domingo, março 11, 2007

Cinefilias IV (O Labirinto do Fauno)



“Conta-se que há muito, muito tempo, a filha do rei do mundo subterrâneo sentiu um desejo irresistível de abandonar o seu reino de sombras e escuridão, e conhecer o mundo de luz, à superfície. Apesar da vigilância atenta dos servos do reino, conseguiu escapar, e fugir pela escadaria que desembocava na abertura ao mundo exterior. Lá em cima, a luz do sol irremediavelmente apagou as suas recordações de herdeira do reino, e tornou-a mortiça e frágil como os humanos, acabando a princesa eventualmente por morrer, esquecida do seu passado e das suas origens. Diz a lenda que o rei e a rainha ainda aguardam o retorno da sua filha, em outro corpo, quem sabe?, para reclamar o seu lugar como princesa herdeira do trono subterrâneo.”

Começa desta forma o filme do realizador mexicano Guillermo del Toro (mais ou menos, esta sinopse inicial foi escrita com base no que recordo, pois não consegui encontrar uma transcrição literal), e permitam-me que avance desde já com a informação que há algum tempo que não via um filme assim, que me enchesse por completo as medidas (desde “Little Miss Sunshine”), e ao qual não conseguisse apontar rigorosamente nenhuma falha. É frequente sentir-me assim perante algumas particulares obras, que depois não sobrevivem a uma segunda leitura ou visionamento (como “O código da Vinci” que adorei quando li a primeira vez, e que achei mediano e mal escrito na maioria das passagens, à segunda leitura); este apontar de perfeição deve-se ao deslumbre inicial quando sou confrontado com algo que me entusiasma particularmente, e que me deixa incapaz de notar as falhas mais ou menos óbvias. Pode ser que assim suceda com “O Labirinto do Fauno”, mas caramba, vai continuar a ser um dos favoritos. Sem dúvida.

Depois da introdução fantasiosa, somos apresentados à pequena Ofélia, uma rapariga fascinada com histórias de contos de fada, que viaja numa comitiva militar com a sua mãe, em estado de gravidez avançada, para ter com o seu padrasto, o capitão Vidal, um militar destacado para um posto militar rural no interior de Espanha, no período da guerra civil espanhola. A meio da viagem Ofélia encontra uma pedra com um olho esculpido, que encaixa numa estátua de aspecto antigo e pagão na margem da estrada. Este acto faz com que um insecto de aspecto estranho (maravilhosamente criado por computador) saia da boca da estátua, e a siga até ao posto militar, localizado no meio da floresta, num velho moinho.

O padrasto de Ofélia é um homem frio e calculista, que as recebe de uma maneira formal e distante, e naquela noite Ofélia é visitada pelo insecto, que assume a forma de uma fada, e a convence a segui-la até ao labirinto próximo do moinho, e a descer pelo poço que se encontra ao centro. Lá em baixo, Ofélia conhece o Fauno, que lhe diz que ela é a princesa perdida do reino subterrâneo, e que terá de cumprir três tarefas, para ocupar novamente o seu lugar a lado dos verdadeiros pais.

Dito desta maneira, poder-se-á pensar que “O Labirinto do Fauno” é um filme fantasioso e imaginativo, completamente deslocado do mundo onde vivemos. Até certo ponto, é verdade, pois nunca temos a certeza de que o que Ofélia vê (e nós), seja real, podendo até assumir que tudo aquilo não passa do delírio de uma criança que leu demasiados livros (como se isso fosse possível). O génio do realizador consiste em colocar todo este ambiente mágico num momento particularmente negro e cruel da história de Espanha, desenvolvendo praticamente duas histórias diferenciadas, embora com paralelismos aqui e ali.

Assim, de um lado temos as provas que Ofélia tem de encarar, com fantásticas criaturas e monstros absolutamente tenebrosos (a sério, há pelo menos um que é de arrepiar a espinha – o da foto acima), e por outro temos a luta que o Capitão Vidal empreende contra os rebeldes escondidos na floresta, e como este personagem se revela um monstro absolutamente maior e mais apavorante do que qualquer criatura do reino da fantasia. Não estou a brincar, este homem é assustador, a forma como assassina sem remorsos, tortura sem piedade, e o desprezo total que vota a todos os que o rodeiam (perante os problemas de gravidez da esposa não hesita em dizer ao médico para não se preocupar com a vida dela, se necessário, mas que salve o filho a todo custo), conseguem ser ainda mais arrepiantes.

Numa altura em que a maioria dos filmes produzidos pela máquina de Hollywood parecem ter sido feitos apenas e somente com base em fórmulas predefinidas de marketing, destinadas a arrancar o máximo de dinheiro possível das audiências no primeiro fim-de-semana de estreia, constato que cada vez mais encontramos ideias frescas e originais em cineastas que cresceram e aprenderam à margem dessa cultura de lucro fácil, ainda que tenham sido influenciados positivamente por ela. Grande parte dos realizadores de Hollywood, actualmente, sofrem de uma gritante falta de ideias, preferindo repetir fórmulas de sucesso à exaustão (e fazer remakes inúteis de filmes estrangeiros). Em cima disto, há a pressão das bilheteiras imposta pelos produtores, que preferem estrear filmes com a classificação mínima, por forma a maximizar a audiência potencial. Esta atitude compromete a visão de quem escreveu e de quem realizou os filmes, e se estas regras fossem aplicadas a “O Labirinto do Fauno”, o filme não seria metade da obra prima que é.

Vejamos, por exemplo, a cena onde Ofélia tem que entrar na sala do monstro da foto acima. Só de olhar para a aparência dele, percebemos que dali não pode sair nada de bom, mas para melhor ilustrar a ameaça que pende sobre a protagonista, Guillermo del Toro não se coibiu de, em primeiro lugar, mostrar-nos a decoração da sala, carregada de painéis onde o monstro aparece em variadas cenas macabras, a torturar e a comer bebés e crianças. Depois a câmara foca-se num canto da sala, onde existe uma pilha enorme de sapatos de crianças, as vítimas da besta. Agora imaginem os produtores de Los Angeles a ver isto, e a pensarem na classificação que o filme vai ter, e nos milhares de clientes com idades abaixo dos 13 anos que não vão poder entrar nas salas para ver o filme; quase consigo ouvir os cortes de tesoura a que o filme poderia ter sido submetido, fossem outros os financiamentos, e outro o realizador. Desenhos de bebés a serem esquartejados e devorados? Snip snip, não, não podemos chocar os espectadores, ora bolas, senão como poderíamos concretizar o cinematográfico objectivo mundial de transformar as multidões de indivíduos pensantes na massa amorfa capaz de pagar para engolir tudo aquilo que lhe enfiamos pelas goelas?

Ofélia é uma criança solitária, inserida num mundo terrível de violência e atrocidades sem par, povoado de monstros que poderiam ter existido (e que na verdade existem, neste mundo em que vivemos), portanto não é de estranhar que encontre escape nas fantasias dos contos de fada, mesmo que sejam contos de fada sombrios, como aliás todos os contos de fadas são (pelo menos antes da trituradora da Disney). Com um aspecto visual verdadeiramente impressionante, e perfeito em todos os detalhes, este filme representa um escape ideal para as nossas preocupações do dia a dia (ainda que durante a duração da película), e, no que me toca, vai ser sempre um dos favoritos. É um sonho fantástico, salpicado aqui e ali por elementos de pesadelo, que termina de uma forma ambígua, cabendo ao espectador decidir o que realmente aconteceu. Imperdível.

Precisa de uma segunda opinião?

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Sem certezas



Preparei há minutos um café bem forte, que vai ser uma ajuda inestimável à insónia que tem preenchido as minhas noites, ultimamente, e fui para a marquise, chávena numa mão, cigarro na outra, observar as tonterias dos gatos vadios no quintal da casa desocupada em frente. Há mais de uma semana que não estou contigo e sinto-me só, tão só que gostava de ser um gato vadio e não fazer mais na vida do que caçar e brincar no escuro de um quintal promovido a selva.

Não entendo como é possível que sejam trivialidades banais do dia a dia o motivo último para que estejamos separados, mas compreendo que por detrás destas trivialidades existam factores mais profundos e cortantes, que criam rupturas e cisões onde de outro modo existiria um saudável amor completo de rotinas. Só não me encaixa como é que umas coisas levaram às outras, e agora, por causa de banalidades, tenhamos chegado aqui.

É o que mais falta me faz, as rotinas de estar contigo como sempre estivemos, nestes passados três anos. Por esta hora estava a preparar-me para ir a tua casa, invariavelmente atrasado, e também esta rotina era reconfortante, saber que o meu atraso tinha-te a ti, no fim. Agora tenho todo o tempo do mundo, e não, não estou atrasado para nada, mas também só me restam as idiotices da televisão, observadas a partir da minha cama, ou este computador, esta cadeira que me arrebenta as costas e não diminui em nada a dor de não estar no sofá enroscado em ti. Este cigarro e esta janela debruçada sobre o mundo que passa debaixo de mim.

Queria ligar-te, mas não posso. Liguei demasiadas vezes, fui ao teu encontro demasiadas vezes, e preciso de saber que também és capaz de engolir o orgulho, abdicar de um pouco para estar comigo. Quero que queiras estar ao meu lado, sem a certeza de que vou ao teu encontro onde quer que estejas, seja como for que a nossa relação esteja. Porque vou, e isso é uma certeza tão certa como a de que te amo, como nunca amei ninguém. Sabe Deus que estou disposto a toda e qualquer humilhação para te ter nos meus braços. Só não posso é viver sem saber se és capaz do mesmo.

