terça-feira, setembro 12, 2006

Cinefilias III (Superman Returns)


Terá sido por volta do ano de 1984, 1985, numa era em que só existiam dois canais de televisão, a emissão real começava às seis da tarde (antes disso era a seca da tele-escola), a televisão por cabo era uma miragem, e só passava uma novela, brasileira, por dia. Estava sentado na cozinha, que também era a sala da casa da minha avó (para onde tínhamos ido morar recentemente), e começou o filme do Super-homem, numa estreia inédita na televisão. Lembro-me primeiro do espanto de um filme tão fantasticamente maravilhoso estar a passar na RTP 1, algo fora do normal para o que se exibia na época, e depois da sensação de surpresa, do inesperado. Como quando recebemos um presente com o qual não estamos a contar.

(Também senti o mesmo quando estava a sair do ciclo e vi o início do King Kong (aquele que inspirou Peter Jackson) pela janela de uma casa. Mas isso é outra história.)

Infelizmente, a televisão lá de casa era uma arcaica Phillips a preto e branco (a chamada televisão de guerra, feita para durar), e não podia ser, não, um filme deste calibre tinha que ser desfrutado a cores em ecrã gigante. Julgo que demorei cerca de 10 segundos a chegar ao café principal da vila, o Coelho (tinha outro nome mas, como tantos estabelecimentos de vila do interior, era conhecido pelo apelido do dono), um lugar semi-decrépito, com uma decoração característica dos anos 70, frequentado pela nata de bebedolas do local. E com televisão a cores, claro.

O Coelho estava dividido em duas salas grandes (restaurante e bar) separadas por uma parede, e com um balcão ao fundo, de madeira velha e a cheirar a bagaço, com bancos redondos esfolados que giravam. Naquela noite a área do bar estava deserta, com cadeiras espalhadas ao abandono como testamento às multidões que por ali tinham abancado durante o dia. Ao fundo, no balcão, ainda resistiam umas poucas pessoas, em conversa ruidosa. Tinha um cheiro característico, uma mistura de tabaco queimado e Macieira, e o chão de azulejos já tinha visto melhores dias. No tecto rodavam umas ventoinhas, preguiçosas e perigosamente oscilantes, que me provocavam calafrios quando lhes sentia o abanar próximo do cachaço. Puxei uma cadeira para longe das pás giratórias, apoiei os cotovelos numa das mesas, estiquei o queixo para cima pois a televisão estava apoiada numa prateleira mesmo ao cimo da parede, e perdi-me. Já não estava no Coelho, os bêbados reduziram-se a um murmúrio longínquo, entrei em Metrópolis a voar por entre os prédios.

Curiosamente, o Super-homem nunca foi o meu herói favorito. Antes mesmo de aprender a ler já as minhas irmãs me compravam as revistas do Homem Aranha, numa papelaria da Rua Direita em Viseu (que ainda existe, mas é livraria, agora), e quando chegou a altura de vestir um pijama colorido e sair para o largo de oliveiras à beira da nossa casa, era o aracnídeo que encarnava. Ai, as doces recordações da infância… o riso histérico das vizinhas nas janelas quando viram as minhas piruetas no empedrado, o baloiçar precário nos ramos…

Mas há qualquer coisa naquele super-herói que apela ao divino que há em nós. Não é a invulnerabilidade, não é a super força, ou a visão de calor e de raios x, nem mesmo a nobreza da personagem. É a capacidade de voar por entre as nuvens, mais rápido que uma bala. Foi o que me cativou desde cedo, e aquilo que me prendeu durante as duas horas (?) do filme, mesmo levando em conta os fracos efeitos especiais. Voar. Já deixei de sonhar que voava há alguns anos, mas a cada encosto na almofada sinto uma prece silenciosa cá dentro, a pedir “mais uma vez, só uma vez, por favor”. É a expressão de liberdade absoluta. Voar.

Quando fui ver este novo Super-homem, levava muitas expectativas na bagagem, mas também uma boa dose de reserva. Sabia que tecnicamente o filme seria fantástico, e pela primeira vez podemos ver o homem de aço realmente a voar, mas também sabia que nada poderia quebrar o primeiro encanto. O filme tem sequências repletas de espectacularidade (a cena do avião em queda é fantástica), mas uma história fraca, com actores e actrizes mal escolhidos, deixa muito a desejar.

Brandon Routh está bem escolhido pelas semelhanças físicas com Christopher Reeve, mas nunca consegue impor-se perante tamanho legado. O que não é de espantar, uma vez que se trata do seu primeiro papel, e nota-se bem o desconforto do actor em certas cenas que exigem um pouco mais de expressão dramática. Não percebi muito bem se estava a tentar colar-se aos trejeitos de Reeve, ou a prestar-lhe uma singela homenagem pelas mãos do realizador, mas o resultado final nem sempre é o melhor. E sofre de um dos problemas que afectam outro actor importante para a trama, que é o de ser demasiado jovem para o papel. Senão vejamos: neste filme, que supostamente é a continuação de Superman II (o III e o IV são ignorados, o que é uma bênção, pois foram o claro declínio da série), o Super-homem volta à terra depois de cinco anos passados no espaço, em busca do seu planeta natal, ou o que restou dele. Não se compreende que, passados cinco anos, o Super-homem apresente o aspecto de um homem a entrar na idade adulta. O engraçado é que, na minha opinião, Christopher Reeve tinha um ar demasiado adulto para quem saiu da quinta dos pais e procurou o primeiro emprego na cidade. São incongruências que facilmente perdoamos, e acredito que nos filmes seguintes Brandon Routh esteja mais amadurecido, fisicamente e como actor, e aí sim, tenhamos um Super-homem adequado.

A personagem de Lois Lane, Kate Bosworth, também é escandalosamente jovem para um papel de uma mulher que, para além de ser mãe de um miúdo com cinco anos, ainda teve tempo de ganhar um Pullitzer. Não compreendo a escolha, aquele papel precisava de alguém mais velho, com um ar mais profissional com aspecto de jornalista. A menina parece que saiu directamente de uma série para adolescentes, e quando tenta mostrar a sua personalidade forte e teimosa perante o editor do jornal (Frank Langella num Perry White apagado e burocrático), mais parece uma rapariguinha birrenta e mimada. Por outro lado, Kevin Spacey apresenta-se razoavelmente competente, e ofusca até certo ponto o Lex Luthor original (Gene Hackman), mas também não resiste a um certo histerismo de vilão maquiavélico.

A história não está mal de todo, mas tem muitos buracos, sendo que o maior deles reside justamente no plágio descarado que fizeram ao argumento do primeiro filme. Valha-me São Eustácio e todos os deuses do Vale do Nilo, com tantas histórias boas por aí, publicadas em milhares de revistas, não conseguiram fazer nada melhor do que ir buscar exactamente as mesmas ideias fulcrais e conceito do filme original de 1977? Mais uma vez temos um Lex Luthor obcecado com a criação de propriedade imobiliária (e destruição da propriedade já existente como consequência), mais uma vez temos um herói subjugado pela kriptonite, mais uma vez uma comparsa do vilão que lhe estraga os planos. Aliás, todo o plano maquiavélico de Luthor é risível, o que nos leva a outro assunto, igualmente pertinente.

Os super heróis representam os nossos ideais, as nossas aspirações enquanto seres humanos fracos, falíveis, e pouco nobres. Tanto quanto os deuses da antiguidade representavam o ideal de perfeição em forma de entidades superiores que governavam por vezes caprichosamente o destino dos pobres e indefesos mortais. O Super-homem, por aquilo que é e pelo que representa aos nossos sonhos, é o deus dos tempos modernos que paira acima de nós e ouve os nossos apelos e súplicas (preces?), pronto a intervir quando necessário. Esta imagem está bem patente na cena em que ele paira na atmosfera terrestre, de braços abertos em cruz (um pouco óbvio, sr. Singer, duh!), a ouvir todas as vozes da humanidade, a descer à terra para nos salvar. É um conceito bonito, e reveste o personagem de uma monumentalidade e dignidade que os filmes anteriores não tinham. O Super-homem merece essa monumentalidade, porque realmente é um deus, é o resultado da nossa vontade de alcançar uma certa noção de divino, de ultrapassar as misérias e fraquezas humanas.

Sucede que, na altura da sua criação e em anos subsequentes, o mundo era um local bastante mais simples. Na linear divisão de poder entre duas potências congregava-se uma igual divisão, a preto e branco, entre o bem e o mal (nós éramos o bem – a civilização ocidental –, e eles os maus, os comunistas devoradores de crianças que não permitiam ao seu povo viver em liberdade). Um personagem tão nobre, tão empenhado na defesa dos ideais do bem e da justiça, encaixava na perfeição nesta visão maniqueísta do mundo, mas entretanto o mundo mudou, e nada é a preto e branco. Todos os conceitos e ideologias se equilibram numa camada infinita de cinzentos, e os ódios e violências atingiram proporções inimagináveis. Existe lugar para um Super-homem num mundo destes? Ou melhor, será que ele pode fazer alguma coisa, terão as suas simples acções algum significado perante o desfile de horrores que nos servem diariamente pela televisão?

Este conceito está a ser, ainda de uma forma algo inepta, abordado pelas revistas de super heróis da actualidade, e era algo que gostava de ver trazido para o ecrã dos cinemas. Gostava de ver um herói esmagado pela maldade do mundo, a salvar uma pessoa de um incêndio com a plena noção que não estava a conseguir impedir o massacre de inocentes em qualquer outro ponto do outro lado do globo.

E aqui, penso que o filme perde a aura de fascínio, porque os maus estão bem definidos, e têm algum plano estúpido que vai provocar a morte de milhões, mas são tão ineptos nas suas acções, tão ridículos nas suas aspirações, que empalidecem frente a qualquer bombista suicida anónimo que se desfaz em bocados e leva dezenas com ele. O mundo do filme não é o mundo em que vivemos, e naturalmente que nunca poderia ser (com homens voadores e essas coisas e tal), mas podia ser um reflexo mais próximo do nosso mundo. Podia ter dilemas morais, consequências, culpa, morte e dor. E só tem fogo de artificio extremamente bem feito e umas poucas ideias coloridas daquilo que gostávamos que o mundo fosse. Embora nunca possa ser.

Para terminar, mais uns buracos que revelam alguma cegueira do realizador: o fato do Super-homem resiste a munições de calibre anti-tanque, mas não consegue manter a integridade perante uma pedra afiada de kriptonite. O caracol na testa do Super-homem dá-lhe um aspecto de cantor pimba (eu sei, eu sei, o Reeve também tinha, tal e qual como nas revistas, mas actualizem-se, pelamordedeus). O herói consegue erguer um continente do oceano e enviá-lo para o espaço profundo, aparentemente desconhecedor da capacidade de resistência e tensão dos materiais (tentem levantar o carro pelo pára choques e vão perceber: parte-se o plástico, o carro não se mexe).

