quarta-feira, agosto 23, 2006

Números redondos


Nem de propósito, a Etta James está neste momento a cantar o "At last". A Etta está estapafurdiamente estupefacta, e eu também. 1.000 visitas, número redondo, que bem que fica no contador.

Não me digam que é uma vaidade fútil, que eu sei que é. Nem vale a pena dizer que a maior parte das visitas provenieram de pesquisas no Google sobre a Merche Romero e o Cristiano Ronaldo (para que é que eu fui escrever o post do 24 horas?) ou sobre o Keanu e a Sandra (e eu que bati tanto no filme), ou outras tantas pesquisas diversas que trouxeram os intrépidos a este espaço, onde ficaram exactamente 0 segundos, assim mesmo, em números redondos. E se pensar bem, já que falamos em zeros, a maior parte das visitas foi esse mesmo o tempo que ficaram; as outras ficaram mais, e agradeço-vos a paciência com que vão acompanhando os meus sonhos, mesmo quando falo de assuntos tão díspares como jogos antigos de computador ou títulos possíveis de jornais.

(A titulo de curiosidade, algumas pesquisas absurdas que encaminharam cibernautas para aqui: amor matemática, engenho brum brum – não perguntem -, frases para pai falecido, gémeas esteves cardoso nuas, keanu reeves nu (suspiro), jogo de passengers, - e a jóia da coroa - estrias da merche romero).

De permeio, temos 41 posts com carradas astronómicas de texto (que bem repartido dava para pelo menos o dobro de actualizações), um computador decrépito e periclitante como a versão informática de um citröen dois cavalos de 1972 que acabou de dar a volta ao mundo, e as pessoas. As pessoas são o mais importante. Não trazia grandes expectativas quando comecei este blog, foi a minha segunda musa profissional que me sugeriu pela primeira vez a ideia (se bem que já a trazia em lume brando há algum tempo), mas sabia pela anterior experiência nos fóruns que há muitas pessoas interessantes por aí. Ufffff.

A Lusce disse-me, há cerca de dois meses, que devia refrear a quantidade de texto escrito, para não esgotar a pachorra de quem me lê. Reconheço-lhe o bom senso – que não tenho – porque é mesmo difícil ler um texto comprido no monitor, e tentei de certa forma não alongar-me demasiado em trivialidades. Mas é difícil. Um amigo disse que reconhece padrões quando lê o blog, que as conversas comigo são parecidas, tento encaixar muita coisa, demasiada parra, absurdo esmiuçar de assuntos, dispersão miserável, falar falar falar. E eu que até sou tímido ao primeiro contacto…

A Marycarmen (obrigado pelo livro) a quem ofereci recentemente um dos meus volumes do Sandman, reclamou do fundo deprimente do blog, pois dava uma ideia triste deste humilde escriba, e aconselhou-me a colocar um saudável texto branco com letras pretas. Compreendo que facilite a leitura, mas depois como poderia ter escrito o “I see your face before me”? Só se a cegueira descrita fosse como a do Saramago, um oceano de leite sobre a vista. Prometo que inverto as cores quando fizer anos, em Novembro, mas só por um dia. Este blog é nocturno, em consonância com o tema, ainda que sonhemos em qualquer ocasião, e agrada-me esta estética de escuridão.

Lá estou eu a desviar-me do fundamental, outra vez. Pessoas. Conheci virtualmente algumas pessoas através deste espaço, e alarguei os horizontes da mente e do coração, com este conhecimento. Foi pelo “Passengers” que embarquei na descoberta de outros blogs, que visito com frequência, e nunca me canso de ler. Ler pessoas. Como poderia saber que existiam, de outra forma? Teria uma vida mais pobre, indubitavelmente, se não me tivesse atrevido a criar este “monstro” negro que me atazana constantemente com a lembrança de novos posts para escrever. E se comecei o blog por mim, devo dizer que agora, é por mim e por todos os passageiros que por aqui viajam que continuo.

Ando a arrastar há meses a escrita de uns contos, que incluirei aqui em tempo devido. Aliás, vou terminar agora o post para poder voltar à cidade onde as obras de arte enlouqueceram (ver “Teaser” para um vislumbre inicial da história). Mas faltam ainda umas últimas palavras:

O visitante 1.000 do meu blog foi alguém da minha família, se a localização do computador que o contador informa está correcta. Terá sido a minha irmã, ou as minhas sobrinhas? Mil beijos para todas elas, com todo o meu amor.