Já me conheces, adivinhaste decerto que entre o amor e eu há uma relação de extremos. Sou louco o suficiente para largar tudo o que tenho e tudo o que sou, em teu nome, mas sensato o suficiente para não querer menos de ti. Desde que te vi sentada na cadeira da aula de inglês, desde que me apaixonei sem qualquer esperança de um sentimento correspondente da tua parte, desde que desisti de ti. Desde que te dei o primeiro beijo no meio da confusão, do fumo e do barulho do Triplex, e em cada segundo de todos os minutos de todas as horas de todos os dias destes últimos três anos, que sinto em mim algo que me avassala e me altera por completo cá dentro, pelo que não posso ser egoísta a ponto de não exigir sentimento menor dentro de ti. Seria injusto, estás a ver, não podemos construir um amor assente apenas numa pessoa, e eu não posso suportar toda a carga disto, não posso ser o único com vontade de largar tudo e correr para ti, como já fiz tantas vezes. Temos que nos esforçar ambos.

Mas também te conheço bem, e sei que não vais fazer isto. Pelo que talvez seguirmos caminhos diferentes, como me disseste, seja a melhor coisa a fazer. Se não queres deixar o teu caminho nem por um instante, para me acompanhares no meu - acompanhares-me apenas, sem palpites ou direcções, só confiança de que sei para onde vamos - que posso mais eu dizer ou fazer senão deixar-me estar parado, a ver-te partir? Que mais?

Só queria que não custasse tanto, e que não pairasse esta certeza de que foste o meu último amor, aquele que passamos a vida inteira a recordar, a lamentar que tenha nascido, e que tenha morrido. Queria ser um gato que brinca no escuro e não pensa em amores ou caminhos separados, queria que não houvessem mais certezas. De nada e de coisa alguma.

Imagem: Jim Zuckerman

domingo, fevereiro 11, 2007

Inside The Fire



“Como não percebo patavina disto, pensei "what the hell”, e se eu tentasse?". E tentei.”
Quarta-feira, Maio 24, 2006


Diz-nos a Patrícia, no seu blog, que é uma “mulher sonhadora (até à ingenuidade), que cresceu cedo demais”, e é bem verdade que os seus escritos deixam transparecer um certo encanto primordial de menina que descobre o mundo em cada olhar, mas também uma sensatez e força que só algumas mulheres parecem ter, e que se vislumbra não raro nas suas opiniões e nos comentários pessoais que deixam adivinhar, aqui e ali, pedaços da sua vida, e do seu universo.

A Patrícia tem os cabelos cor de fogo na fotografia que recebe os visitantes do blog, e não me refiro àquele fogo loiro que arde rápido e consome em segundos, mas sim ao fogo vermelho de combustão lenta, ondulante e sensual, que vai queimando devagar em torrentes de calor. E há um não sei quê de misterioso no rosto em perfil de uma mulher – bonita, por sinal – emoldurado em ondas de vermelho escuro, pousado num ramo, na enigmática contemplação de algo que se encontra fora do enquadramento da fotografia. É uma imagem de várias leituras, com diversos entendimentos, e que espelha de uma forma particularmente visual aquilo que podemos encontrar nos seus textos: intimidade incompleta.


“Sorrio e rio. Imenso. Com a mesma força com que solto lágrimas de fogo. Emoções ao rubro, sempre. E vale a pena.”
Terça-feira, Junho 27, 2006


É o que mais me agrada na Patrícia: é capaz de se expor de uma forma tão provocadoramente ingénua ao passante comum, e de revelar tanto do que lhe atravessa a alma, mas com o sempiterno cuidado de nos fazer perceber – sem palavras – que nada do que vemos e lemos se pode traduzir numa imagem definida e enquadrada. Como a fotografia que nos acolhe, há sempre algo que faz parte da imagem, mas está fora do alcance da objectiva. Num mundo em que cada vez mais as pessoas se fecham sobre si, isoladas em pequenos cubículos de intimidade ensaiada, a Patrícia vem quebrar as barreiras do self-containment e agracia-nos com pequenas fotografias incompletas da alma, retratos de retalhos da personalidade que não revelam mais do que o que as palavras encerram, mas permitem teorizar e imaginar o que desponta para além do teclado.


“Dou por mim a pensar que as pessoas já só teorizam sobre o Amor, já só o pensam em abstracto. Objectivamente, vêem-no em filmes, lêem-no em poemas, ouvem-no em músicas. Ainda o conseguem sentir? Algum dia conseguiram?”
Domingo, Maio 28, 2006


Não me recordo exactamente o que me trouxe ao seu blog, mas sei que foi numa daquelas noites em que decidi fazer zapping pelo universo bloguístico, pouco tempo depois de ter criado o meu próprio blog. Houve algo nos posts que me chamou a atenção, e desde essa altura que encontro sempre qualquer coisa nova naquilo que lhe leio, e vou construindo a imagem que tenho dela, embora nunca chegue verdadeiramente a saber para onde olha, que é o mesmo que dizer que há muito que fica por descobrir.

Já percebi, no entanto, que há muito em comum entre nós: seja pelas opiniões que partilhamos, pelo romantismo de que padecemos, pela paixão e compaixão pelos animais que defendemos, pelo gosto que temos em ler-nos, ou pelas curiosas coincidências que vamos descobrindo ao redor.


“Na minha vida, tudo parece acontecer com a celeridade e o impacto de uma rajada de vento. Aprendi a viver assim, a receber tudo o que surge com a ingenuidade da tábula rasa.”
Segunda-feira, Junho 19, 2006


E se coincidências não existem, como ambos parecemos acreditar, o que dizer do facto de os nossos blogs terem nascido no mesmo dia, separados por cerca de 12 horas, perfeitamente delineando a fronteira entre a luz e a escuridão que nos separa? Eu mantenho-me no fundo negro e mando mensagens criptografadas ao mundo, sob a forma de textos com pretensões literárias, e a Patrícia revela-se no fogo que incandesce, e abre o espírito em palavras que decifram o puzzle feminino da sua pessoa mas não deixam ver para além de onde a luz termina, e começa a noite.

É daí que nasce esta empatia que sinto por ela: como se, de alguma forma, duas pessoas que nunca se encontraram se possam conhecer através dos estranhos acasos que o destino vai desenhando, para cada um de nós. E não precisando de ver a Patrícia, ou de falar com ela cara a cara, sinto que está ali alguém que me compreende, ou poderia compreender. Alguém que me lê, e sabe exactamente o que está a ler, mesmo que essa compreensão nasça a partir do que ela sonha entender das minhas palavras, da mesma forma como eu adivinho o ponto para onde ela olha, com o queixo apoiado no ramo, de todas as vezes que a visito.

É para ela que olha (mulher menina que sonha com ingenuidade). E para nós.

Visitem-na.


“Mas aqui não cabe uma vida.”
Terça-feira, Outubro 24, 2006

Imagem: Hugo Logg


terça-feira, janeiro 30, 2007

Leituras X


Demented Angel by Annette Fournet


“Tom deixou cair o saco das compras no regaço da mulher roliça. Clay nem reparara que o amigo pegara nele. A seguir tirou a Bíblia a Alice, pegou numa das mãos enfeitadas de anéis da mulher e enfiou-a nela com um gesto brusco. Começou a afastar-se, mas voltou para trás.

- Tom, já chega – insistiu Clay.

Tom não deu mostras de o ter ouvido. Inclinou-se para a mulher sentada no chão, e apoiou as mãos nos joelhos; aos olhos de Clay, a gordinha de óculos a olhar para cima e o homenzinho de óculos dobrado para a frente pareciam figuras de uma paródia às primeiras ilustrações dos romances de Charles Dickens.

- Um conselho, irmã – disse Tom. – A polícia já não vos protegerá como fez quando a senhora e as suas amigas hipócritas e beatas se manifestaram contra os centros de planeamento familiar ou a Clínica Emily Cathcart em Waltham…

- Aquela fábrica de abortos! – retorquiu-lhe ela, com desprezo, erguendo depois a Bíblia como para suster um golpe.

Tom não lhe bateu, no entanto sorria ameaçadoramente.

- Nada sei acerca da Taça da Insanidade, mas olhe que esta noite andam aí muitos malucos. Quer que eu seja claro? Os leões fugiram das jaulas e a senhora ainda pode vir a descobrir que eles primeiro comem os cristãos desbocados. O seu direito de expressão foi cancelado às três da tarde. Fica avisada. – Olhou de Alice para Clay, e este reparou que o lábio superior lhe tremia ao de leve. – Vamos?

- Vamos – concordou Clay.

- Caramba – exclamou Alice ao retomarem o caminho do desvio para a Salem Street, deixando os «Grandes Descontos nas Bebidas de Mister Big» para trás. – Foi criado com alguma destas pessoas?

- A minha mãe e ambas as irmãs – respondeu Tom. – Igreja do Meu Deus Redentor. Tomaram Jesus como seu salvador e a Igreja tomou-as como suas idiotas.

- Onde está a sua mãe? – quis saber Clay.

Tom olhou-o de relance.

- No céu. A não ser que também a tenham enganado nessa. O que eu acho que os estupores fizeram de certeza.”

Stephen King, Cell A Chamada da Morte, Bertrand Editora, 2006, páginas 74 e 75

quarta-feira, janeiro 24, 2007

O Acordo



Estive lá no outro dia, sabes? Depois da bifurcação ao lado da casa que pertenceu ao agricultor que viveu a vida inteira com um pé na aldeia e o outro no mundo, mas morreu só,

e agora é a casa que morre só, vazia e empoeirada

passando o castanheiro centenário, retorcido, e descendo o caminho de terra batida, aquele que revela, por entre as árvores, o telhado roto do velho moinho abandonado, quando começamos a ouvir o murmurejar da cachoeira acima do zumbido dos insectos, e o roçagar do vento que sacode os ramos nas copas das árvores.