São opções destas, que demonstram algum desrespeito pela personagem (que merecia uma história melhor, e com mais lógica) e pelo público (que pelos vistos não tem discernimento suficiente para notar estas coisas), que me deixam com um sentimento agridoce; o filme é bom nos momentos bons (como quando vemos Clark Kent a observar Lois Lane, através da visão de raios x, a subir pelo elevador, ou mesmo nos flashbacks da adolescência do herói), e péssimo nos maus (Lois Lane é tão burra que, perante a iminência de um desastre aéreo, faz o mais óbvio, que é soltar o cinto de segurança e andar aos tombos pelo avião). Bryan Singer abandonou o franchise dos X-Men para este projecto, mas deixou-se levar demasiado pela aura de génio que acredita ter, e preferiu desenvolver ideias gastas com um toque novo aqui e ali, e um clima de romance meloso inadequado. Não gosto de ver um Super-homem atormentado pelo romance da sua amada com outro homem, tal e qual um adolescente imberbe. Preferia ver um homem com poderes extraordinários a tentar o impossível: salvar a humanidade de si mesma.

Ainda assim, o filme vale a pena ser visto. Não consegue ultrapassar o original, com o saudoso Christopher Reeve apoiado nos arames a fingir que voava a alta velocidade, mesmo que a capa apenas sacudisse ligeiramente, e se notasse a discrepância de iluminação entre o fundo e o herói. Esse senhor, pelo papel que imortalizou, e por tudo o que conseguiu ultrapassar na sua vida, vai ser sempre o verdadeiro Super-homem. Até o miúdo embasbacado no Coelho sabia isso, quando o filme terminou e voltou para casa, a sonhar acordado que voava por entre as nuvens.
Precisa de uma segunda opinião?

sexta-feira, setembro 01, 2006

Problemas de Expressão (Ridículas II)




It’s like I just woke up one morning
Looked out the way that we live
For things could be so much better
They must be better than this





A noite caiu em silêncio, e assobia no ar um sopro frio que convida ao recolhimento. Estive durante algum tempo na varanda a observar as pessoas apressadas, em direcção às suas casas, vindas de qualquer lugar, e agora estou aqui sentado. Mais uma vez em frente a uma folha branca feita de zeros e uns virtuais, a tentar traduzir o inconsciente, o que não se pode relatar em palavras. A ordenar pensamentos e a procurar que alguma ideia coerente escorra da mente confusa para a ponta dos dedos que febrilmente bailam sobre o teclado.

O momento mais difícil é sempre este: começar. Cada vez que revolvo os cantos dos sentimentos, para encontrar qualquer coisa que valha a pena dizer-te, deparo-me com uma barreira quase intransponível, que é a tradução daquilo que trago no peito de uma forma que possas compreender. Sei que houve alturas em que me entendeste bem demais, em que leste todos os textos e poemas que trago guardados mas não revelo a ninguém, mas também momentos existiram em que senti que não conseguias alcançar para além da superfície, que alguma noção ou ideia te toldava os pensamentos e desviava o entendimento para zonas mortas, onde existia um reflexo daquilo que eu demonstrava, mas que não era aquilo que eu era.

No leitor de cd’s os Clã debitam langorosamente os seus problemas de expressão, e acendo um cigarro, de sabor fumarento. Por instantes perco-me a observar o revolutear sinuoso do fumo cinzento, esguio e ágil como um ser vivo, sensual como uma bailarina do ventre, pleno de contorções e reviravoltas, que, como tudo no mundo, também podem servir de metáfora para a vida, e, em ultima análise, para o amor. As palavras custam a sair, e por vezes digo o contrário do que estou a sentir, mas também não é todos os dias que se vive um grande amor, e certamente não é todos os dias que se perde um grande amor, pelo que alguma reserva uma pessoa deve ter antes de condenar e procurar os inevitáveis porquês do fim, que ultimamente parecem andar sempre rodeados de culpas e mágoas.

Não tenho bem a certeza do que vai sair de mim, com esta carta. Aliás, nunca soube que pedaços entregava, a cada texto que te escrevia, e esta não vai ser excepção, pelo que te peço alguma paciência. Algures vais encontrar uma noção basilar, e é à volta dessa ideia central que gravitam todas as palavras que te escrevo, sozinho no quarto com musicas tristes e uma cerveja meio bebida, sem mágoa nem pudor. Quero que saibas, no entanto, que se desconheço o que esta carta vai ser, tenho ao menos uma ideia clara do que não vai ser: não é um pedido de desculpas, não é um pedido de retorno, não é para te “iludir” para mais um encontro, não é para te deixar triste, não é para dizer que te amo ou odeio, nem sequer para descarregar lamentos ou frustrações. Se tiveres paciência e alguma curiosidade para leres o que te quero dizer, permite-me que pegue a tua mão, e te leve para os próximos parágrafos; se não queres mais olhar para dentro de mim, então tens toda a liberdade de saltar até ao último parágrafo, onde certamente te darei um beijo imaginativo e original de boas noites, com votos sinceros de felicidade.

Não é fácil, sei bem, e percebo que exista muita mágoa, e palavras que ficaram por dizer – talvez até sentimentos que ficaram por revelar – na nossa história. Acredito que o amor é, por si mesmo, uma expressão de algo mais grandioso que nos ultrapassa, uma força natural que atrai e repudia, e tanto nos leva aos píncaros como nos rebaixa aos insondáveis abismos. É preciso esforço, muito esforço, para que o encaixe que parece tão natural ao princípio se prolongue para aquele acomodamento gentil e doce, que afinal não mais é do que um amor intenso vivido de forma gradual e calma.

Há muitas concessões e exigências nisto de amar alguém, e sei que alturas existiram em que dei a entender que não estava disposto a abdicar de nada, que não mais eras na minha vida do que uma nota de rodapé, uma anotação à margem das páginas. Sei que tenho a vida demasiado preenchida, e momentos houve em que abdiquei de estar contigo para poder responder a mais algum compromisso, e não posso pedir desculpa por isso, porque… bem vês, é assim mesmo que a vida é, não há nada que possamos fazer. Tu sempre foste a melodia central da minha vida, aquele pulsar ao fundo que marca o ritmo de tudo, mas no meio da canção sempre existiram notas que se introduziram à traição, e que distorciam um pouco o tempus da composição. Ao fundo, era sempre a tua canção que estava a tocar, era sempre a tua música que eu ouvia.

Porque sempre foste o meu porto de abrigo, aquele farol imutável que permanece sólido e afronta todas as tempestades, constantemente a alumiar o meu caminho. Por mais voltas e reviravoltas que a minha vida desse, por mais locais onde fosse e pessoas conhecesse, tu estavas sempre ao fundo da viagem, e mesmo indo na direcção contrária, era para ti que eu ia. Para ti, mais ninguém.

Não quero com isto dizer que te considerava “sempre ali”, eternamente disponível, viesse eu de onde viesse. Não. Quero dizer que podia sempre contar contigo, e não importa quão louca e movimentada fosse a minha vida, não interessava em que turbilhões da cidade e do pensamento me perdesse. Sabia que estavas lá, e sempre ia encontrar a paz no teu regaço, o descanso nos teus braços, a doçura nos teus seios.

O que é o amor, afinal?, o que significa na verdade amar alguém, senão encontrar nessa pessoa aquele refúgio onde podemos ser nós próprios, sem máscaras e sem mágoas, onde podemos sentir que amar é tão simples, tão fácil, tão verdadeiro, que nunca poderia ser de outra forma? Nunca precisei de me esforçar para te amar, e mesmo quando discutíamos, ou te zangavas comigo, eu sabia que eras tu, só podias ser tu. Contigo era simples, não havia lugar para lógicas complicadas, para equações de paixão, raízes quadradas de desejo, ou algoritmos de sentimentos. Estava implícito, e só isso é mais do que podemos esperar de uma vida regida por cálculos que contornam os sentimentos.

Nunca procurei em outros braços aquilo que os teus braços me davam porque não precisava, tu eras a fonte que matava todas as minhas sedes, mesmo que esta frase seja um terrível lugar comum e deva ser evitada a todo o custo. E se te pareci distante, alheio até, é porque não sentia necessidade de deconstruir o que me passava pelo peito, pois sabia que estavas ali para me receber, que aquilo que sentias era tão incondicional como o que sentia. Nem me apercebi que te afastava, que algures no teu íntimo uma outra compreensão se instalava. Parecia-te desinteressado? Dei-te a sensação que não tinhas a importância que devias ter? Fiz-te sentir menos especial do que aquilo que és, e mereces sentir? Não era a minha intenção, e só não te peço desculpa agora porque silenciosamente, ao longo destes tempos, já a pedi muitas vezes.

Sei que a vida tomou um rumo que talvez te leve para longe de mim. Sei que outros pensamentos te ocupam o espírito, e talvez não me dediques, no coração, mais que um fugaz aceno de lembrança, e está tudo bem, acredita. Um amor incondicional exige entrega e abnegação, e eu quero que sejas feliz, mesmo que a tua felicidade passe fora do meu, do nosso caminho. Da mesma forma que sei que mereces ser feliz, também sei que fomos felizes, mesmo no meio da amargura e das discussões. Porque a vida e o amor têm que ter atrito para conjurar calor. Todos temos que ter momentos menos bons para que os momentos felizes sejam realmente felizes. É assim que eu vejo a nossa história, e sei que foi uma história bonita, de amor profundo, altos e baixos, risos e lágrimas, beijos e olhares duros, mas não seria profundo se não tivesse existido nada disso. E talvez já não te amasse, se nada disto tivesse acontecido.

Não te vou esquecer, porque não se esquece alguém como tu, e se tens que ser feliz seguindo o teu próprio caminho, sozinha ou sem mim, então estou mais que disposto a recolher-me silenciosamente para o lado e deixar-te passar, lançar-te um olhar prolongado e deixar que este amor me leve para outro local, para onde tenho de ir. Talvez as coisas pudessem ter corrido de outra forma, e talvez estivesse nas minhas mãos o rumo para que tal sucedesse, e eu não soubesse para onde deveria ter ido, ou para onde te deveria ter levado, mas não é altura para recriminações, ou lamentações sobre o que poderia ter sido, mas não foi.

Irão as nossas linhas da vida cruzar-se novamente, como já se entrelaçaram antes? Não sei. Dizem que o amor nunca afasta verdadeiramente ninguém, e mesmo que caminhemos em direcções opostas, nesta terra que querem que acreditemos ser redonda, acabaremos por nos encontrar algures pelo caminho. Talvez nos encontremos livres de tudo o que nos afastou da primeira vez, e possamos olhar um para o outro, redescobrir o que nos trouxe e traz sempre de volta, começar outra vez. Mais maduros, mais seguros, mais vividos, com mais bagagem de alegrias e tristezas, mais prontos para nos aceitarmos.