E boa noite e bons sonhos, para todos vós.

sábado, agosto 19, 2006

Leituras VIII



"Ela senta-se no canto, tentando extrair um pouco de ar numa divisão onde há poucos minutos parecia haver muito, mas agora parece não haver nenhum. Do que lhe parece uma distância enorme consegue ouvir um débil uup-uup e sabe que é o ar a descer-lhe pela garganta, saindo depois outra vez numa série de pequenos arquejos febris, mas isso não altera a sensação de que se está a afogar, ali, no canto da sala de estar, olhando para os destroços rasgados do romance de bolso que estava a ler quando o marido chegou a casa.
Não que isso lhe interesse muito. A dor é demasiado grande para que se preocupe com tais questões insignificantes como a respiração ou o facto de parecer não existir ar nenhum no ar que respira. A dor engoliu-a como, alegadamente, a baleia terá engolido Jonas, aquele que na Bíblia quis fugir ao recrutamento. Pulsa como um sol venenoso cintilando nas profundezas do seu ventre, onde até esta noite havia apenas a tranquila sensação de algo novo a crescer.
Nunca sentira uma dor como esta, pelo menos que se lembrasse - nem mesmo quando, com treze anos, ao dar uma guinada na bicicleta para se desviar de um buraco foi projectada, indo bater com a cabeça no asfalto, ficando com um golpe que levou onze pontos. O que recordava desse incidente era uma espécie de dor perfurante seguida por uma escuridão surpreendentemente estrelada que fora, na verdade, um breve desmaio... mas essa dor em nada se comparava com esta agonia. Esta horrível agonia. A mão que tem pousada na barriga sente uma carne que já não se parece de todo com carne; é como se tivesse sido aberta, como um fecho de correr, e o seu bébé com vida substituído por uma pedra escaldante.
Oh, meu Deus, por favor, pensa. Faz com que o bébé esteja bem.
Mas agora, quando finalmente a respiração começa a normalizar um pouco, dá-se conta de que o bébé não está bem, que ele também disso se encarregara. Quando se está grávida de quatro meses, o bébé ainda faz mais parte de nós do que de si mesmo, e quando se está sentada num canto com o cabelo colado em farripas às faces cobertas de suor e a sensação de que se engoliu uma pedra quente...
Algo lhe está a deixar pequenos beijos sinistros, viscosos, na parte de dentro das coxas."

Mingau 2003 ~ 2006

"[...]

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva -
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe."

Alberto Caeiro, 7-11-1915

:'(

sexta-feira, agosto 18, 2006

Imbricações II


“Brevemente olharemos a paisagem de longe, brevemente seremos expulsos do paraíso. Nada de novo num mundo velho que se reconstrói a cada momento.”
Revisitação

Imbricações deriva da palavra latina imbricare, que significa “dispor como as telhas num telhado”. É assim a Lusce, quando assina os posts como Maria C.: dispõe pequenas pérolas de germinações de ideias, curtos momentos de reflexão que pairam à superfície, a adivinhar o mergulho em elaborações cognitivas de águas profundas. Sem ostentações, quase com distanciamento, em gestos de intimidade mais sentida que pronunciada.

“Ás vezes o amor chega sobreposto em camadas. Na camada mais profunda fica escondida a esperança longínqua, depois a meio o possível, à superfície o visível.”
Camadas e camadas...diz o Ogre

Nunca estive com a Lusce pessoalmente, mas já a conheço há algum tempo, desde os saudosos tempos do fórum Generalidades, no Sapo. Como qualquer mulher que se preze, também ela é feita de muitos nomes, enigmaticamente imbricados ao observador atento: Kriptonita, Stela Polaris, Lusce, Lac Lunair. Reparo que em todos estes nicks há uma sugestão – não observável mas pulsante como a sua escrita – de luz, claridade, exposição, luminosidade. Nunca intrusiva, mais como o raiar bisonho que se insinua pelas frestas da cortina, de manhã, a sugerir o dia temperado.