Depois, ao fundo, salta-se o muro rasteiro que em tempos foi fronteira de território proibido, e atravessa-se o descampado, com cuidado para não enterrarmos os pés nas covas das toupeiras, lembras-te? Ainda lá estão as covas, e a mesma cautela a caminhar, para não se torcer o pé. E passamos pela sebe natural de silvas, tão alta e arrogante como dantes, onde arranhei um dia os braços e rasguei a camisa que depois beijaste, como se os teus beijos fossem remendos e conseguissem sarar as cicatrizes do pano.

Ainda lá está o salgueiro choramingas, como lhe chamavas, porque os ramos compridos a penderem sobre o rio te pareciam fios de lágrimas suspensos no ar e no tempo. Ainda te recordas do tronco triste, marcado por sulcos e rugas de gente velha, inclinado para a água, os ramos esticados como braços? O mesmo tronco onde cravei as nossas siglas com a minha navalha de descascar maçãs,

p + s = Amor

que coisa tão pirosa me havia de dar para fazer, mas tu sorriste perante o vandalismo, e eu confiei no teu sorriso porque sempre me bateste aos pontos a matemática, e não fizeste reparos à equação impossível que tinha acabado de eternizar, à custa de lascas espetadas nos dedos. Demorei tanto tempo a escrever o nosso amor simples, e tu sorriste por uns segundos, era tudo o que me bastava, então.

O rio ainda corre devagar, tão devagar que parece feito de águas paradas, e ainda vivem os alfaiates à sombra do salgueiro chorão, a cortarem a superfície sem descanso, tão impossíveis de apanhar como dantes. E eu sentei-me na pedra grande e chorei como o salgueiro, porque também as nossas vidas correram, correram, correram, mas a minha parece nunca ter saído deste sítio, da sombra destes ramos que caem sem nunca alcançarem o rio, da memória dos teus seios expostos às minhas mãos esganadas, das tardes feitas de gemidos e suspiros, os corpos a cheirarem a verde de tanto rolarem pelo chão.

Quando jurámos que nos haveríamos de amar enquanto o salgueiro pranteasse sobre o espelho da corrente, nem nos passou pela cabeça a tolice do que dizíamos, tão tontos como os nomes rasgados na casca da árvore. Tu prometias-me os teus seios e eu acreditava, tal era a febre que sentia a varar-me o corpo, e eu anunciava que era teu, a começar pelas mãos desbravadoras, a acabar no cabelo despenteado e coberto de folhas, todo nu e todo teu, para sempre, debaixo do salgueiro chorão.

Muitos anos depois, muitos corpos suados em camas desfeitas depois, lembrei-me de ti e julguei ter faltado à promessa que te fiz, sem roupa, sem mentiras. Agora que me sento aqui, nesta pedra, e apoio o corpo numa árvore que já nos esqueceu,

mas ainda lá está a equação

e ouço mais uma vez a azáfama das libelinhas e das cigarras, enquanto as lágrimas secam e a dor foge para dentro do peito, outra vez, acho que não, afinal não, cada vez me convenço mais que as promessas feitas quando somos novos e nos refastelamos nus, por entre as ervas, são as que contam.

Ouço um restolhar atrás de mim e viro-me, em sobressalto, quase acredito que és tu, a cumprir o acordo que fizemos há tanto tempo, afinal vens consumar a tua parte do contrato. Mas não, é apenas o vento que sacode as folhas e levanta grãos de poeira no ar. Sou como o agricultor andarilho que morreu a olhar para as cinzas da lareira apagada: tenho um pé no mundo e outro debaixo do salgueiro que chora, chora, ao pé de ti.

Se calhar ainda não nos esqueceu.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Ramadão (por Neil Gaiman) ~ Post Script


There were paths through the palace that none but Haroun Al Raschid knew; and this was because those who had drawn up the plans, and those who had built the paths, had all long since gone to their final reward: for it is seldom healthy to know the secrets of a king.”

A história “Cerements”, publicada no número 55 da revista Sandman e editada posteriormente na colectânea “Worlds End” fala-nos de uma cidade apropriadamente chamada Necropolis, onde todos os seus habitantes se dedicam à arte do enterro dos mortos, conhecendo e estudando incontáveis formas de realizar este acto tão profundamente simbólico e catársico.

Esta história é contada por um dos alunos da escola mortuária (à falta de melhor termo), que é obrigado a prestar assistência num enterro aéreo* onde, como parte da cerimónia, os participantes devem comer e contar histórias. Uma das histórias, contada por um dos assistentes, relata o seu encontro com um estranho viajante que lhe contou a história da fundação da cidade, sobre as cinzas da Necrópolis que existia anteriormente e que foi destruída graças ao desleixo e soberba dos seus habitantes.

Outra história, contada pelo mestre da execução do enterro aéreo*, relata a sua própria vivência de aprendiz, com a mestra madame Veltis, que um dia lhe contou a história de como ficou com a mão direita paralisada – rígida e roxa – depois de perder-se mas catacumbas da cidade, quando ela própria era uma aprendiz.

Atente-se ao imbricado preciosismo com que Gaiman constrói esta narrativa: uma história contada por uma mulher, que por sua vez é um personagem numa história contada por um homem, que é também um personagem na história contada por um jovem aprendiz, sendo igualmente um personagem na história que Neil Gaiman nos está a contar. Fabuloso. Esta abordagem em camadas, tipo “cebola” ou “matrioska” é uma técnica recorrente no estilo deste autor que se assume, mais que tudo, como um contador de histórias.

Em “Ramadão” podemos encontrar esta técnica de histórias dentro da história, principalmente na passagem do mercado, quando os personagens passeiam descontraidamente e são abordados pelos mercadores, cada um deles com histórias para contar. E, naturalmente, na própria narrativa como um todo: quando lemos a passagem inicial (“In the name of Allah, the compassionate, the all-merciful, I tell my tale. For there is no God but Allah, and Mohammed is his Profet”) percebemos que o que se vai passar a seguir está a ser contado por alguém, na senda das tradições antigas, mas assumimos que a frase inicial é apenas uma forma rebuscada do próprio autor nos apresentar ao relato de Haroun Al-Raschid, califa de Bagdad. Só no fim percebemos que na verdade é uma história contada por um mendigo a uma criança, na Bagdad dos dias actuais.

Ramadão” foi publicado por alturas da primeira guerra do golfo, e tornou-se o número com mais sucesso da série, como já mencionei. Lendo a história no seu formato original (e não na pobre versão que apresentei), é fácil perceber porquê: para além de lidar com temas de fantasia misturados com personagens e locais reais, Neil Gaiman mergulha fundo no universo mágico das mil e uma noites, e confere a toda a narrativa o ritmo próprio de um sonho, ao mesmo tempo que nos fornece uma explicação plausível (sendo que plausibilidade é aqui apresentada de uma forma bastante relativa) para o declínio de Bagdad; na verdade, é maravilhoso acreditar que esta Bagdad que vemos agora, tão terrivelmente massacrada pelo ódio e ganância dos seres humanos, é apenas um resquício sujo da verdadeira Bagdad, resplandecente e idílica, que vive nos sonhos, e vai durar eternamente.

Foi difícil trazer este sonho de Neil Gaiman para o formato de texto corrido, e receio bem que o meu trabalho fique muito aquém do esperado, se comparado com o original. Mas procurei ao máximo manter-me fiel ao estilo do autor, e posso dizer que foi um trabalho de amor e respeito. Espero que as ilustrações que fui colocando agucem o apetite para a leitura da obra original, mesmo porque a compilação “Fables and Reflections” é toda ela constituída por estas pequenas histórias, sem nenhum fio narrativo superior, e pode servir como excelente elemento de apresentação ao universo do Sandman. E garanto que depois de lerem tudo, não vão descansar enquanto não adquirirem os restantes volumes.

Como prometido, aqui está o texto completo de "Ramadão", em formato PDF, para quem quiser ler de uma assentada (ou não, sempre são 26 páginas), com imagens e um tratamento gráfico mais elaborado:

Ramadão (por Neil Gaiman) em alta resolução (5 mb)

Ramadão (por Neil Gaiman) em baixa resolução (1,5 mb)

Julgo que clicando em qualquer dos links abrir-se-á o documento directamente na janela do browser, pelo que se quiserem guardá-lo no computador, o ideal será clicar com o botão direito no link pretendido, e escolher a opção "Guardar destino como..."). O ficheiro de alta resolução tem imagens com melhor qualidade, pelo que será preferível para opções de impressão.

Nota: Se quiserem imprimir o texto, recomendo que o façam a partir da página 3, até à página 25. É que as páginas 1 e 26 têm o fundo preto, e são passíveis de gastar todo o tinteiro da cor equivalente. Pelo menos sempre se poupa tinta.

A partir de agora encerra-se o capítulo “O porquê das coisas”, e passarei aos textos de produção própria, com as indispensáveis passagens favoritas dos livros que ando a ler actualmente a servirem de intervalo retemperador. Tenho sentido muita falta da escrita ultimamente, mas também tenho chegado tão cansado a casa que nem forças consigo reunir para me sentar no computador. Mas prometo continuar a publicar, com a mesma irregularidade de sempre.