Não te quero esquecer, não te vou esquecer, e sempre trarei a tua imagem guardada ciosamente e com carinho no coração. Porque há momentos para fugir de nós próprios e de quem amamos, e momentos para acreditarmos que estas certezas só surgem uma vez na vida, não as conseguimos ocultar, afogar em desilusões, asfixiar em ressentimentos. Há amores que sabemos instintivamente que foram únicos, e por terem sido únicos sempre viverão dentro de nós. Esta certeza é algo que vou carregar comigo, enquanto existir, mesmo que te veja ao longe com outra pessoa, mesmo que te olhe nos olhos e desvies o olhar, mesmo que passes por mim, e não digas uma palavra. Sei bem qual é o som da tua voz, e sempre vou conseguir ver o verde dos teus olhos.

Antes que a cortina final encerre este ultimo acto de nós dois, há ainda uma coisa que te quero dizer, e não é nada elaborado ou romântico de uma forma pretensiosa. É apenas uma constatação:

Foste tu. Foste sempre tu, a única certeza da minha vida, aquela que trago desde que te vi pela primeira vez, e que vai permanecer comigo muito tempo depois de teres desaparecido no horizonte.

E é tudo. Desejo-te boa noite, com um beijo prolongado, do tamanho das estrelas que brilham no teu olhar, suave como o toque sedoso da tua pele, e sentido, como todo o amor que nos uniu, que nunca nos vai separar.

24 de Janeiro de 2006 (escrito a pedido)

quarta-feira, agosto 23, 2006

Números redondos


Nem de propósito, a Etta James está neste momento a cantar o "At last". A Etta está estapafurdiamente estupefacta, e eu também. 1.000 visitas, número redondo, que bem que fica no contador.

Não me digam que é uma vaidade fútil, que eu sei que é. Nem vale a pena dizer que a maior parte das visitas provenieram de pesquisas no Google sobre a Merche Romero e o Cristiano Ronaldo (para que é que eu fui escrever o post do 24 horas?) ou sobre o Keanu e a Sandra (e eu que bati tanto no filme), ou outras tantas pesquisas diversas que trouxeram os intrépidos a este espaço, onde ficaram exactamente 0 segundos, assim mesmo, em números redondos. E se pensar bem, já que falamos em zeros, a maior parte das visitas foi esse mesmo o tempo que ficaram; as outras ficaram mais, e agradeço-vos a paciência com que vão acompanhando os meus sonhos, mesmo quando falo de assuntos tão díspares como jogos antigos de computador ou títulos possíveis de jornais.

(A titulo de curiosidade, algumas pesquisas absurdas que encaminharam cibernautas para aqui: amor matemática, engenho brum brum – não perguntem -, frases para pai falecido, gémeas esteves cardoso nuas, keanu reeves nu (suspiro), jogo de passengers, - e a jóia da coroa - estrias da merche romero).

De permeio, temos 41 posts com carradas astronómicas de texto (que bem repartido dava para pelo menos o dobro de actualizações), um computador decrépito e periclitante como a versão informática de um citröen dois cavalos de 1972 que acabou de dar a volta ao mundo, e as pessoas. As pessoas são o mais importante. Não trazia grandes expectativas quando comecei este blog, foi a minha segunda musa profissional que me sugeriu pela primeira vez a ideia (se bem que já a trazia em lume brando há algum tempo), mas sabia pela anterior experiência nos fóruns que há muitas pessoas interessantes por aí. Ufffff.

A Lusce disse-me, há cerca de dois meses, que devia refrear a quantidade de texto escrito, para não esgotar a pachorra de quem me lê. Reconheço-lhe o bom senso – que não tenho – porque é mesmo difícil ler um texto comprido no monitor, e tentei de certa forma não alongar-me demasiado em trivialidades. Mas é difícil. Um amigo disse que reconhece padrões quando lê o blog, que as conversas comigo são parecidas, tento encaixar muita coisa, demasiada parra, absurdo esmiuçar de assuntos, dispersão miserável, falar falar falar. E eu que até sou tímido ao primeiro contacto…

A Marycarmen (obrigado pelo livro) a quem ofereci recentemente um dos meus volumes do Sandman, reclamou do fundo deprimente do blog, pois dava uma ideia triste deste humilde escriba, e aconselhou-me a colocar um saudável texto branco com letras pretas. Compreendo que facilite a leitura, mas depois como poderia ter escrito o “I see your face before me”? Só se a cegueira descrita fosse como a do Saramago, um oceano de leite sobre a vista. Prometo que inverto as cores quando fizer anos, em Novembro, mas só por um dia. Este blog é nocturno, em consonância com o tema, ainda que sonhemos em qualquer ocasião, e agrada-me esta estética de escuridão.

Lá estou eu a desviar-me do fundamental, outra vez. Pessoas. Conheci virtualmente algumas pessoas através deste espaço, e alarguei os horizontes da mente e do coração, com este conhecimento. Foi pelo “Passengers” que embarquei na descoberta de outros blogs, que visito com frequência, e nunca me canso de ler. Ler pessoas. Como poderia saber que existiam, de outra forma? Teria uma vida mais pobre, indubitavelmente, se não me tivesse atrevido a criar este “monstro” negro que me atazana constantemente com a lembrança de novos posts para escrever. E se comecei o blog por mim, devo dizer que agora, é por mim e por todos os passageiros que por aqui viajam que continuo.

Ando a arrastar há meses a escrita de uns contos, que incluirei aqui em tempo devido. Aliás, vou terminar agora o post para poder voltar à cidade onde as obras de arte enlouqueceram (ver “Teaser” para um vislumbre inicial da história). Mas faltam ainda umas últimas palavras:

O visitante 1.000 do meu blog foi alguém da minha família, se a localização do computador que o contador informa está correcta. Terá sido a minha irmã, ou as minhas sobrinhas? Mil beijos para todas elas, com todo o meu amor.

E boa noite e bons sonhos, para todos vós.

sábado, agosto 19, 2006

Leituras VIII



"Ela senta-se no canto, tentando extrair um pouco de ar numa divisão onde há poucos minutos parecia haver muito, mas agora parece não haver nenhum. Do que lhe parece uma distância enorme consegue ouvir um débil uup-uup e sabe que é o ar a descer-lhe pela garganta, saindo depois outra vez numa série de pequenos arquejos febris, mas isso não altera a sensação de que se está a afogar, ali, no canto da sala de estar, olhando para os destroços rasgados do romance de bolso que estava a ler quando o marido chegou a casa.
Não que isso lhe interesse muito. A dor é demasiado grande para que se preocupe com tais questões insignificantes como a respiração ou o facto de parecer não existir ar nenhum no ar que respira. A dor engoliu-a como, alegadamente, a baleia terá engolido Jonas, aquele que na Bíblia quis fugir ao recrutamento. Pulsa como um sol venenoso cintilando nas profundezas do seu ventre, onde até esta noite havia apenas a tranquila sensação de algo novo a crescer.
Nunca sentira uma dor como esta, pelo menos que se lembrasse - nem mesmo quando, com treze anos, ao dar uma guinada na bicicleta para se desviar de um buraco foi projectada, indo bater com a cabeça no asfalto, ficando com um golpe que levou onze pontos. O que recordava desse incidente era uma espécie de dor perfurante seguida por uma escuridão surpreendentemente estrelada que fora, na verdade, um breve desmaio... mas essa dor em nada se comparava com esta agonia. Esta horrível agonia. A mão que tem pousada na barriga sente uma carne que já não se parece de todo com carne; é como se tivesse sido aberta, como um fecho de correr, e o seu bébé com vida substituído por uma pedra escaldante.
Oh, meu Deus, por favor, pensa. Faz com que o bébé esteja bem.
Mas agora, quando finalmente a respiração começa a normalizar um pouco, dá-se conta de que o bébé não está bem, que ele também disso se encarregara. Quando se está grávida de quatro meses, o bébé ainda faz mais parte de nós do que de si mesmo, e quando se está sentada num canto com o cabelo colado em farripas às faces cobertas de suor e a sensação de que se engoliu uma pedra quente...
Algo lhe está a deixar pequenos beijos sinistros, viscosos, na parte de dentro das coxas."

Mingau 2003 ~ 2006

"[...]

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe."

Alberto Caeiro, 7-11-1915

:'(

sexta-feira, agosto 18, 2006

Imbricações II


“Brevemente olharemos a paisagem de longe, brevemente seremos expulsos do paraíso. Nada de novo num mundo velho que se reconstrói a cada momento.”
Revisitação

Imbricações deriva da palavra latina imbricare, que significa “dispor como as telhas num telhado”. É assim a Lusce, quando assina os posts como Maria C.: dispõe pequenas pérolas de germinações de ideias, curtos momentos de reflexão que pairam à superfície, a adivinhar o mergulho em elaborações cognitivas de águas profundas. Sem ostentações, quase com distanciamento, em gestos de intimidade mais sentida que pronunciada.

“Ás vezes o amor chega sobreposto em camadas. Na camada mais profunda fica escondida a esperança longínqua, depois a meio o possível, à superfície o visível.”
Camadas e camadas...diz o Ogre

Nunca estive com a Lusce pessoalmente, mas já a conheço há algum tempo, desde os saudosos tempos do fórum Generalidades, no Sapo. Como qualquer mulher que se preze, também ela é feita de muitos nomes, enigmaticamente imbricados ao observador atento: Kriptonita, Stela Polaris, Lusce, Lac Lunair. Reparo que em todos estes nicks há uma sugestão – não observável mas pulsante como a sua escrita – de luz, claridade, exposição, luminosidade. Nunca intrusiva, mais como o raiar bisonho que se insinua pelas frestas da cortina, de manhã, a sugerir o dia temperado.

“O amor faz-se de memórias também. O sorriso, o colo, a carícia. Os tempos corriam doces e o futuro era no presente um colar de pérolas. Depois a distancia cruzou o céu e ficaram somente os dias de gelo, o frio da neve, o vento húmido do oceano. Restam-nos os dias de sol que nos aquecem a ponta do nariz em dias despidos de nuvens.”
Olhares 60

Eram assim os seus posts, nos fóruns: nunca arrogantes na imposição, mas insinuantes no convite à reflexão. Disse-lhe uma vez que ela me despertava para aquilo que baptizei de “pensamentos de segundo grau”, que são todas as reminiscências que nos ocorrem mas nem sempre nos apercebemos delas. E é assim a Lusce, e são assim os seus posts, no blog: servem como introdução a pensamentos mais alongados, não se encerram em ideias acabadas e plenamente desenvolvidas. São descrições breves, erupções de sonhos que aguardam pacientemente na fímbria do consciente, à espera da manifestação, na busca de interlocutores. Agora, digo-lhe que ela tem vocação de musa profissional. E tem, mas também escreve muito bem.