“O amor faz-se de memórias também. O sorriso, o colo, a carícia. Os tempos corriam doces e o futuro era no presente um colar de pérolas. Depois a distancia cruzou o céu e ficaram somente os dias de gelo, o frio da neve, o vento húmido do oceano. Restam-nos os dias de sol que nos aquecem a ponta do nariz em dias despidos de nuvens.”
Olhares 60

Eram assim os seus posts, nos fóruns: nunca arrogantes na imposição, mas insinuantes no convite à reflexão. Disse-lhe uma vez que ela me despertava para aquilo que baptizei de “pensamentos de segundo grau”, que são todas as reminiscências que nos ocorrem mas nem sempre nos apercebemos delas. E é assim a Lusce, e são assim os seus posts, no blog: servem como introdução a pensamentos mais alongados, não se encerram em ideias acabadas e plenamente desenvolvidas. São descrições breves, erupções de sonhos que aguardam pacientemente na fímbria do consciente, à espera da manifestação, na busca de interlocutores. Agora, digo-lhe que ela tem vocação de musa profissional. E tem, mas também escreve muito bem.

“O desassossego e o tempo que teima em ficar. O tempo que me prende ao presente. O tempo que não prevê futuro. O tempo que me puxa para o passado. A flor. O nome. O colar. Campos repletos de amarelos na paisagem silvestre. O sol e a primavera. Matizados de cores. Onde será o tempo futuro?”
Olhares 55

Se alguma coisa haverá a dizer da Internet, será que nos permite tocar á distância aqueles em que nos reconhecemos. Como manifestações da mesma pessoa, com outras vivências, formas, vozes. É uma ilusão, claro, mas ainda assim uma agradável mentira. Falar com a Lusce deixa-me a pensar em todas as pessoas que conheci através deste meio, e de uma forma tão íntima e simultaneamente resguardada de identificações, que quase encontro ecos de mim nelas. Como se fosse essas pessoas, mas noutro contexto, diferentes dimensões.

E depois imagino que estamos todos na fila do cinema, isolados como estranhos que mantém paredes invisíveis a precaver o íntimo, cada um de nós a ver as costas da pessoa à frente, a pensar sem pensar, a olhar sem olhar. Conhecemo-nos todos, mas nem sonhamos quem somos. E continuamos isolados, como estranhos que se tocam no escuro. Sem sonhar que é a nós todos que estamos a tocar.

“Eu sei que te faço sonhar nos dias em que as estrelas empalidecem e o mundo se apresenta frio, gelado, sem luz.

Como dizer-te toda a ternura que me inspiras?
Falo para o vento, sabes?
Mergulho por dentro, inspiro, relaxo, e depois deixo exalar o ar de vagar. De vagar. Vês? É apenas respiração. In out, in out, in out. Lentamente.”

À laia de explicação

Abate-se uma chuva grossa nos telhados da cidade. Acabei agora mesmo de vir da marquise, onde estive a espreitar a descarga raivosa dos elementos que vai lavar sarjetas e purificar ruas para que a constante dança da vida possa prosseguir o seu frenesim, tantas vezes desnorteado, quase sempre impuro.

É um bom momento para escrever, enquanto se sente o tap tap teimoso nas telhas e o Leonard Cohen sugere que I’m your man. Hunf. Deve saber algo que eu não sei, decerto.

Vou portanto escrever, e não estarei muito mais aqui, com vocês, agora. Volto depois, assim que terminar de despejar sonhos e sentenças para a desesperante folha branca, com um ritmo tão esforçado como o despejar da água, lá fora. Espero. Pretendo antes de embarcar, no entanto, começar um projecto que desde o início do blog me atormenta: vou prestar algum tipo de homenagem aos autores dos blogs que humildemente incluí nos meus links. Não como forma de lhes amaciar o pêlo, que a maior parte nem sequer conheço pessoalmente, pelo que não há necessidade de graxas no escalpe.