Boa noite, e bons sonhos

PS – *Existem cinco métodos aprovados de disposição dos corpos: 1 - Enterro terreno ou internamento (variantes: encaixotado, enfaixado ou nú; embalsamado ou similar; deitado, sentado ou de pé; campa, sepulcro, tumba ou mausoléu); 2 – Consumição pelo fogo (variantes: vestido, encaixotado, pira, barco ou navio; existem diferentes procedimentos a ser adoptados para a disposição das cinzas); 3 – Mumificação (variantes: salmoura, banhos minerais, desidratação, betumação, etc); 4 – Enterro aquático (variantes: alimento a animais aquáticos ou peixes; disposição em rio sagrado ou mar, encaixotado, ensacado com pedras, desmembramento); 5 - Enterro aéreo (variantes: desmembramento e similar; ingestão por aves necrófagas; disposição completa ou parcial).

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Ramadão X (por Neil Gaiman)

Haroun Al Raschid acordou confuso, como se ainda estivesse dentro de um sonho, ao som de uma voz preocupada:

‘Grande Califa? ’

Era um dos guardas do palácio, um gigantesco núbio de pele escura como as rochas do deserto. O rei estava deitado sobre um tapete de sarja castanha, velho, sujo de terra, ao lado da fonte decadente da praça do mercado, e permitiu que o guarda o ajudasse a colocar-se de pé.

‘Grande Rei, vós saístes do palácio. Temos estado à vossa procura. O que aconteceu? Porque viestes aqui, ao mercado? ’

O rei levou uma mão à cabeça, como se tentasse reter alguma lembrança:

‘Eu… eu não sei, Masrur. Tive um sonho, creio, mas está a desvanecer-se. ’

‘Uma insolação, talvez, Senhor. Pode fazer estranhas coisas a um homem. ’

‘Talvez… ’

‘Vamos voltar para o palácio, Lorde. ’

‘Sim. ’

O tapete esfarrapado ficou abandonado no chão de terra batida, enquanto o califa se afastava, devagar, amparado pelo enorme negro. Saíram do mercado e entraram numa das vielas sujas da cidade, apertadas pelas casas feitas de barro vermelho e edifícios gastos e decadentes, muitos deles quase em ruínas, que se espalhavam em todas as direcções, num labirinto de pobreza e desolação. À medida que caminhava, o rei abandonou o amplexo protector do escravo, e assumiu uma postura altiva, pois que estava afinal na sua cidade, embora envelhecida e humilde, e entre o seu povo, ainda que miserável.

Ao passarem por uma banca de frutas do deserto, o rei reparou numa figura de aspecto pálido, encostada a uma das traves de madeira que suportavam o toldo da loja. A figura estava imersa em pensamentos, e trazia uma garrafa de vidro cristalino nos braços, do tamanho de um cântaro de água.

‘Ei! Estranho, o que é isso que carregas? ’ – perguntou o rei.

‘Uma cidade numa garrafa.’ – respondeu a figura misteriosa.

O rei debruçou-se sobre o objecto, e viu uma maravilhosa cidade dentro da garrafa, com torres brilhantes que alcançavam as nuvens, e fantásticas cúpulas douradas que refulgiam os raios de um minúsculo sol. Pequenas figuras em miniaturas de tapetes voadores atravessavam o céu da cidade, sobre uma praça com uma grandiosa fonte ao centro, onde um pequeno homem, de ricos trajes, discursava perante uma multidão que o cercava.

‘É um mecanismo deveras engenhoso, e de primorosa execução. ’ – disse o rei, espantado. – ‘Fostes vós que o construístes? Está à venda? ’

‘Não fui eu que o construí. Foi-me oferecido. E já não está à venda… ’

‘É muito bela. ’ – disse o rei, pensativo.

‘Sim. ’

O rei sorriu, como uma criança que acabou de reencontrar um brinquedo muito amado, e acariciou ao de leve a garrafa.

‘Senhor, temos que voltar para o palácio. ’ – lembrou o guarda.

‘Sim, Masrur. ’

O rei e o escravo afastaram-se devagar, com o Califa a olhar ocasionalmente para trás, e entraram num edifício de cúpula alta e ornamentada, já a denotar as marcas do tempo nas rachaduras da superfície. A figura pálida, com a garrafa nos braços, ficou parada a observá-los, e no momento em que o rei desapareceu por entre as portas do palácio, sorriu imperceptivelmente, sem que ninguém soubesse se era de tristeza, se de alegria, o sorriso.

E foi assim que dizem que aconteceu. Mas só Allah o saberá com certeza.”

………………….

O menino tinha a pele escura, e o cabelo desgrenhado, coberto de poeira. Vestia uma camisa rasgada e calções de cor esbatida, e apoiava-se numa muleta velha, de madeira. Trazia os pés cobertos por meias, e a perna do lado da muleta estava enfaixada em trapos sujos.

‘Mas o que aconteceu a Haroun Al Raschid? ’ – perguntou. – ‘Ou à velha cidade de Bagdad? Ou ao…’

O velho mendigo, sentado à sua frente com as pernas cruzadas, interrompeu-o, enquanto recolhia o prato com moedas:

‘Espera, pequeno. Tens mais alguma moeda? ‘

‘…não. ’

‘Mais alguns cigarros? ’

‘Não. ’

‘Então creio ter falado demasiado, por hoje. Se estiveres aqui amanhã, talvez te conte mais. Vai para casa, rapaz. Estes são maus tempos, e a tua mãe deve estar preocupada. ’

O velho levantou-se a custo, recolheu as moedas ganhas para um dos bolsos, e começou a caminhar para longe.

‘Mas como é que funcionou? ’ – chamou o rapaz. – ‘A barganha? Como poderia a cidade durar? ’

‘Vai para casa. ’ – respondeu o velho, sem olhar para trás.

Sem ter obtido resposta às suas perguntas, Hassan voltou para casa, escolhendo cuidadosamente o caminho por entre uma série de atalhos descobertos por crianças, através das áreas bombardeadas e dos escombros de Bagdad.

E, embora o seu estômago doa (pois jejuar é fácil, neste Ramadão, e a comida é difícil de obter) a sua cabeça está erguida, e os seus olhos ganharam um novo brilho. Pois, por detrás do seu olhar, estão torres e jóias e djinn, tapetes e anéis, reis e princesas, e cidades de bronze.

E ele reza, enquanto caminha (amaldiçoando a sua perna fraca, ao mesmo tempo). Reza a Allah (que criou todas as coisas) que algures, na escuridão dos sonhos, ainda exista a outra Bagdad (a que jamais poderá morrer), e o outro ovo da fénix.

Mas só Allah o saberá.

FIM

terça-feira, dezembro 05, 2006

Ramadão IX (por Neil Gaiman)

O rei dos sonhos mostrou-se surpreso:

Não tenho qualquer desejo de me tornar rei de uma terra de mortais.

‘Não. Não me compreendestes. ‘

Haroun Al Raschid ergueu os braços acima da cabeça, em direcção ao céu, como se desejasse abarcar no seu amplexo todas as torres e minaretes que refulgiam contra o firmamento.

‘Esta é a mais gloriosa cidade que Allah - louvado seja desde o nascer do sol na manhã até ao seu repouso no entardecer, e também durante a noite e nas horas que antecedem a madrugada – achou por bem criar com o propósito de abençoar o mundo. E esta época é a época perfeita. ‘

‘Durante quanto tempo poderá durar? Durante quanto tempo vão as pessoas recordar? ‘

O rei deixou cair os braços, e o seu olhar assumiu uma expressão vazia, de quem contempla para além do tempo e do espaço.

‘Eu vi o mundo, rei dos sonhos. ’

‘Eu cavalguei através dos desertos, e vi as pedras e velhas paredes e estátuas, desgastadas pelo vento do deserto, nas vastidões vazias de areia. E depois o vento e a areia sopram uma vez mais, os restos de cidades e palácios e deuses desvanecem-se para outra idade do homem. ‘

‘Esquecidos e jamais lembrados. ‘

Haroun Al Raschid pareceu de repente muito cansado e resignado.

‘Nunca poderá ser melhor do que isto, pois não? ‘

Talvez assim seja…

‘…mas só Allah sabe o que virá’ – completou o rei. – ‘É verdade. ‘

‘Eu sou Haroun Ibn Mohammed Ibn Ali Ben Abdullah Ibn Abbas, Califa de Bagdad’ – o rei parecia estar a falar para a cidade diante dos seus olhos. – ‘Eu proponho oferecer-vos a minha cidade. Eu proponho que a compreis de mim: que a leveis para os sonhos. ‘

E em troca? ‘ – perguntou o rei dos sonhos.

‘Em troca desejo que ela jamais morra. Que viva eternamente. Podeis conseguir isto? ‘

O rei dos sonhos não respondeu por momentos, absorto em reflexões, com a cabeça baixa. Depois ergueu os olhos para as torres e cúpulas cintilantes, e murmurou:

Sim. À minha maneira, posso fazê-lo.

‘E o que será necessário acontecer para que tal suceda? Haverá algum encantamento que necessitais de executar? Existirá alguma cruzada que terei de empreender, para algum país longínquo? Haverá alguma grandiosa acção? ‘

Não. Basta contar ao teu povo. Afinal, é a ti que ele segue. E é teu, o sonho.

‘Muito bem. ’

O rei caminhou com passos firmes e decididos para a praça, seguido de perto pela misteriosa figura, e parou junto à fonte no centro do recinto.

OUÇAM-ME, MEU POVO! EU, O VOSSO CALIFA HAROUN AL RASCHID, DA LINHAGEM DOS HASHIMI, PROCLAMO NESTE DIA, NESTE LUGAR, QUE EU OFERECI A IDADE DOURADA DE BAGDAD, DA ARÁBIA, A ESTE QUE ESTÁ AO MEU LADO. ‘

‘SERÁ SUA ETERNAMENTE, ENQUANTO A HUMANIDADE DURAR…


‘…e o nosso mundo não for esquecido.