“O desassossego e o tempo que teima em ficar. O tempo que me prende ao presente. O tempo que não prevê futuro. O tempo que me puxa para o passado. A flor. O nome. O colar. Campos repletos de amarelos na paisagem silvestre. O sol e a primavera. Matizados de cores. Onde será o tempo futuro?”
Olhares 55

Se alguma coisa haverá a dizer da Internet, será que nos permite tocar á distância aqueles em que nos reconhecemos. Como manifestações da mesma pessoa, com outras vivências, formas, vozes. É uma ilusão, claro, mas ainda assim uma agradável mentira. Falar com a Lusce deixa-me a pensar em todas as pessoas que conheci através deste meio, e de uma forma tão íntima e simultaneamente resguardada de identificações, que quase encontro ecos de mim nelas. Como se fosse essas pessoas, mas noutro contexto, diferentes dimensões.

E depois imagino que estamos todos na fila do cinema, isolados como estranhos que mantém paredes invisíveis a precaver o íntimo, cada um de nós a ver as costas da pessoa à frente, a pensar sem pensar, a olhar sem olhar. Conhecemo-nos todos, mas nem sonhamos quem somos. E continuamos isolados, como estranhos que se tocam no escuro. Sem sonhar que é a nós todos que estamos a tocar.

“Eu sei que te faço sonhar nos dias em que as estrelas empalidecem e o mundo se apresenta frio, gelado, sem luz.

Como dizer-te toda a ternura que me inspiras?
Falo para o vento, sabes?
Mergulho por dentro, inspiro, relaxo, e depois deixo exalar o ar de vagar. De vagar. Vês? É apenas respiração. In out, in out, in out. Lentamente.”

À laia de explicação

Abate-se uma chuva grossa nos telhados da cidade. Acabei agora mesmo de vir da marquise, onde estive a espreitar a descarga raivosa dos elementos que vai lavar sarjetas e purificar ruas para que a constante dança da vida possa prosseguir o seu frenesim, tantas vezes desnorteado, quase sempre impuro.

É um bom momento para escrever, enquanto se sente o tap tap teimoso nas telhas e o Leonard Cohen sugere que I’m your man. Hunf. Deve saber algo que eu não sei, decerto.

Vou portanto escrever, e não estarei muito mais aqui, com vocês, agora. Volto depois, assim que terminar de despejar sonhos e sentenças para a desesperante folha branca, com um ritmo tão esforçado como o despejar da água, lá fora. Espero. Pretendo antes de embarcar, no entanto, começar um projecto que desde o início do blog me atormenta: vou prestar algum tipo de homenagem aos autores dos blogs que humildemente incluí nos meus links. Não como forma de lhes amaciar o pêlo, que a maior parte nem sequer conheço pessoalmente, pelo que não há necessidade de graxas no escalpe.

Sucede que já encontrei muitas pessoas extraordinárias, que me abriram horizontes para muito que desconhecia, e a maior parte dessas pessoas são mesmo conhecimentos virtuais. Não será incapacidade da minha parte para encontrar indivíduos de tal calibre no mundo offline, creio; talvez o mundo virtual seja mais propício a uma abertura controlada, que despreza conhecimentos triviais tão necessários no relacionamento face to face, e irrelevantes no revolutear soul to soul através do monitor. Aqui dentro o olhar peneira mais fino, mais fundo, mas é sempre um conhecimento deficiente que não permite o vislumbre na multidão. É como afundar sem sequer ter visto a superfície.

Como pretendo acrescentar mais alguns blogs à listagem de links, nada melhor do que falar um pouco dos já residentes: em suma, dizer de mim o que me vai na alma perante aquilo que lhes vai na alma quando os visito. E eu sei, Sérgio Lunático, tu foste o primeiro a ser adicionado, mas sejamos cavalheiros: as senhoras terão sempre a prioridade, sem necessidade de quotas.

Portanto, os próximos posts são dedicados aos poucos blogs que se podem encontrar à direita (com excepção do A Bomba, que já teve direito a post próprio), e sempre que adicionar um blog à lista – tarefa morosa pois sou criterioso nas companhias – deixarei um texto à laia de explicação.

Ou de desculpa, se a opção ofender ouvidos mais sensíveis. :)

terça-feira, agosto 15, 2006

A simulação do amor

Se a necessidade aguça o engenho, será que os nossos antepassados nas cavernas estavam mais capacitados que os seres humanos modernos, para lidarem com as contrariedades e precariedades da vida? Seriam mais resolutamente astutos, e dotados de habilidade instintiva, para ultrapassarem as limitações naturais que se nos impõem?

Actualmente todos os computadores possuem uma capacidade explosiva de processamento gráfico e computação matemática. Com tanto poder, não seria de espantar que insidiosamente se tivessem imiscuído em todas as áreas do conhecimento e manipulação humanas. Falta-lhes apenas alma, e é essa a grande barreira que ainda terão que transpor, antes de o processo de absorção da humanidade se completar. Não sabem amar, apenas simular o amor. Não sentem prazer, mas já começam a dar os primeiros passos na disposição do prazer, na imitação da sensualidade. Que será de nós, máquinas obsoletas que ainda se sobrepõem a tais impulsos eléctricos, quando formos inferiorizados pelo amor de uma máquina? Simular amor é exprimir amor?

Afasto-me do assunto. A necessidade aguça o engenho, portanto. No início da década de noventa do século passado surgiram as primeiras aventuras gráficas, maioritariamente pelas mãos da Lucas Arts. Foi um processo lógico de evolução que teve como ponto de partida as aventuras de texto que surgiram inicialmente, e que por sua vez também foram um desenvolvimento do conceito nascido nos livros de escolha múltipla, e nos jogos de RPG. O objectivo último, como em todos os jogos, era o de imiscuir o jogador num mundo que lhe é totalmente estranho, suportado por regras claramente definidas, onde poderia vivenciar experiências que de outra forma jamais seriam experimentadas. Entreter e submergir, pois então, na forma de acções e reacções cuidadosamente encadeadas por forma a alcançar um propósito maior.

Nas aventuras gráficas, esse prazer era levado ao limite, porque, sejamos honestos, falta aventura nas nossas vidas. Não vamos para o trabalho e somos raptados por extraterrestres, que querem destruir o planeta, cabendo a nós a grandiosa tarefa de salvamento da humanidade. Não descobrimos um portal inter dimensional no guarda-fatos quando vamos mudar de roupa. Não somos piratas, faxineiros espaciais, caçadores de vampiros, exploradores arqueológicos, agentes de viagem para a terra dos mortos, pilotos contrabandistas, ou seres absolutamente comuns em circunstâncias extraordinárias. Na falta de emoções e acontecimentos incomuns, fazemos o possível para os simular, e as aventuras gráficas representavam um escape ideal para uma vida cinzenta fora dos quatro cantos do monitor.

Existia no entanto um problema que limitava de certa forma o processo de transformação: os gráficos. Não existiam placas 3d, as resoluções não eram nada por aí além, e o máximo que se conseguia (e já estamos a falar de um estágio superior dos jogos) era uns fundos pintados à mão e posteriormente digitalizados, com resoluções adaptadas ao poder de processamento. Mas tudo sempre demasiado pixelizado, com muitos quadradinhos no ecrã. Sendo então que a necessidade aguça o engenho, e face a estas limitações, era preciso encontrar outras formas de levar o jogador a acreditar que realmente estava naquele mundo, a perder-se no jogo e metamorfosear-se em heróis improváveis: através de uma boa história.

Muitas pessoas da minha idade sofrem de acessos de nostalgia quando se recordam das directas passadas a jogar estes jogos. Da frustração de se encontrarem num beco sem saída, e experimentarem todos os objectos, todas as combinações, falarem com todos os personagens. E do exaltamento quando se conseguia descobrir o enguiço, e se avançava mais um pouco. Era um misto de glória e excitação descobrir que aquele personagem ia fornecer uma pista importante que permitiria o acesso a um local novo, com novos puzzles e novos personagens.

Actualmente, as aventuras gráficas perderam o lugar neste mundo do entretenimento onde predominam os simuladores de desporto e condução, e os first person shooters. Que não precisam de uma boa história (na verdade precisam, ou pelo menos beneficiam bastante, como Half Life 2 demonstrou peremptoriamente), pois que toda a submersão no jogo assenta primordialmente no aspecto visual. Espetem-lhes com suficientes efeitos especiais, shaders, formas orgânicas, movimentos fluidos, espaços de cortar o fôlego, e ninguém vai reparar na falta de substância. É um pouco como os filmes: os CGI (computer generated images) representam sem dúvida um grande avanço, e não podemos negar a sua espectacularidade, mas também é verdade que introduzem um elemento de preguiça na indústria. Aquilo que verdadeiramente cativa as audiências é uma boa história, mas há por aí muitos filmezecos que pensam que o que realmente é preciso são sequências de acção cada vez mais grandiosas, monstros cada vez mais realistas, cenas de destruição cada vez mais bíblicas. Milhões gastos em monumentais flops de bilheteira, na verdade flops da consciência crítica das massas. Não são simulações do amor, são antes prostituições baratas.

Com os jogos passa-se o mesmo. As aventuras gráficas morreram porque pouca gente se preocupa em investir numa história de qualidade, com diálogos credíveis ou ridículos, personagens caricatos ou realistas. Não vale a pena o esforço, financeiramente (ou valerá?). Os últimos esforços no sentido de dar um último fôlego a este género foram sem dúvida fantásticos (Syberia, Grim Fandango, Monkey Island IV), e merecem todo o carinho do mundo porque finalmente vemos uma história que nos agarra desde o princípio servida por gráficos belíssimos; afinal, aquilo que faltava às primeiras aventuras gráficas, que já conseguiam agarrar os jogadores apenas com base na história. Claro que também encontramos outras excepções em outros géneros (ver Warcraft III), nas prateleiras de hoje; mas continuam a ser excepções, nunca a regra.

O abandonware permite-nos voltar a esses saudosos tempos, e, uma vez ultrapassada a estranheza perante imagens tão pixelizadas, lá voltamos nós a ser adolescentes com garrafas de coca cola ao lado do computador, a varar noites de pesquisas e descobertas, sem pensar nos compromissos de amanhã. Depois de cinco minutos nem sequer nos lembramos dos milhões de polígonos debitados pelo jogo X, com texturas hiper realistas e mapas com formas curvas. Vivemos vidas comuns, é certo, e o máximo que podemos pretender é simular que existimos no centro de acontecimentos extraordinários em mundos oníricos, mas que fantásticos sonhos são estes, que nos mentem e convencem com tantas impossibilidades?

