustém. Matas-me aos poucos com tanta fome, tanto ardor nesses lábios, sinto-me repasto de quem não sabe o que é saciedade.

Encontro-te nas pedras do chão, nos tijolos pintados a grafitti, das paredes. Vejo-te só em cada rosto que passa debaixo dos candeeiros amarelos, e quando a escuridão tomar conta de tudo, ainda te vou reconhecer nas ruínas do que sobrar, nos prédios de alvenaria partida, vidros estilhaçados, passadeiras gastas, sinais caídos, fios tombados, semáforos desligados, árvores mortas, jardins secos, esgotos entupidos, outdoors vandalizados, posters desbotados, montras empoeiradas, muros escancarados, e em todos os

...

corações apagados.