O tapete que pairava graciosamente acima do mercado pareceu estremecer durante um segundo, e toda a força que o sustentava desapareceu, fazendo com que tombasse em espirais, devagar, no chão, levantando uma nuvem de poeira.


continua...

quarta-feira, novembro 29, 2006

34


O serviço normal será retomado dentro de breves instantes, assim que o distinto autor do blog recuperar das vaporosas efluências alcoolizantes induzidas pelos amigos, na euforia geral da respectiva data de celebração.

(pelo menos não me esqueci da promessa de mudar a cor do blog quando este dia chegasse)

:)

sábado, novembro 25, 2006

Ramadão VIII (por Neil Gaiman)


Haroun Al Raschid e o senhor dos sonhos começaram a passear devagar, pelo mercado.

Grandes senhores!’ – exclamou sorridente um vendedor, quando se aproximaram da sua banca. – ‘Posso interessar-vos nestas finas doçarias? Nunca provareis semelhante, pois eu, Hassan o Doceiro, fi-las com especiarias e mel e requintados vinhos, de uma receita divulgada por um mercador que naufragou numa ilha habitada apenas por…’ – a voz do doceiro era abafada pela multidão, ouvindo-se a intervalos. – ‘… e ele pensou, primeiro…’ – o rei e a sua companhia passaram pela tenda, lançando apenas um olhar cortês aos doces que o homem estendia, convidativo. – ‘…o pequeno hominídeo cuja única alegria era a preparação de…

Lordes!’ – gritou outro mercador, em frente a um estrado onde se exibia uma mulher alva de aspecto lânguido como um felino, com orelhas de gato e cauda listada como a de um tigre. – ‘Tenho aqui uma escrava, para venda, da mais exótica espécie. Primeiro, examinem a sua pele. Não é da mais consumada brancura? Depois, chamo a vossa atenção para os seus olhos…

Nobres senhores, não lhe deis atenção! ‘ – disse um curioso, no meio da multidão. – ‘É um ladrão e um mentiroso, e um mágico. Há um mês vendeu-me um asno, que se sentava no meu estábulo e comia do mais fino grão e feno e frutos verdes, até que um dia este filho de uma cadela (que vos venderia a cidade de Bagdad e a mãe das vossas esposas, e as vossas mãos esquerdas, se lhe désseis oportunidade) veio à minha casa e disse-me que o asno que me vendera era, na verdade, uma bela donzela que fora enfeitiçada pela sua invejosa irmã, que era na verdade uma bruxa, e que desejava comprá-la de volta. Como, pode então este asno ser transformado em uma mulher novamente, perguntei-lhe eu…’ – o apregoar do homem perdeu-se na distância, à medida que as duas figuras se afastavam.

Haroun Al Raschid parou em frente a uma banca de frutas.

‘Dou-lhe um dirham por estas miseráveis uvas. ‘ – ofereceu ao vendedor, apontando para os cachos expostos.

Um dirham? ‘ – o vendedor levou as mãos ao peito, aparentando surpresa. – ‘Por estas uvas – cada uma delas um perfeito globo tão requintado que, fossem elas transformadas em vinho, este só seria apropriado para o nosso próprio Califa, Haroun Al Raschid, que Allah proteja e ilumine? Três dirhams e não menos.

‘Dois.’

Certamente, senhor, sois muito generoso. ‘ – replicou o vendedor, enquanto recebia as moedas e entregava um cacho luzidio. – ‘Aqui tem, leve também estas duas finas ameixas, com os meus cumprimentos. Há uma história, aliás, que acompanha estas ameixas…

‘Estou certo que sim, e agradeço-lhe a oferta. ‘ – disse o rei, afastando-se. – ‘Mas por agora tenho certos assuntos para tratar. ‘

Os dois caminharam para longe da multidão, e pararam debaixo de umas arcadas rodeadas por colunas intricadamente esculpidas, de onde se podia observar todo o mercado, e as torres douradas ao seu redor.

‘Uma uva, Senhor dos Sonhos? ‘ – ofereceu Haroun Al Raschid.

Durante o Ramadão? Entre a madrugada e o anoitecer?

‘Não importa. Olhe à sua volta, Rei dos Sonhos. O que vê? ‘

Vejo um lugar notável.

‘Decerto. É uma terra de milagres.’

O rei pausou longamente, os olhos distraídos a passearem em volta, até que perguntou, num suspiro:
‘Ireis comprá-la, de mim? ‘
continua...

quarta-feira, novembro 22, 2006

Ramadão VII (por Neil Gaiman)


O rei bateu novamente palmas, e ordenou aos servos que imediatamente acorreram de cabeças baixas e mãos erguidas:

‘Nos meus aposentos encontra-se uma arca que pertencia ao meu pai, e ao seu pai antes dele. Tragam-na até mim. ‘

Os serviçais desapareceram por instantes, e voltaram trazendo uma caixa de madeira de sândalo, gravada com estranhos desenhos em marfim e madrepérola, que colocaram aos pés do rei. Ele abriu a caixa com as suas próprias mãos, e retirou um pequeno tapete de aparência puída e pouco notável, que estendeu no chão. Depois, o rei subiu para o tapete cuidadosamente, quase com reverência, ainda que não fosse um tapete de oração, e indicou ao senhor dos sonhos que ocupasse o espaço vazio, ao seu lado.

Haroun Al Raschid disse uma palavra três vezes, e à terceira repetição o tapete ergueu-se no ar, devagar e em silêncio, a brilhar levemente. Começaram a descer suavemente, por entre as cúpulas douradas e minaretes cor de jade, o rei de Bagdad acocorado à frente, como vulgar pastor de cabras do deserto, e o seu pálido companheiro sentado nas bordas do tapete, atrás dele, os pés a balançarem no vazio.

‘Olhe para a minha cidade, Lorde dos Sonhos. ‘ – disse o rei, enquanto se deitava sobre o tecido gasto, de olhos postos no chão que se aproximava lentamente.

Estou a vê-la.’ – respondeu o passageiro.

‘É uma cidade de maravilhas, de espantos. Estes são os dias das maravilhas. Esta é a minha cidade. Sou responsável por ela. ‘ – abaixo deles surgiu uma enorme praça coberta de tendas e de multidão atarefada, com uma bela fonte ao centro, rodeada por um pequeno lago artificial. – ‘Ah! O soukh. Desce, ó tapete. Vamos tratar de negócios no mercado. ‘

O tapete depositou os viajantes no centro da praça, ao lado da enorme fonte. À sua volta redemoinhava um turbilhão de pessoas que circulavam devagar, parando ocasionalmente para observar os artigos expostos nas tendas coloridas. Viam-se vendedores de fruta que regateavam teimosamente com os seus clientes enquanto crianças de turbante aproveitavam a distracção dos adultos para roubarem umas peças de fruta, e ferreiros a afiarem espadas, por entre uma infinidade de lâminas penduradas em traves de bambu. A um canto uma dama de pele escura e rosto escondido por um véu segurava uma frágil corrente que prendia pelo pescoço um gorila de aspecto feroz, e noutra tenda grasnavam aves exóticas de penas multicolores. O rei apeou-se do tapete e ordenou, com as mãos na cintura e o rosto respeitosamente a fitar o chão:

‘Agora, espera alto acima do soukh, meu tapete. Chamar-te-ei se tiver necessidade de ti. ‘ – ao que o tapete prontamente obedeceu, levantando voo até se tornar uma pequena mancha, por entre o azul do céu.
continua...

sexta-feira, novembro 17, 2006

Ramadão VI (por Neil Gaiman)



Haroun Al Raschid lançou o globo no vazio, e dentro deste surgiu uma nuvem escura, como se estivesse cheio de insectos, uma nuvem que se expandia cada vez mais, à medida que o globo descia em direcção ao chão, até revelar milhares de olhos malévolos e dentes afiados, a anteciparem a orgia de destruição. O globo aproximou-se vertiginosamente do chão, cada vez mais perto, e foi apanhado por duas mãos esguias que surgiram vindas do nada, pálidas como mármore, a milímetros de se desfazer em milhões de pedaços.

Chamaste-me, e eu vim. ‘ – disse o rei dos sonhos.

‘Sois vós, então, o Senhor do Sono, o Príncipe das Histórias, aquele ao qual Allah deu o domínio sobre o que é e o que não é, e o que não era e nunca será?’ – perguntou o rei.

Tu sabes quem chamaste, Haroun Al Raschid.’ – havia uma nota de desagrado velado na voz sombria.

‘Vinho! Vinho para o nosso visitante! ‘ – chamou o rei, olhando para trás e batendo palmas.

Este mês é o Ramadão, ó Rei, quando os fiéis jejuam desde o amanhecer até ao anoitecer, e não proibiu o profeta o vinho? ‘ – o rei dos sonhos pairava acima do abismo diante de Haroun Al Raschid, e segurava o enorme globo de cristal entre as mãos, como uma oferenda.

‘Sois vós, então, da verdadeira fé, meu pálido companheiro? ‘ – perguntou o rei.

Eu pertenço a todas as fés, à minha maneira, Haroun Al Raschid, e não tenho qualquer desejo de tomar vinho contigo. ‘ – a figura de pele alva e olhos onde brilhavam estrelas silenciou por um instante, para melhor vincar o sentido das suas palavras, e depois prosseguiu, numa voz grave e pausada: - ‘Agora, talvez seja a altura de me dizeres porque não deveria eu deixar este lugar imediatamente, levando comigo a tua bola de pequenos incómodos?