Sonhos, sim. É como sonhar. Consigo ser outras pessoas, ser um indivíduo normal em intrigas anormais. Descubro, invento, alcanço, elaboro, converso, e até me apaixono. É uma simulação de amor, claro: não será exactamente o sentimento, mas as palpitações estão muito bem sincronizadas. E que poderei esperar mais, eu que já vivo o amor longe do computador, senão sonhar amor em impulsos eléctricos que sonham ter alma?

(Assunto não esgotado, aguardem novos posts e, antes de tudo o que eventualmente façam, tenham uma boa noite, e bons sonhos)

segunda-feira, agosto 07, 2006

Bits ao abandono

O computador onde escrevo estes textos é uma arcaica peça de museu chamada Pentium II Celeron que funciona a uma velocidade de 450 Mhz, possui 320 Megas de RAM, e dois discos rígidos: um, que foi uma adição tardia, de 10 Gb de capacidade, e o original, com uns impressionantes 2,5 Gb. Este patamar de tecnologia só foi alcançável após um upgrade, há uns anos, visto que a maquinaria original não passava de um rafeiro Pentium MMX adquirido nos idos anos de 1998. O expert de informática que me estará a ler, neste momento, já se benzeu três vezes, e acendeu um velinha ao Santo Intel, com toda a certeza. :-)

Recordo os tempos em que andava no antigo sétimo ano do secundário, e tinha o hábito de me sentar nas escadas da escola, à espera que o professor (a) chegasse, com os olhos fechados, a imaginar batalhas espaciais. Assim mesmo, em 3d, e com uma panóplia impressionante de efeitos especiais, lá andava eu a conduzir o meu caça intergaláctico (bastante parecido com as naves da série “Galáctica”, que idolatrava), a disparar lasers fulminantes ao mesmo tempo que me desviava de inimigos ágeis.

Algum tempo depois entrei em contacto com o fascinante mundo da informática, através de um potente Spectrum Zx 48K, que era de um amigo com pais que tinham capacidade financeira para esses luxos. Era um bichinho impressionante, com teclas de borracha que dificultavam sobremaneira a escrita, ligado a um gravador e acoplado a um televisor, onde jogávamos durante horas a fio aqueles jogos que vinham em cassetes e que, quando estavam a ser carregados para a memória, produziam um ruído sumamente parecido com o de uma legião de gatos a serem esfolados com água a ferver.

Quando jogava esses jogos, que não passvam de uma série de pontinhos coloridos em deslocação no ecran, acompanhados de uma cacofonia digital, sonhava com um jogo que me permitisse explorar os confins do espaço, com planetas a sério, cidades de arquitectura futurista que pudesse sobrevoar com a minha nave. Depois olhava para aqueles bonecos simplistas e pensava: “Não é possível! Como é que eles poderiam fazer um jogo assim?”. Anos mais tarde, com este computador e uma novinha em folha placa gráfica Voodoo 2 (que me custou 56 contos – perdi mesmo a cabeça com esta), pude finalmente experimentar essa sensação de liberdade, com os jogos Wing Commander IV e V, e o Privateer. Foram noites frenéticas de orgasmos mentais consecutivos, por entre o vácuo espacial.

A tecnologia avançou e o meu Groo (este computador: qualquer dia ainda vos explico o porquê deste nome) parou no tempo. Não é que não tivesse capacidade financeira para o actualizar, ou para comprar algo melhor, mas acontece que, nessa altura, o meu emprego fornecia a intervalos regulares máquinas quase-topos-de-gama. Só utilizava este pc durante os fins de semana, em Viseu, pelo que não senti necessidade de maiores investimentos. Entretanto, esse emprego terminou, as capacidades financeiras baixaram drasticamente, e eis-nos chegados ao agora, eu e ele.

Apesar do gosto pela acção espacial, sempre tive uma queda especial por aventuras gráficas. Para quem não conhece, trata-se de jogos onde controlamos um personagem envolvido numa história que o força a descobrir certos segredos, decifrar enigmas, falar com personagens, viajar a determinados locais, realizar acções, recolher objectos, etc. Tudo isto para desvendar o grande mistério, ou completar o hercúleo objectivo, e terminar o jogo. As aventuras gráficas não primam pela acção (mas também não desgosto um Doom), são jogos que se jogam de forma pausada, com calma, e que normalmente obrigam a uma certa capacidade de raciocínio.

Penso que devo ter jogado todos os grandes clássicos do género: The secret of Monkey Island 1, 2, 3 e 4; Full Throttle; Day of the Tentacle, Simon the Sorcerer 1 e 2, Beneath a Steel Moon Sky, Under a Killing Moon, Indiana Jones and the Fate of Atlantis, The Legend of the Amazon Queen, Broken Sword 1 e 2, Gabriel Knight 1, 2 e 3, Grim Fandango, e muitos, muitos mais. Para os que conhecem estas coisas não terá passado despercebido que a maioria dos títulos mencionados foram lançados pela Lucas Arts, nos seus primórdios, quando ainda se dedicavam em pleno às aventuras gráficas (e eram os mestres do género): destaco particularmente o Grim Fandango, que é um dos mais recentes, e que considero (não apenas eu) uma das melhores aventuras gráficas jamais feitas. Se por acaso acha que gostaria de jogar um jogo deste tipo, aconselho que o adquira o quanto antes: é perfeito (Tim Schaeffer no seu melhor).

Visto esta máquina não ter capacidade para que eu possa jogar aquilo que se vai lançando para o mercado hoje em dia (estou a falar, por exemplo, de Syberia 1 e 2, que são jogos belíssimos), resolvi munir-me da pá e do capacete de mineiro, e escavar as profundezas da Internet, em busca dos velhinhos clássicos que nunca tive oportunidade de jogar. Hoje em dia, estes jogos são chamados de Abandonware, por se encontrarem fora do mercado, e existem centenas de sites que se dedicam a disponibilizarem-nos para todos os saudosistas. Não é legal, aviso desde já, pois os jogos continuam a ser propriedade dos seus criadores, e mesmo o acto de download de um jogo que já não esteja à venda continua a constituir um infringimento das leis de copyright, tanto quanto se o jogo em causa tivesse sido lançado este mês.

Existe no entanto uma certa complacência para com estes sites, uma vez que não se trata de pirataria no sentido real do termo: será mais uma forma das pessoas poderem reencontrar os jogos que fazem parte do seu imaginário infantil e juvenil. É uma homenagem. No meu caso trata-se também de uma forma de conseguir jogar o que quer que seja neste calhambeque, e dessa forma poder aliviar um pouco os sintomas de insanidade mental, e fingir que não tenho um blog para actualizar, he he.

Amanhã falo dos jogos que fui buscar, e dos sentimentos que me despertaram. Tentarei igualmente esta semana dar mais alguma arrumação ao blog, com a adição de links para novos blogs, e a criação de uma imagem para o cabeçalho da página.

Até lá, e como sempre, boa noite e bons sonhos.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Cinefilias II (A casa do lago)


Uma das regras de ouro, quando falamos de histórias de amor no cinema, é que o final tem que ser trágico, a puxar para a lagrimazita lamecha, para que o filme seja bem sucedido. Tome-se o exemplo de “Titanic”, “E tudo o vento levou”, “Meu doce Novembro”, “Love Story”, “As palavras que nunca te direi”, “O diário da nossa paixão” ou “Em algum lugar do passado”, e mesmo que alguns destes filme sejam absolutamente insuportáveis, sem dúvida que foram e são acarinhados por uma vasta legião de fãs, maioritariamente femininos (ok ok, por acaso gostei do “Titanic” e do “Em algum lugar do passado”).

Apesar do dourado estatuto, é uma regra que pode ser contornada ou quebrada com algum sucesso – como todas as regras, evidentemente –, afinal, everybody loves an happy ending. Da mesma forma, a observância da regra não garante por si só a conquista de romance imortal, como podemos constatar ao observar “Cold Mountain”, que tem um final trágico, mas não criou grandes correntes de emoção por entre as plateias. É mais o fruto de um equilíbrio delicado, onde a história torna-se tão importante quanto o desempenho credível dos actores envolvidos. Não se trata, portanto, de uma fórmula matemática de sucesso.

Não vou revelar se “A casa do Lago”, com Keanu Reeves e Sandra Bullock, tem um final feliz, ou trágico, mas posso desde já adiantar que não adianta. Estranha escolha de palavras, hum. É um filme infeliz, com um argumento inconsistente, mal realizado, mal filmado, e com péssimos desempenhos, que engana o público que assistiu ao trailer. Sinto-me sumariamente defraudado quando vou ver um filme e concluo que o trailer é infinitamente melhor que o produto acabado: havia ali uma faísca de uma ideia interessante, para uma história que poderia envolver-me por completo, e foram criadas expectativas aos quais o filme, depois de visto, não conseguiu minimamente corresponder. Saio do cinema com a clara sensação de ter sido comido, e nem sequer me deram um beijo na boca, antes. Blargh.

A história gira à volta de uma casa assente sobre um lago, e dos seus dois habitantes, separados temporalmente por um período de dois anos: Keanu Reeves é o atormentado arquitecto que comprou a casa construída pelo pai, com o qual tem problemas emocionais pendentes, e que vive no ano de 2004; Sandra Bullock é a atormentada médica que sofre de problemas emocionais com o pai (falecido), e que vive no ano de 2006. Antes de avançar, permitam-me que coloque as mãos na cabeça, e atormentadamente me pergunte porque raios todos estes personagens têm de ser atormentados pelo passado, e emocionalmente frágeis, já que isso não fornece nenhum dado relevante para a história que se segue.

Por motivos nunca explicados pelo argumento, estes dois personagens conseguem de alguma forma quebrar a barreira temporal que os separa, e desenvolver uma relação através da colocação de cartas na caixa de correio da referida casa, que deve ser uma verdadeira máquina do tempo, pois permite que as missivas ultrapassem este hiato de dois anos e sejam recepcionadas pelos destinatários. Eu sei, é idiota e totalmente inverosímil, não é? Mas uma história inverosímil nunca foi impedimento para uma boa história, desde que convenientemente apresentada, e é aqui que esta transformou-se em idiota: pura e simplesmente não encaixa, mas poderia encaixar, se a abordagem tivesse sido mais cuidada.