E também, posso acrescentar, levando comigo a lembrança de ter sido convocado, peremptoriamente, como quem convoca um mero serviçal.

Eu não sou um serviçal, ó Rei, e não me agradam convocações.

Haroun Al Raschid sentiu gotas de suor perlarem-lhe a testa, ao ouvir estas palavras, e observou o rei dos sonhos enquanto este abria o seu manto negro – raiado de flores e estrelas em movimento – e guardava o globo de cristal, que pareceu desaparecer nas pregas do tecido, como se nunca, na verdade, tivesse existido. E disse, pesando as palavras com cautela:

‘Há uma história que contam de um pescador que apanhou uma garrafa de jade nas suas redes, e que abriu a garrafa e libertou um génio... ‘

Na história ele convenceu o génio a voltar para dentro da garrafa. Mas o génio era um tolo fanfarrão, e solitário. Eu não sou nenhuma dessas coisas. Chamaste-me aqui, Haroun, e não é sensato convocar o que não podes desconvocar.

‘Estais a ameaçar-me? ‘

Eu não ameaço, apenas advirto cautela.

‘Sim. Percebo as vossas palavras. Porque vos chamei aqui? Chamei-vos aqui… creio, para fazer uma barganha. Se estiverdes dispostos a negociar comigo. ‘

Estamos a negociar? No palácio do Líder dos Fiéis? As barganhas fazem-se no soukh, o mercado.

Haroun Al Raschid acedeu, pensativo:
‘Sim, talvez se façam. Muito bem, desloquemo-nos então para o mercado.’
continua...

quarta-feira, novembro 15, 2006

Ramadão V (por Neil Gaiman)


‘Sou o Califa de Bagdad. De um rei para outro, eu chamo-vos, rei dos sonhos, lorde do sono. Estais aí? Eu exijo que vos apresenteis perante mim, aqui, numa forma que não seja nem ameaçadora ou desagradável para os meus olhos. Vinde, ó rei. ‘

Mas o rei não obteve resposta, excepto pelo restolhar de umas pombas que passaram acima da sua cabeça.

‘Sou Haroun Ibn Mohamed Ibn Abdullah Ibn Abbas, chamado de Al Raschid, o primeiro entre os fiéis, e minha é a glória e a cidade de Bagdad, a pérola das cidades. Eu conjuro-vos, ó rei dos sonhos, príncipe das histórias, senhor das marchas adormecidas. Vinde para mim. ‘

Mas não se ouviu qualquer som, a não ser o sussurro do vento e o último chamado de um pássaro nocturno do deserto.

Haroun Al Raschid estremeceu.

‘Muito bem. ‘

‘Nas minhas mãos seguro o globo de Sulaiman Bem Daoud, rei dos Hebreus. Foi neste globo, perto do fim da sua vida, que ele aprisionou novecentos mil e nove Ifrits, Djinn, e demónios.‘

‘Estes eram os mais sombrios espíritos, os maiores e os mais poderosos. E, um a um, ele confinou neste globo de cristal, que fechou com o seu selo. Isto aconteceu há quase dois mil anos. Durante os anos em que estes Ifrits – os seus corações mais negros do que a escuridão – estiveram aprisionados, cada um deles fez um juramento solene de desabar vingança nas crianças de Adão nosso pai, de destruir o nosso trabalho, as nossas mentes e os nossos sonhos. ‘

‘Este é um globo do mais excelente vidro, e quando se estilhaçar eles vão emergir como bestas ensandecidas de destruição. ‘

‘Se não vierdes até mim, eu estilhaçarei o globo. ‘

Ainda assim, o rei não obteve resposta, e os seus olhos semicerraram-se, quase com uma desprendida indiferença.
‘Muito bem. ‘

continua...

terça-feira, novembro 14, 2006

Ramadão IV (por Neil Gaiman)

Passados alguns instantes, o rei retirou uma chave dourada de um fio que trazia ao pescoço, e desceu para as profundezas do seu palácio. Passou pelo salão das mulheres (onde homem algum – excepto ele mesmo – pode entrar e manter a sua masculinidade), desceu até ao lugar da justiça e tortura, onde os prisioneiros que esperavam pela misericórdia real aguardavam pacientes, e prosseguiu ainda mais fundo, para além das masmorras, onde aqueles que a misericórdia real havia esquecido esperavam em vão, com faces pálidas, barbas brancas, olhos desesperados e loucos.

Depois de algum tempo o rei alcançou uma porta gigantesca de ferro negro, esculpida com muitos símbolos e pinturas e padrões. Ele abriu a porta com a chave de ouro, e desceu ainda mais.

Agora os degraus eram estreitos e húmidos, o ar escondia figuras difusas e rostos, e o rei julgou ouvir as vozes daqueles que havia amado e assassinado através dos anos: a rapariga pálida das terras do Norte, com cabelos como prata; o rapaz do deserto que lhe trouxera uma rosa esculpida de quartzo rosa-claro, e ficara no palácio por um ano e um dia; o capitão da guarda do palácio que, para além do rei, era o mais exímio arqueiro, espadachim, e lanceiro da cidade, mas que tinha, talvez, cobiçado o trono. Ele ouviu muitas vozes, mas não lhes prestou atenção.

Finalmente, Haroun Al Raschid chegou a uma porta de bronze, enfaixada com tiras de cobre verde e incrustada com madrepérola. Ele abriu a porta com a chave de ouro, e desceu ainda mais.

O rei entrou então no labirinto, que percorreu de olhos fechados, a contar os passos em frente, para a esquerda e direita, na sua mente. A porta seguinte era de madeira, sem ornamentos, e também essa ele abriu com a chave de ouro. Tochas brilharam e crepitaram assim que ele entrou, cobrindo a sala com uma radiância faiscante, mas ele não olhou para a esquerda ou para a direita. Diamantes e rubis, esmeraldas e safiras, ametistas e pérolas estavam amontoados em pilhas promíscuas, nunca contadas, talvez incontáveis.

Havia um quarto com apenas espadas encantadas suspensas no tecto, e outro cheio de lâmpadas, anéis e cálices de estranhas virtudes e poderes; outro não continha mais do que ovos, de todos os formatos e tamanhos, desde o ovo do Vermillion que é tão grande quanto a mais pequena unha de uma criança, até a um ovo mais largo do que um homem, o ovo do Rukh, um pássaro que faz o seu ninho nas montanhas e caça touros-elefantes para alimentar a sua prole.

E também havia, naquele quarto, o Outro Ovo da Fénix (pois a Fénix, quando chega o seu tempo de morrer, põe dois ovos, um preto, um branco. Do ovo branco nasce o próprio pássaro Fénix, quando chega o seu tempo, mas ninguém sabe o que nasce do ovo preto). Haroun Al Raschid passou por estes quartos e o seu olhar não pestanejou para nenhum dos lados. Parecia-lhe que havia caminhado no silêncio por muitos quilómetros, debaixo do palácio, quando alcançou a última porta, e esta era uma porta de chamas, que também abriu com a chave dourada.

O quarto estava vazio, excepto por uma bola de vidro pousada numa almofada de cetim. Dentro da bola nevoeiros coloridos contorciam em espirais, e na superfície existia um selo. Haroun Al Raschid retirou a bola da almofada e saiu do quarto. Ele carregava-a com cuidado, e a sua respiração era fraca e rápida. Existiam percursos através do palácio que ninguém senão ele conhecia, e isto era porque aqueles que haviam desenhado os planos, e aqueles que haviam construído os percursos, já tinham recebido há muito a sua recompensa final, pois não é saudável conhecer os segredos de um rei.

Ele prosseguiu, degrau a degrau, a subir cada vez mais, até alcançar uma parede de tijolos, sólida. Tocou levemente um tijolo, não diferente dos restantes, e a parede deslizou para o lado e ele saiu gentilmente para o terraço mais elevado do palácio, no exterior. Imagine um milhão de milhares de pirilampos de todas as formas e cores; era assim o céu de Bagdad naqueles tempos, à noite, e os barcos ainda navegavam o rio com lanternas nos seus mastros, e os sons da noite na cidade subiam para um céu pejado de estrelas e bolas de fogo. Muito, muito suavemente, o rei começou a falar:

continua...

sábado, novembro 11, 2006

Ramadão III (por Neil Gaiman)

Meu marido e meu rei? ‘ – perguntou.

‘Sim, minha senhora? ‘

Vejo que estás preocupado.

‘Vês correctamente. ‘

Vem comigo. Deixa-me untar a tua testa com óleo morno, e acariciar-te com as minhas mãos gentis. Posso fazer-te esquecer os problemas por entre os meus seios, e posso afagar para longe a escuridão na tua alma, por entre as minhas coxas.

‘Agradeço-te, minha senhora, minha rainha, mas devo recusar. ‘ – E ela deixou-o.

O Vizir – seu amigo, Jafar o Barmakid – veio à sua presença.

Vem, vamos disfarçar-nos e caminhar pela cidade. ‘ – disse. – ‘Sem dúvida que encontraremos algum nobre sob um qualquer encantamento. Ou três mulheres, esguias como gazelas, aprisionadas numa casa de jade branco. Ou um louco vagabundo com uma história de espíritos malignos do deserto para contar, e…

‘Não. ‘ – interrompeu o rei.