Começa logo no incidente inicial: Keanu (não, não me lembro do nome dos personagens, já podem ver o esforço que estou a fazer para me esquecer do filme, heh) compra a casa e muda-se, em 2004. Quando abre a caixa do correio encontra uma carta, supostamente deixada pela anterior proprietária, a pedir para as cartas que receber naquele endereço serem encaminhadas para a sua nova morada. A carta é da autoria da Sandra, que só vai lá viver em 2006… entenderam? Ele recebe uma carta em 2004 de alguém que deixou de viver na casa, em 2006! Mas pronto, vamos aplicar um pouco de suspensão da credulidade em benefício da história: não nos esqueçamos que a caixa de correio é uma máquina do tempo. O problema é que ele resolve escrever uma resposta e, muito inteligentemente, coloca-a na caixa do correio (que só recebe correio, não serve para enviar, a não ser que os carteiros na América também tenham essa função), em vez de a mandar para o endereço que estava na carta da “anterior proprietária”. É este o incidente que dá origem a toda a troca de correspondência entre os protagonistas, e que serve de ignição para o relacionamento que vão viver, e logo aqui temos um enorme buraco no argumento, que o realizador apressa-se a despachar, possivelmente para que não o cheguemos a notar. Não consegue.

E que dizer da posterior troca de correspondência, que mais parece uma conversa de sala de chat? Uma frase que é imediatamente respondida por outra frase, isolada, que por sua vez é também respondida por outra frase, etc, etc… Porra, trata-se de cartas, e ninguém escreve apenas uma frase, e espera que a carta seguinte tenha também uma frase. Entendo que o realizador tenha querido dar alguma dinâmica ao relacionamento, mas acredito que foi uma má escolha: trata-se de um romance, e as histórias de amor pedem discursos bonitos e prolongados, com metáforas e poesias em prosa capazes de fazer suspirar a audiência. Aqui vemos apenas uma conversa em stacatto, de frases disparadas umas a seguir às outras, que não conseguem criar a envolvência necessária. Mais à frente, esse artifício é dispensado, e os personagens passam a falar directamente um com o outro, como se estivessem a conversar, em vez de corresponder-se. Incrível.

Por falar em envolvência, a química de Keanu e Sandra em “Speed” desapareceu por completo (faltam bombas e autocarros desgovernados, esse é que é o problema). Pura e simplesmente não conseguimos acreditar que esteja a nascer amor daquela troca de correspondência. A Sandra até se safa razoavelmente bem no papel de médica triste que vive fechadinha na sua concha emocional, mas o Keanu… ai ai, digamos que um boneco de gesso seria mais expressivo. O rapaz só consegue mostrar alguns dotes de representação em filmes com muita acção, onde esses dotes não são necessários. Numa história que depende, e muito, da capacidade e talento dos actores, mais parece um programa informático de simulação de voz, a tentar imitar emoções na entoação.

O argumento procura apresentar imediatamente as características do personagem, nas primeiras cenas, ao invés de tentar construir pessoas credíveis ao longo da história, e ainda que isto seja uma regra que decerto deve estar sublinhada no livro da escola de cinema onde o realizador estudou, falha por completo. É ridículo sermos informados que a Sandra é uma pessoa sensível apenas porque não conseguiu salvar um homem que foi atropelado, e está a chorar a um canto (alguma objectividade, hum? é uma médica, afinal); é estúpido que os problemas do Keanu com o pai autoritário sejam apresentados de forma peremptória, na cena em que este o encontra pela primeira vez, e é ignorado com um rude aceno de mão, se alguns minutos adiante vemos o pai e filho num jantar caseiro, e o pai está afável, afectivo até, interessado naquilo que o filho tem andado a fazer. Para quê apresentar características que deveriam definir as personagens, se depois as personagens vão contradizer-se?

Paralelamente, há momentos em que vemos claramente a mão do argumentista: deus ex machina. Isto sucede quando o argumento chega a um beco sem saída, e é preciso que aconteça algo, para avançar na história. Isto acontece, por exemplo, na cena em que o cão do Keanu sai disparado, e vai justamente parar junto de um personagem que, por acaso, namora com a Sandra (em 2004), e que até o convida para a festa de aniversário dela. Ou então na cena em que a Sandra, já no seu apartamento de 2006, decide sem mais nem menos afastar a carpete e começar a bater os pés, com raiva, no estrado de madeira, apenas para se aperceber de uma tábua solta, que oculta um esconderijo onde estão guardadas cartas do Keanu (era de supor que a qualidade de construção fosse um pouco melhor, ou que o problema da tábua fosse notado aquando da colocação do tapete). Não percebo o ar de surpresa na sua face: não foi ela que colocou as cartas ali?

Já agora, posso revelar que o grande dilema do filme é a distância que separa os apaixonados: no entanto, mais ou menos a meio, verificamos que afinal os seus destinos até se cruzaram, em 2004; dançaram agarradinhos e deram um chocho. Ora… se nessa altura o Keanu já sabia quem ela era, de tantas cartas trocadas, porque motivo não se preocupou em seduzi-la em 2004, ao invés de por correspondência, em 2006, já que isso iria garantir (inteligentemente) que em 2006 estariam juntos? Para quê tanto tormento e tanto drama?

E se o que dá origem à história é um buraco no argumento, então o final é uma cratera. Para além de não ter qualquer lógica – na lógica do filme –, é mais um exemplo de deus ex machina: o argumentista teve de intervir, mais uma vez, para levar o filme para um final satisfatório. Digamos, sem revelar nada de importante, que não apenas cria uma série de paradoxos temporais, que o filme despreocupadamente ignora, mas também subverte a lei das cartas na caixa do correio (deixa de ser necessária, não me perguntem porquê).

De permeio temos algumas informações irrelevantes sobre arquitectura que não acrescentam nada, e o realizador (que creio ser espanhol), ainda aproveitou para colocar os personagens a falar bem de Barcelona (uma tentativa publicitária provinciana), e para recrutar uma actriz que deve ser espanhola, a julgar pelo sotaque, e que soa soberanamente antinatural quando debita os seus diálogos.

O filme procura apresentar-se em tons sombrios, de cores esmaecidas, o que provoca, por sua vez, que algumas cenas estejam pessimamente iluminadas, e que outras pareçam ter saído directamente de um vídeo amador, com tons esverdeados e imagem granulada. A estocada final será a cara do Keanu Reeves, que parece ter inchado desde o “Matrix”: ou o homem descuidou-se na balança, ou andou a levar injecções de colagénio nas bochechas. A Sandra está bastante bonita, diga-se.

Resumindo: vejam o trailer gratuitamente, e sonhem com a bela história de amor que é sugerida. O filme que vão realizar na imaginação será sempre superior a esta porcaria implausível, que nem para DVD merecia ir. E tenho dito.

terça-feira, agosto 01, 2006

Welcome to your life


Sempre associei o fim de férias à taciturnidade do Outono, condicionado por anos de inícios de um novo período escolar, quando andava no ensino obrigatório. É um sentimento doce, porque se trata de uma despedida de dias leves ainda frescos na memória, e simultaneamente amargo, por se tratar de despedida, claro está. Tudo o que começa tem o seu fim, mas um final nunca é um descerrar completo da cortina, trata-se mais de uma reorganização dos cenários e de outras falas para decorar, em arranque de nova peça. Tudo o que começa, nesta vida, fá-lo sobre as cinzas de algo que terminou.

Gosto de dizer que sou uma pessoa de Verão, mas o Outono também me proporciona um sentimento geral indefinido, perpassado por uma melancolia que decerto já habita em mim, e que apenas encontra eco na imagem de encerramento sazonal. Um sentimento de perda, o devaneio de quem está a perder mas também prestes a ganhar algo, em troca. E depois temos a suave reflexão, a calma meditativa de dias dourados com folhas que tombam devagar, da cor da terra queimada. E o cheiro das castanhas assadas. Poucas coisas me fazem sentir tão docemente triste como o odor das castanhas assadas, trazido pelo vento que principia a arrepiar, em dias de sol que já não aquece.

É assim. Quando começo a perder o Verão, ocorre-me sempre tudo o que perdi, e o que já está perdido, pois que nunca o tive. Fico calado por dentro, e só me apetece recolher a uma cadeira, com um copo de cacau quente, a observar o infinito através da paisagem do lado de lá da janela.

Terminaram as férias, e o Verão ainda mal começou, mas sinto que já o perdi. Passou, e só me resta olhar para as árvores e esperar que a primeira folha caia, gentilmente. Amanhã começa a rotina, a luta diária pela procura de um sentido que a vida das 8 às 5 não tem. “Bem-vindo à tua vida”, é o que o escritório me vai dizer quando acender as luzes e ligar o computador. Depois serão muitos e-mails para responder, telefonemas para fazer, relatórios para elaborar, e reuniões para comparecer.

Trata-se de um choque de água fria, este entrar em contacto com uma realidade que esqueci demasiado facilmente, mas pelo menos posso dizer que os primeiros salpicos já me prepararam para o mergulho, na forma de uma carta do I.R.S., a solicitar comparência na repartição de finanças mais próxima, para fazer prova das declarações dos dois anos anteriores. E dizer que há dois dias a minha maior fonte de stress era saber se comia a bola de Berlim agora, ou mais daqui a pouco.

Bem-vindo à tua vida? Pffffffff. Se a vida me matar, enterrem-me no areal, por favor.

sexta-feira, julho 21, 2006

Carpe Diem


Até ao próximo dia 29 estarei a viver a vida em modo offline, num belo repouso algarvio. É a primeira vez que passo férias no Algarve, e estou a modos que ansioso por dias de areia escaldante e águas tépidas. Daqui a uma hora farei como os pássaros, que sempre foram mais espertos que qualquer um de nós: rumarei a Sul.

A todos os que por aqui passam (e porque não? a todos os que nunca por aqui passaram, igualmente), desejo uma boa semana, quer estejam a viver os dias calmos, ou no meio das horas asfixiantes de produtividade.

Voltarei renovado, e de escrita renovada. Levo comigo a Sr.ª Patrícia Highsmith e o Sr. Truman Capote, para me fazerem companhia, mas posso também adiantar que terei outra companhia mais palpável e infinitamente mais agradável, pelo que prevejo umas boas férias.

Fiquem bem, e continuem a sonhar. Até logo.

Leituras VII

"- Costuma ler o Record?

- Olho para ele mas não o leio. Os jornais não dizem verdades, só contam factos. Quer discutir essa questão?

- Fica para outra vez - respondeu Ellery, sorrindo. - Mas tenho de confessar que o admiro, Toyfell. Tem aguentado muito bem golpes que teriam deitado abaixo um homem mais fraco. Em pouco tempo, morrem-lhe dois patrões e um amigo, e você continua aqui... a filosofar.

- Conhece-te a ti mesmo - disse Harry Toyfell, ajoelhando novamente [no jardim]. - A alma do homem é imortal e imperecível.

- Você é religioso?

- Foi um pagão que disse isto. Leia Platão. Mas as pessoas já não lêem Platão. Só os jornais. A minha religião é adorar a Deus em cada semente. Na igreja não há nada além de flores cortadas."

Ellery Queen, Cara ou Coroa, Biblioteca Visão Mestres Policiais, Linda a Velha, 2000, páginas 71 e 72.