Permite-me então que mande trazer vinho e comida, e chame contadores de hstórias, para que possamos proclamar que aquele que contar a mais estranha e verdadeira história…

‘É Ramadão, Jafar, quando jejuamos desde o nascer até ao por do sol. E o Profeta proibiu o vinho. ‘

Mas…

‘Não, velho amigo. ‘ – e o rei apontou para a cidade resplandecente abaixo deles. – ‘Olha para a nossa cidade. Não é maravilhosa? Existirá alguma outra como ela? ‘

Se Allah o desejar…

‘Ah. Mas não está destinado a homem algum conhecer a vontade de Allah.’ – e a face do rei ensombrou-se com estranhos e tristes pensamentos. – ‘Deixa-me. ‘

Ele permaneceu no varandim até que a noite caiu, e a primeira estrela brilhou acima das espirais da cidade. E nessa altura veio à sua presença Ishak, o maior poeta daquele tempo, aquele que podia tecer palavras como fios de seda enredados em linhas de ouro.

Grande rei. ’ – disse o poeta.

‘Saudações, fiandeiro de palavras. ‘

Meu rei, estás preocupado. Posso tocar para ti, ou cantar?

‘Não. Há um peso no meu peito e no meu semblante, mas a arte e palavras bonitas não o levantarão. Ai de mim. Existiu alguma vez uma cidade como a minha, ou um povo como o meu? ‘

Não, grande rei. ‘ - respondeu o poeta.

‘Embaixadores vêem aqui dos confins da terra, para testemunharem este milagre. Voltam para os seus reis dizendo que viram a cidade perfeita, e que nunca poderá existir outra igual. E os seus reis ficam insatisfeitos com os seus pequenos feudos e domínios, pois sabem que nunca se poderão comparar a Bagdad, a jóia das cidades. ‘

O rei baixou a cabeça e acrescentou, num murmúrio:

‘É assim. Mas todas as coisas passam. Deixa-me. Não necessito de poetas. ‘ – e permaneceu no varandim, a observar a mais gloriosa cidade sobre a terra.
continua...

quinta-feira, novembro 09, 2006

Ramadão II (por Neil Gaiman)


‘Pois aqueles eram os dias das maravilhas, e Haroun Al Raschid era um rei sapiente. Quando se sentava em julgamento, até os sábios ficavam atónitos com a sagacidade dos seus veredictos, e sob o seu reinado a cidade prosperou, e toda a Arábia floresceu e tornou-se forte.

Mas Haroun Al Raschid tinha inquietações na sua alma.

E nessas alturas, quando a escuridão descia sobre a sua fronte, ele saía por uma noite para a cidade de Bagdad, levando consigo apenas o seu amigo Vizir Jafar, e Masrur, o seu executor. Vestidos como mercadores de uma terra distante, eles percorriam a cidade, a experimentarem os seus prazeres e saborearem as suas bebidas, a enobrecerem os virtuosos e os artistas, e a repudiarem os malévolos e os preguiçosos.

Desta forma encontraram histórias mais estranhas do que as que alguém pudesse contar até aquela altura, mesmo no mercado de Bagdad. Foi nessa altura que Haroun Al Raschid elevou um miserável pedinte ao Califado, por um dia de sonho, e também quando o Grande Rei testemunhou a morte de um corcunda e admirou-se dos sete estranhos que confessaram o seu assassínio, ainda que o pobre tolo se tivesse engasgado com uma espinha de peixe. E aconteceu em Bagdad, cidade das cidades, cidade acima das cidades, que o Rei e o seu Vizir testemunharam o único voo do cavalo alado, todo feito de vidro excepto pelos olhos, que eram de osso.

Mas ainda assim o Rei permanecia inquieto.

Um dia, conforme Allah decidiu que haveria de ser, o Defensor da Fé estava num balcão muito acima da cidade, ao meio do dia, e foi-lhe permitido ver toda a cidade espalhada abaixo de si, como uma tapeçaria. Ele viu tapetes a vibrarem pelos céus, mercados a abarrotar de doçarias e especiarias raras, e pássaros habilmente feitos de jóias que cantavam mais docemente que qualquer ave nascida de um ovo.

Ele viu caravanas a atravessar o deserto, rumo à cidade, camelos carregados com sedas, perfumes caros, diamantes e rubis grandes como o punho de um homem, e jovens dançarinas de olhos pintados, a suas faces veladas e os pés tatuados com hena. Viu embarcações a entrarem no porto, cheias de cereais e romãs, e os banhos públicos e as espirais das mesquitas, e ouviu os Muezzin a chamarem os fiéis às orações. E viu os artesãos e marinheiros e mercadores; os guerreiros e os guardas da cidade, e estranhos de todas as nações, que haviam vindo para Bagdad, a jóia das cidades. Incomparável.

Tudo isto ele viu, mas o seu coração estava inquieto. Era o Ramadão, o mais sagrado dos meses, pois foi no Ramadão que o anjo Gabriel primeiro deu a palavra de Allah, o Único, o único Deus, ao Profeta.

A sua esposa, Zubaidah, veio à sua presença.’
continua...

quarta-feira, novembro 08, 2006

Ramadão I (por Neil Gaiman)

‘Em nome de Allah, o Compassivo, o Todo-Misericordioso, eu conto a minha história. Pois não há outro Deus senão Allah, e Maomé é o seu Profeta.

Saiba então que esta é uma história de Bagdad, a Cidade Celestial, a jóia da Arábia, e que isto aconteceu no tempo de Haroun Al Raschid, Rei dos Reis, Príncipe dos Fiéis. Não existia outra corte como a de Haroun Al Raschid. Ele havia juntado à sua volta todos os tipos de grandes homens de todos os cantos do mundo: sábios e alquimistas, geógrafos e geomantes, matemáticos e astrónomos, tradutores e arquivistas, juristas, linguistas, magistrados e escribas.

Na sua corte encontravam-se os melhores professores dos Hebreus (que foram os primeiros dos três povos do Livro), e os mais distintos monges dos pálidos Cristãos (uma gentinha suja que não toma banho e venera o poio seco do seu líder, a quem chamam Papa). E, naturalmente, os maiores estudiosos do Corão, a palavra de Allah como foi revelada ao seu Profeta Maomé, cento e oitenta anos antes.

E assim, era o seu palácio o palácio da Sabedoria.

Existiam mulheres no seu harém: concubinas de todas as terras, infiéis e fiéis, com peles brancas como a areia do deserto, castanhas como as montanhas vistas ao anoitecer, amarelas como fumo e pretas como obsidiana, todas elas adeptas da arte do prazer. E também muitos belos rapazes de queixos ainda imberbes, e olhos negros devassos e luxuriantes, saborosos como damasco arrancado durante o orvalho.

E assim, era o seu palácio o palácio do Prazer.

Havia também mágicos no palácio: astrólogos que podiam interpretar a vontade de Allah a partir das danças celestiais das estrelas distantes, encantadores da China e das terras mongóis, com altos chapéus de pelo e longas mangas cheias de segredos, feiticeiros beduínos ascéticos que conheciam os segredos dos anjos e dos djinn e dos homens, poetas e músicos, e homens de apurada percepção e gosto perfeito.

E encontravam-se estranhos assombros na corte: homens com cabeças de animais, animais que falavam como homens, e maravilhosos prodígios mecânicos que fingiam ter vida, cantavam ou moviam-se quanto lhes dirigiam a palavra.

E assim, era o seu palácio o palácio das Maravilhas.’
continua...

terça-feira, novembro 07, 2006

O porquê das coisas: Tacto


O Ramadão, também chamado de quarto pilar do Islão, foi estabelecido em 638 d.C. como sendo o nono mês do ano. Inicia-se, dependendo do local, entre os dias 23 e 25 de Setembro, durando até 22 ou 23 de Outubro. É considerado o mais venerado, abençoado, e espiritualmente benéfico mês do calendário islâmico.

Durante todo o mês, e de acordo com as palavras de Deus, todo o adepto do Islão adulto e capaz deverá observar um rigoroso jejum durante o dia, a iniciar com o avistamento da lua nova (para atingir um estado de consciência mais próximo do Divino), mas também são igualmente importantes a caridade, as orações, e a meditação. Desde a alvorada até ao anoitecer, são proibidas a bebida, comida, tabaco, e relações sexuais, mas também é incentivada a obediência aos preceitos da fé islâmica, através da contenção da ira, inveja, ganância, luxúria, respostas sarcásticas, traição e boatos. Deve ser evitado tudo o que possa representar obscenidade ou heresia, mantendo a pureza dos pensamentos e acções.

A história “Ramadan” de Neil Gaiman foi publicada pela primeira vez em Junho de 1993, e imediatamente alcançou um tremendo sucesso entre crítica e leitores, tendo vendido mais de 250.000 cópias, um feito inédito para a série “Sandman” até à data. Ainda hoje é considerada como a favorita por muitos fãs. A história, soberbamente ilustrada pela pena elegante de P. Craig Russell, é contada numa perfeita tradição árabe, e gira à volta do dilema de um califa de Bagdad que acredita-se realmente ter existido: Haroun Al-Raschid.

Desde que comecei os posts “O porquê das coisas” que tive intenção de colocar uma adaptação escrita de uma história do Sandman, mas foi difícil seleccionar aquela que melhor se encaixaria na transposição de um media que mistura texto e arte na narração de uma história, para outro que apenas envolve texto e a imaginação do leitor. A história “Ramadan” é uma das minhas favoritas (embora o “Dream of a Thousand Cats” seja aquela que mais acarinho), e tem a particularidade de ter nascido como um conto.

Para melhor alcançar o estilo arábico de contar histórias, na tradição da “Mil e Uma Noites”, Neil Gaiman optou, em “Ramadan”, por começar o argumento em texto corrido na forma de um conto, planeando posteriormente dividi-lo em painéis, páginas, e balões de diálogo. Felizmente, num daqueles acasos do destino, algum tempo mais tarde telefonou ao artista que iria ilustrar a história para lhe dar os contornos gerais do trabalho. P. Craig Russell pediu para ver o que ele tinha escrito até à data, ao que Neil Gaiman acedeu (dizem que é uma pessoa extraordinariamente gentil), e imediatamente após ler o texto implorou-lhe que não alterasse nada, deixando-o ilustrar a história à sua vontade.

O resultado é uma poderosa combinação de texto visualmente poético, com uma sublime interpretação artística a nível dos desenhos e cores, e a maneira como a história foi construída facilita bastante a adaptação para o formato de conto. Aliás, trata-se mais de uma tradução literal do que propriamente uma adaptação, uma vez que só deixei que a minha fraca veia literária interviesse quando era necessário descrever alguns painéis que na BD falam por si, sem necessidade de palavras. Pelo que a história que publicarei a partir de amanhã é uma tradução levemente adaptada de uma história da autoria de Neil Gaiman, e quando o texto vos parecer mais fraquinho será decerto nas partes onde a minha pena deixou a sua marca.

A tradução foi mais demorada do que previa, e ao mesmo tempo a minha vida entrou numa espiral de stress, pelo que o blog esteve uns tempos semi-abandonado, mas tudo isto terminou, e podem contar com textos meus em breve. Uma vez que o texto completo de “Ramadan” tem mais de 18 páginas, optei por dividi-lo em partes, que publicarei ao longo desta semana. Desta forma não canso os meus pacientes leitores e leitoras. Se porventura houver alguém mais curioso e que prefira ler tudo de uma vez, vou colocar online um ficheiro PDF com o texto completo e algumas ilustrações de P. Craig Russell, para que possam apreciar a beleza do traço deste senhor.

Para terminar, volto a referir que a história que se segue não é da minha autoria, mas sim de Neil Gaiman, reservando-se todos os direitos de autor. Se a empresa detentora dos direitos de publicação do “Sandman” (em Portugal julgo ser a Devir) não pretender ver este texto publicado, basta entrar em contacto comigo através do mail do Blog, e imediatamente retirarei os posts. Se quiserem ler o original, basta efectuarem a compra aqui.

E agora, sem mais delongas, apresento-vos “Ramadan”. Espero que gostem.
Boa noite, e bons sonhos.

quinta-feira, novembro 02, 2006

Vox Populi


“Para que o mal triunfe, basta que as pessoas de bem não façam nada”
Edmund Burke

Ponderei durante algum tempo a colocação deste post. Não por receio de represálias, ou comentários inflamados, mas por achar que o mesmo seria estranho ao conteúdo do blog. Afinal, que lugar tem um post a publicitar uma acção de cariz humanitário num blog essencialmente literário?

Muito. Porque somos seres humanos conscientes e compassivos acima de tudo, sendo essas características (entre outras) o que nos define como tal, e porque lutar contra as injustiças do mundo não mais é do que sonhar. Ainda que sejam lutas contra moinhos de vento, mesmo que nada advenha das nossas acções, é necessário erguer a voz humana que trazemos dentro de nós e clamar por todos os sonhos que nos embalam o pensamento, e dão asas à alma.

Foi publicada uma
petição online contra a participação da “estilista” Fátima Lopes em eventos futuros do Portugal Fashion, a mesma Fátima Lopes que utiliza peles de animais verdadeiros nas suas colecções de luxo, e que defende publicamente as suas opiniões. A petição já tem cerca de 900 assinaturas, mas são necessárias muitas mais para que possamos chamar a atenção da organização que a promove (ANJE) e o seu presidente. Mais vozes para que o grito silencioso dos milhares de animais que estão neste momento a passar por sofrimentos atrozes seja ouvido pelos poderes instituídos, pela comunicação social, pela sociedade.

A petição tem recebido um apoio incondicional por parte de muitas pessoas, e já operou algumas revoluções na mente de outras que desconheciam esta situação. São estas pequenas vitórias contra os gigantescos moinhos de vento que despertam a crença no sonho de um futuro melhor, e só por isso, já valeu a pena.

Não lhe peço que assine, apenas que leia o texto. Se concordar, apoie e divulgue a mensagem. A petição não tem qualquer valor legal, e será certamente contestada pelos destinatários da mesma, mas é uma luta que tem de ser travada. Há que mostrar a voz da indignação, para que se saiba que estes actos não passam impunes, ficam registados, não são esquecidos. Há que alimentar o sonho, até que deixe de o ser.

http://www.PetitionOnline.com/ftmlopes/petition.html
Boa noite, e bons sonhos. (Amanhã: Ramadão)

quarta-feira, outubro 04, 2006

Leituras IX


"Nebara Jozen não o escondera. Morrera com dificuldade, chorando de medo, implorando misericórdia durante a morte lenta e cruel a que fora submetido. Tinham-lhe permitido que fugisse, depois sofrera golpes de baioneta, desferidos por entre risos, depois fora obrigado a correr novamente até que lhe cortaram os tendões das pernas. Depois deixaram-no rastejar, estripando-o lentamente, enquanto ele gritava, o sangue a misturar-se com os excrementos, sendo depois abandonado para que morresse.
Depois Naga focara a sua atenção nos restantes samurais. De imediato, três dos homens de Jozen se ajoelharam, descobrindo os ventres e colocando facas afiadas diante deles para cometerem seppuku com ritual. Naga permitiu que três dos companheiros destes se colocassem por detrás deles, de espadas alçadas e seguras com ambas as mãos. Quando os samurais ajoelhados se inclinaram para pegar nas facas, estenderam os pescoços e as três espadas fenderam os ares, decapitando-os de um só golpe. Os dentes entrechocaram-se nas cabeças caídas, e depois ficaram imóveis. As moscas acorreram.
Em seguida ajoelharam-se dois samurais, ficando o último homem por detrás deles. O primeiro a ajoelhar-se foi decapitado da mesma forma que os seus camaradas, quando se inclinava para apanhar a faca. O segundo disse:
- Não. Eu, Hirasaki Kenko, sei como devo morrer... como um samurai deve morrer.
Kenko era um homem novo, suave, sempre muito perfumado, quase bonito, de pele clara, que usava o cabelo muito bem oleado e limpo. Pegou reverentemente na faca, rodeando o cabo desta com a sua faixa, a fim de melhor a segurar.
- Apresento o meu protesto pela morte de Jozen-san e de todos os seus homens - disse, firmemente, inclinando-se diante de Naga. Olhou o céu pela última vez e dirigiu ao seu ajudante um último e tranquilizante sorriso. - Sayonara, Tadeo. - Depois enterrou a faca profundamente no lado esquerdo do ventre. Rasgou-o de lado a lado com o auxílio de ambas as mãos e retirando-a, voltou a afundá-la violentamente, desta vez um pouco acima de uma das virilhas, puxando-a para cima, em silêncio. As entranhas dilaceradas penderam-lhe para o regaço, e só quando o rosto hediondamente contorcido e agonizante se inclinou para cima é que o seu ajudante deixou a espada cair, desferindo um único golpe.
Naga pegou, ele mesmo, na cabeça, segurando-a pelos cabelos que estavam presos no cocoruto, limpou-lhe a sujidade e fechou-lhe os olhos. Depois disse aos seus homens que a mandassem lavar e embrulhar, enviando-a depois a Ishido, com todas as honras e o relatório completo da bravura demonstrada por Hirasaki Kenko.
O último samurai ajoelhou-se. Não havia mais ninguém para o executar. Também este era jovem. As mãos tremiam-lhe e estava terrivelmente assustado. Por duas vezes cumprira o seu dever para com os camaradas, por duas vezes os executara de forma perfeita, honoravelmente, salvando-os da dor e da vergonha do medo. E aguardara, igualmente, que o seu maior amigo morresse como um samurai devia morrer, auto-imolado num silêncio repleto de orgulho, executando-o depois com a mesma perícia impecável. Nunca antes matara.
Os seus olhos pousaram na faca. Descobriu o estômago e rezou para que tivesse a mesma coragem que o amigo tivera. As lágrimas ameaçavam subir-lhe aos olhos, mas impôs ao rosto uma máscara sorridente e impassível. Desenrolou a faixa e envolveu o punho da faca. Nessa altura, como o jovem estava a cumprir honrosamente o seu dever, Naga fez sinal a um dos seus tenentes.
Este aproximou-se e, inclinando-se, apresentou-se formalmente.
- Osaragi Nampo, capitão da Nova Legião do Senhor Toranaga. Terei muita honra em actuar como seu ajudante.
- Ikomo Tadeo, primeiro-oficial, vassalo do Senhor Ishido - replicou o jovem. - Obrigado. Sinto-me honrado em aceitá-lo como meu ajudante.
A sua morte foi rápida, indolor e honrosa.
As cabeças foram recolhidas. Um pouco mais tarde, Jozen recuperou a consciência. Com as mãos, tentou frenética e escusadamente manter os intestinos no interior do ventre.
Deixaram-no entregue aos cães que, entretanto, tinham vindo da aldeia."
Coloquei este sangrento e visualmente descritivo post apenas para dizer que não, não me esqueci que tenho um blog. Estou a adaptar uma história do Sandman, de Neil Gaiman, e a tradução está a demorar um pouco mais do que o previsto, para além de que estes últimos dias tem sido um pouco cansativos e muito muito muito ocupados. Mas estou quase a terminar, ao belo ritmo de uma página por dia, pelo que em breve retomarei o serviço normal, com a mesma irregularidade de sempre. :)