Lugares de sonho II


(continuando)

Trata-se, portanto, de uma colisão entre a realidade vivida e imaginada com a realidade existente. Digo vivida e imaginada porque nunca os nossos lugares de sonho foram tão perfeitos na altura em que os frequentámos, como quando agora os imaginamos; existe sempre uma cortina de idílio que cobre o véu das recordações, e esconde as arestas mal entalhadas da paisagem; é assim que sei que o recanto debaixo da ponte até era um pouco desconfortável, com todos aqueles mosquitos e moscardos em busca de carne quentinha para aferroarem as suas presas. E a pedra onde estendia a toalha também ficava a dever um pouco ao conforto de um espaço de terra macia coberta de relva.

Mas era o meu lugar de sonho, na medida em que passei lá muitas boas tardes, que agora procuro resgatar da memória.

Assim, como o personagem do romance de Nick Hornby que ansiava por um emprego numa moldura temporal específica, também acredito que há locais que apenas podemos encontrar num determinado tempo: são os nossos lugares de sonho. Já não existem na esfera material da realidade presente, porque dificilmente conseguiremos reunir todas as condições para que os mesmos sentimentos – recordações – sejam sentidos espontaneamente.

O que não deixa de me provocar certa tristeza, pois relembrar momentos felizes do passado significa assumir que nunca mais poderemos existir naquela série de circunstâncias, e estamos voluntariamente a dizer a nós mesmos que aquela felicidade não volta mais. E não volta mesmo. São lugares de sonho porque permanecem apenas nos sonhos, e só os evocamos num determinado tempo, que, como todo o tempo do mundo, correu, correu, gastou-se e passou, sem olhar para trás.

Quem conseguirá ficar totalmente feliz, depois de ter vivido momentos felizes, mesmo que agora esteja a viver outros momentos felizes? A lembrança da felicidade passada não trará apenas um certo amargo aos dias presentes? Poderemos verdadeiramente congratularmo-nos por uma infância alegre, despreocupada, se o próprio facto de a estarmos a recordar significa que – melancolicamente falando – nunca mais os dias serão assim tão inconsequentes? Porque será que fico triste quando me lembro de quão pouco triste era?

Arquivamos essas memórias como livros na prateleira, que servem como reconforto de uma vida plena mas também como monumento à perenidade das coisas: tudo acaba, tudo chega ao seu termo, nada volta ao que era. Tentar resgatar isso apenas introduz um elemento de anormalidade na vida, porque não podemos regredir no tempo, e já não somos as mesmas pessoas que viveram aqueles momentos. Crescemos, evoluímos, e como cobras que despem a pele que já não lhes serve, como uma meia velha, também nós temos que descartar certas vivências, e atirá-las para um poço de lembranças.

Estes três dias que passei em Viseu serão, no futuro, um lugar de sonho: Viseu, entre 14 e 16 de Julho de 2006. Foi um tempo e um local onde me entreguei por completo à despreocupada felicidade, mesmo tendo alguns maus augúrios a ensombrarem-me o céu sem nuvens. Foram dias de jantar na esplanada de um restaurante na zona antiga da Sé, ao som de um concerto ao vivo dos Fingertips a vinte metros das mesas, depois de uma tarde quente dividida entre o repouso na relva fofa e o mergulhar na água fresca. Foram fins de tarde carinhosos com alguém que muito amo na varanda de casa, por entre goles de cerveja e festas ao gato que ofereci à minha sobrinha, ao som da mais acertada escolha de músicas da RFM que já presenciei.

E foram também os dias da desilusão do encontro com o monstro de cimento que o rio debaixo da ponte se tornou, mas também dias mágicos de descoberta da ponte romana, mais adiante, que conduz a outra enseada verdejante, igualmente bela.

São assim os meus lugares de sonho. Existem apenas geográfica e temporalmente precisos em momentos que não se repetem, mas que melhoram com o passar dos anos. Pertencem ao mapa e ao calendário, o que os torna ainda mais distantes daquilo que sou agora. Posso esquecê-los, eventualmente, mas não são esquecidos. Evoluem, como eu.

Este post também evoluiu para direcções diferentes daquelas que eu imaginava levá-lo. Queria que tivesse saído um pouco mais poético, porque era esse o meu estado de espírito quando me decidi a escrevê-lo, e espero bem que me sirva de lição: nunca adiar a escrita quando ela quer ser escrita. Serve no entanto de aviso à navegação, pois amanhã por esta hora estarei a rumar para um lugar de sonho (Vila Real de Santo António, entre 22 e 28 de Julho de 2006), o que significa que privarei os meus três ou quatro leitores e leitoras do aborrecimento de lerem monólogos fastidiosos e intermináveis durante alguns breves dias :).

Até lá, boa noite, e bons sonhos.

segunda-feira, julho 17, 2006

Lugares de sonho I



No livro “Alta Fidelidade” de Nick Hornby, a dada altura vemos o personagem principal a tentar elaborar uma lista com os seus cinco empregos de sonho. O primeiro é, se a memória não me falha, ser jornalista da Rolling Stone entre 1972 e 1977 (os anos podem ser diferentes, não me apetece ir vasculhar os livros acumulados para conferir).

Cheguei hoje de uma viagem de três dias com a namorada (chuac!), da mui nobre e bela cidade de Viseu, pátria dos meus segundos passos da infância, que costumo visitar com alguma frequência, pois toda a família é de lá, e penso que poderemos aplicar um raciocínio similar aos nossos lugares de sonho.

Que todos temos, julgo. – Seja uma praia onde se passaram férias fantásticas, seja um local que se partilhou com alguém especial, seja o restaurante onde fomos pedidos (as) em casamento, ou aldeia onde crescemos, e até mesmo o chaparro debaixo do qual perdemos a virgindade. – Ou que, pelo menos tenho eu, e como tal os identifico. Embora não tenha perdido a virgindade debaixo de um chaparro (nem em cima, já agora).

O mal dos locais de sonho é a erosão do tempo. Não estou a falar da memória que eventualmente se desvanece, ou encapsula as recordações distantes numa forma de idílio celestial. Refiro-me ao desgaste físico, ou mesmo à destruição por mão humana. É assim que a praia que foi palco de um romance inesquecível, marcada por horas de namoro debaixo do pôr do sol, pode apresentar-se-nos, viajantes sedentos em busca do resgate de memórias saudosas, coberta de gaivotas histéricas, fruto da instalação recente de canos fétidos que desembocam na linha de água. E é uma desilusão.

Já passei por esse sentimento de perda demasiadas vezes; havia uma passagem na estrada velha que ligava Viseu a Vila Nova de Paiva, logo após uma curva ampla que concluía uma recta tão côncava como as dobras na virilha de uma mulher, que sempre considerei mágica: as árvores em volta da estrada quase que pareciam estar a dobrar-se, a quererem tocar-se através do espaço vazio, e formavam um longo túnel de verde frondoso que criava padrões de luz surreais nos dias solarengos. Foi com um constante pasmo de beleza, reverente respeito, que passei ali vezes sem conta, e foi com uma dor física no peito que verifiquei, há alguns anos, que um incêndio elevado a catástrofe reduzira aquele túnel, que nos abraçava com folhas, a uns poucos cotos enegrecidos nas margens do alcatrão. Ainda me dói quando lá passo, felizmente que construíram uma estrada alternativa.

Nessa mesma estrada (deverão já ter percebido que a própria estrada é para mim um local de sonho), quilómetros antes, há uma passagem que cruza com o rio Vouga, em forma de ponte em arco. A ponte eleva-se a uma altura respeitável sobre um desfiladeiro fundo, onde o rio cava, lá em baixo, o seu infindável caminho. Esse ponto do rio, há cerca de vinte, trinta anos, era bastante concorrido, e recordo-me de tardes alegres nas enseadas que então existiam, passadas com a família. Ainda sinto o cheiro do churrasco preparado ao ar livre, da fome de uma manhã passada a chapinhar atrás dos peixes.

Vieram entretanto as vias rápidas para o mar, as agências de viagens com pacotes turísticos pagos a prestações, a moda de ir para fora lá fora, e o local foi sendo progressivamente abandonado, deixado ao crescimento desenfreado das silvas e giestas. Só uns poucos resistentes voltavam ano após ano, e acreditem, havia bons motivos para isso: mesmo debaixo da ponte formava-se um pequeno açude convertido em piscina natural, que terminava numa escorregadia cachoeira que, por sua vez, era ladeada por enormes pedras que pareciam estar sempre em equilíbrio precário, e onde meia dúzia de banhistas estendiam as toalhas e se refastelavam como lagartos ao sol.

Admirava a beleza simples do local, a harmonia entre a cascata construída há décadas por mãos humanas e a beleza da natureza envolvente, que se tinha inteligentemente adaptado a uma arquitectura antiga feita de pedras empilhadas unidas com cimento grosso. Todas as casas das aldeias parecem habitar a paisagem como se tivessem sido feitas pela natureza, e aquela cachoeira dava a sensação de ter sido feita à custa do martelar constante da água, não destoava mais do que os rochedos gigantes. Foi sempre um local de sonho. Até lhe perdoei quando a minha irmã escorregou nas algas – e poderia ter sido muito mais grave – e ficou com um dedo virado ao contrário na mão que usou para se apoiar.

Frequentador assíduo do espaço, verifiquei como, de ano para ano, a minha toalha ia ficando mais sozinha na pedra gigante. Não me importei, e nem me preocupei se o motivo da falta de visitantes estaria de alguma forma relacionado com a qualidade da água. “Óptimo, mais sossego tenho”. E nunca deixei de voltar ao local, com a família, nos dias sufocantes do Verão.

Até há um par de anos, quando algumas mentes brilhantes – diria mesmo iluminadas – consideraram que seria uma excelente ideia encher o local de cimento em pontos estratégicos, desviar o curso da água lateralmente, promover a cascata a barragem à custa de quilos de massa, e, de uma forma geral, deformar completamente a paisagem, que passou de harmonia entre rochas, água e verde, a profusão de cinzento árido e água estagnada.

Porra.
(amanhã continuo)

terça-feira, julho 11, 2006

Leituras VI


"Apontei para a secretária vazia de Miss Fromsett e a loura acenou com a cabeça e carregou numa cavilha. Abriu-se uma porta e Miss Fromsett surgiu com o seu ar altivo, indo sentar-se à secretária, fitando-me com uma expressão fria e interrogativa.

- Faça favor de dizer, Mr. Marlowe. Mr. Kingsley ainda não chegou.

- Estive agora mesmo com ele. Onde podemos conversar os dois?

- Conversar?

- Queria mostrar-lhe uma coisa.

- Ah, sim? - Olhou desconfiada para mim.

Talvez muitos outros homens tivessem tentado atraí-la com coisas para lhe mostrar. Noutra altura qualquer também eu próprio era capaz de tentar a minha sorte."

Raymond Chandler, A Dama do Lago, Biblioteca Visão Mestres Policiais, Linda-a-Velha, 2001, página 100.

Palavras caras


Estive este Domingo na Feira do Livro, no Parque Urbano de Ermesinde, por um feliz acaso. Este tipo de eventos é o meu Toys ’R’ Us dos dias adultos, mas não pelos descontos nos livros novos; esses passam-me ao lado, é mesmo pelos livros em segunda mão. Confesso que me perco quando começo a vaguear pelas mesas de livros amarelados, com capas adoravelmente kitsch, e um vago odor a mofo. Metamorfoseio-me em mulher fanática por compras, na época de saldos. Acredito, inclusive, que os instintos femininos assomem à superfície, pois recuso-me a comprar o que quer que seja antes de ter manuseado tudo o que há para ver (“comprava já isto, mas e se na próxima loja estiver algo que me agrade ainda mais?”)

Duas horas depois estava com um saco em cada mão, razoavelmente cheios, restos de gelado no lábio, e um ar satisfeito de quem acabou de adquirir:

~ Shōgun, James Clavell, Vol. I, Publicações Europa-América, 541 páginas.
~ Shōgun, James Clavell, Vol. II, Publicações Europa-América, 543 páginas.
~ Cara ou Coroa, Ellery Queen, Biblioteca Visão Mestres Policiais, 256 páginas.
~ A Clínica do Terror, Mary Higgins Clark, Biblioteca Visão Mestres Policiais, 272 páginas.
~ A Dama do Lago, Raymond Chandler, Biblioteca Visão Mestres Policiais, 206 páginas.
~ A Sangue Frio, Truman Capote, Biblioteca Visão Mestres Policiais, 320 páginas.

Total: 6 livros, 2138 páginas, 10 euros (na verdade os dois primeiros foram oferecidos - obrigado amor -, mas o preço total está correcto).

À partida, não seria necessário escrever mais nada, uma vez que se a (o) cara (o) leitora (or) – é bom variar hábitos de escrita para o feminino, não acham? – tem paciência para me ler, não lhe serão alheios os preços mercenários da literatura, hoje em dia. Mas vamos penetrar só mais um pouquinho no âmago da questão (adicionei esta expressão fálica para os leitores não pensarem que beneficio apenas as mulheres).

O livro “A Sangue Frio”, de Truman Capote, está actualmente a ser comercializado a um custo de 17,96 € (dados obtidos na Fnac, Edições D. Quixote), e também aqui quaisquer óbvias conclusões tornam-se redundantes. É correcto afirmar que a edição na Fnac tem uma capa bonita, em alusão ao filme recentemente estreado, e fará melhor figura na estante lá de casa do que a edição de capa dura da Visão, que até diz “Colecção Lipton”, com o respectivo logótipo da bebida na contracapa. Mas isto é totalmente irrelevante para quem compra livros para ler (talvez esteja a aplicar o meu molde a todos os bons leitores, mas eu – sei bem – não compro livros para expor na prateleira. Não o faria, sequer, se tivesse uma prateleira).

Por outro lado, quem visita livrarias com alguma frequência, e vai para além das estantes frontais dos tops do momento, sabe decerto que o preço do livro de Truman Capote não estava tão inflacionado, antes da estreia do filme. Não há qualquer censura implícita nesta jogada da editora, afinal, tudo é negócio, e se se podem colocar livros tecnicamente off the immediate market a render mais umas moedas, quais prostitutas desdentadas momentaneamente elevadas à condição de novidade da semana, hey hey hey, more power to you, mighty publisher.

Mas não resisto a dar uma rapidinha na novidade da semana: só mesmo na mente de um bando de mentecaptos gananciosos que ouviram demasiadas teorias de marketing é que um livro com 40 anos de existência poderia ser trazido para a ribalta de preços de primeira edição, depois do relativo sucesso comercial de um filme baseado nesse livro de 40 anos, sendo que a punch line, nesta triste anedota, é que o filme deve a sua existência justamente ao sucesso do livro em questão. Confusa (o)? Já estou a ver os masterminds da editora a salivarem de antecipação perante as notícias da box office, os olhinhos cheios de cifrões, como os desenhos animados de há 40 anos, a imaginarem as dúzias de pacóvios que vão generosamente abrir as carteiras para pagar preços mais elevados por um livro, só porque alguém decidiu, um dia, adaptar a história ao cinema. E na maior parte das vezes nem se dão ao trabalho de disfarçar: é imprimir umas sobrecapas com as trombas do actor que faz o papel do personagem principal, embrulhar nas edições encalhadas em centenas de livrarias, e já está; saldos ao contrário, aproveite antes que façam a sequela. Outras vezes não é preciso encapotar o abuso; basta comparar os preços do Código da Vinci, que cheguei a encontrar a 13 ou 14 euros, depois de esgotada a euforia inicial, e agora já se alavancou a uns respeitáveis 16,16 €, com o lançamento do filme.

Os filmes baseados em livros incentivam a leitura das obras originais? Claro que sim. Os abutres também voam em círculos onde sentem carne fresca, mas isso não é motivo para tentar sacar mais alguns tostões das poucas pessoas cujos hábitos de lazer sustentam essas mesmas editoras. Queixam-se que actualmente se lê pouco? Da minha parte, considero que a invenção das sanitas de assento fez mais pela criação e incentivo de hábitos de leitura do que estas empresas que só sabem contar moedas.

E já sei o que fazer de agora em diante: estar bem atento às notícias sobre cinema, para decidir que livros comprar, antes que alguém decida prostituí-los.

sábado, julho 08, 2006

Cinefilias I (Poseidon)



Na década de 70 o cinema americano era fértil em filmes catástrofe: “A torre do inferno” (incêndio), “Aeroporto” (desastre aéreo), “Terramoto” (abelhas assassinas, obviamente), e muitos outros, tendo “A Aventura do Poseidon” alcançado um certo degrau de sucesso comercial.

Essa fase conheceu o seu inevitável fim, e eis que quase 40 anos depois voltamos à fase do revivalismo, onde parece que os argumentistas ficaram todos sem ideias de jeito, pelo que se entretêm a desempoeirar velhos hits do passado, com uma roupagem ligeiramente modificada, e a apresentá-los com uma panóplia alucinante de efeitos especiais. Também poderia dizer que esta é a fase dos filmes visuais, ou bombásticos, onde qualquer personagem credível, diálogos inteligentes e histórias coerentes, são substituídos por efeitos especiais caríssimos, de arregalar a vista, que visam exclusivamente colmatar todas as falhas referidas (a outra táctica é contratar mulheres com seios enormes – nunca falha).

Felizmente que “Poseidon” não é nada disto (está bem, eu confesso: é). Sim, tem efeitos especiais de cortar a respiração. Sim, os personagens são tão superficiais e caricaturizados quanto os dos livros da Margarida Rebelo Pinto. E sim, a história, apesar de tentar manter alguma pouca coerência, é simplista o quanto baste (pensaram que eu ia escrever q.b. não pensaram, seus hereges?). O filme sofre de todos os defeitos que normalmente caracterizam o consumo de massas preparado especialmente para acéfalos comedores de pipocas, mas, pelo menos, assume totalmente essa vocação comercial, atira-nos para uma montanha russa de emoções e perigos, e manda-nos para fora da sala com a refrescante sensação de que fomos total e obliviamente entretenizados.

Muito rapidamente, a premissa do argumento: Barco gigante de recreio, na noite de passagem do ano novo, é atingido por onda gigante, e fica virado ao contrário. Alguns passageiros recusam-se a esperar pela salvação (uma atitude bastante sensata, pois a cavalaria, em Hollywood, chega sempre tarde demais) e unem esforços para escapar pela única saída possível: a abertura das hélices.

É um pouco forçado, eu sei, mas neste tipo de filmes temos que nos sentar com a “suspensão da credulidade” ligada no nível máximo. E mesmo assim, há algumas passagens que realmente são demasiado inverosímeis (a sequência dos parafusos na grade, por exemplo), mas enfim, tudo é sacrificado em nome de uma boa diversão.

Wolfgang Petersen parece estar a especializar-se em: a) filmes catástrofe (ver “The Perfect Storm” e “Das Boot”) e b) filmes de ambiente náutico (ver “The Perfect Storm” e “Das Boot”), e consegue dirigir a história com segurança e mestria, optando por um ritmo avassaladoramente rápido, intercalado nos momentos certos por pequenas pausas na acção que permitem que nos recostemos para trás, e acalmemos os nervos. E acreditem que nervos é o que o espectador (bem como as personagens) mais vai sentir, seja pelas situações de insuportável aflição em que os personagens se vêem metidos, seja pelo facto de estarem sempre, sempre, sempre, a sair da frigideira para o fogo, em momentos de tensão cumulativamente mais stressantes.

Apreciei algumas opções do argumento que, ao evitar a banal sucessão de clichés de filmes do género, consegue surpreender (ver a cena do Valentin no elevador, e do afogamento de um personagem que em qualquer outro filme, seria intocável). Também gostei de notar que o realizador não se coibiu de nos mostrar todas as pouco higiénicas cenas macabras que um desastre destas dimensões certamente teria, se tivesse realmente acontecido (ao contrário do avião despenhado de Spielberg, no “Guerra dos Mundos”, que concerteza não tinha um único passageiro a bordo).

E depois é o festim visual: começa com a cena inicial, onde apreciamos as tremendas dimensões do navio, num plano de travelling só possível através de efeitos digitais, de belíssimo efeito. O momento do embate da onda também está muito bem concebido, e os cenários do navio, seja antes do desastre (um luxo grandioso), seja depois (um caos grandioso), são de uma perfeição difícil de igualar (reparem no hall principal do navio, antes e depois). Tecnicamente, “Poseidon” está impecável, e nota-se o extremo cuidado posto no projecto, o que só por si serve como garantia da (alguma) qualidade do filme, mesmo sendo pipoqueiro ao extremo. Os actores servem o propósito do argumento, e não se esforçam muito a aprofundar subtilezas: aqui, é sempre a correr, e para a frente, numa cadeia de dificuldades sucessivas, em crescendo. Notam-se aqui e ali alguns clichés, rapidamente engolidos quando o filme começa a acelerar.

Resumindo: para quem procura o significado da vida enquanto entidade intangível da sublimação do real no imaginário, o filme é mais do que apropriado, uma vez que quem tem esse tipo de problemas tende a encontrar respostas no que quer que seja que se lhes apresenta à frente, através de enfatuados processos mentais.

Agora se o que desejam é desligar o cérebro durante cerca de duas horas, mais vale irem ver um filme expressionista alemão, ou impressionista francês, para dormirem um pouco. Neste filme, ninguém dorme, todos nadam.
E correm.

Quer uma segunda opinião?