Sucede que já encontrei muitas pessoas extraordinárias, que me abriram horizontes para muito que desconhecia, e a maior parte dessas pessoas são mesmo conhecimentos virtuais. Não será incapacidade da minha parte para encontrar indivíduos de tal calibre no mundo offline, creio; talvez o mundo virtual seja mais propício a uma abertura controlada, que despreza conhecimentos triviais tão necessários no relacionamento face to face, e irrelevantes no revolutear soul to soul através do monitor. Aqui dentro o olhar peneira mais fino, mais fundo, mas é sempre um conhecimento deficiente que não permite o vislumbre na multidão. É como afundar sem sequer ter visto a superfície.

Como pretendo acrescentar mais alguns blogs à listagem de links, nada melhor do que falar um pouco dos já residentes: em suma, dizer de mim o que me vai na alma perante aquilo que lhes vai na alma quando os visito. E eu sei, Sérgio Lunático, tu foste o primeiro a ser adicionado, mas sejamos cavalheiros: as senhoras terão sempre a prioridade, sem necessidade de quotas.

Portanto, os próximos posts são dedicados aos poucos blogs que se podem encontrar à direita (com excepção do A Bomba, que já teve direito a post próprio), e sempre que adicionar um blog à lista – tarefa morosa pois sou criterioso nas companhias – deixarei um texto à laia de explicação.

Ou de desculpa, se a opção ofender ouvidos mais sensíveis. :)

terça-feira, agosto 15, 2006

A simulação do amor

Se a necessidade aguça o engenho, será que os nossos antepassados nas cavernas estavam mais capacitados que os seres humanos modernos, para lidarem com as contrariedades e precariedades da vida? Seriam mais resolutamente astutos, e dotados de habilidade instintiva, para ultrapassarem as limitações naturais que se nos impõem?

Actualmente todos os computadores possuem uma capacidade explosiva de processamento gráfico e computação matemática. Com tanto poder, não seria de espantar que insidiosamente se tivessem imiscuído em todas as áreas do conhecimento e manipulação humanas. Falta-lhes apenas alma, e é essa a grande barreira que ainda terão que transpor, antes de o processo de absorção da humanidade se completar. Não sabem amar, apenas simular o amor. Não sentem prazer, mas já começam a dar os primeiros passos na disposição do prazer, na imitação da sensualidade. Que será de nós, máquinas obsoletas que ainda se sobrepõem a tais impulsos eléctricos, quando formos inferiorizados pelo amor de uma máquina? Simular amor é exprimir amor?

Afasto-me do assunto. A necessidade aguça o engenho, portanto. No início da década de noventa do século passado surgiram as primeiras aventuras gráficas, maioritariamente pelas mãos da Lucas Arts. Foi um processo lógico de evolução que teve como ponto de partida as aventuras de texto que surgiram inicialmente, e que por sua vez também foram um desenvolvimento do conceito nascido nos livros de escolha múltipla, e nos jogos de RPG. O objectivo último, como em todos os jogos, era o de imiscuir o jogador num mundo que lhe é totalmente estranho, suportado por regras claramente definidas, onde poderia vivenciar experiências que de outra forma jamais seriam experimentadas. Entreter e submergir, pois então, na forma de acções e reacções cuidadosamente encadeadas por forma a alcançar um propósito maior.

Nas aventuras gráficas, esse prazer era levado ao limite, porque, sejamos honestos, falta aventura nas nossas vidas. Não vamos para o trabalho e somos raptados por extraterrestres, que querem destruir o planeta, cabendo a nós a grandiosa tarefa de salvamento da humanidade. Não descobrimos um portal inter dimensional no guarda-fatos quando vamos mudar de roupa. Não somos piratas, faxineiros espaciais, caçadores de vampiros, exploradores arqueológicos, agentes de viagem para a terra dos mortos, pilotos contrabandistas, ou seres absolutamente comuns em circunstâncias extraordinárias. Na falta de emoções e acontecimentos incomuns, fazemos o possível para os simular, e as aventuras gráficas representavam um escape ideal para uma vida cinzenta fora dos quatro cantos do monitor.

Existia no entanto um problema que limitava de certa forma o processo de transformação: os gráficos. Não existiam placas 3d, as resoluções não eram nada por aí além, e o máximo que se conseguia (e já estamos a falar de um estágio superior dos jogos) era uns fundos pintados à mão e posteriormente digitalizados, com resoluções adaptadas ao poder de processamento. Mas tudo sempre demasiado pixelizado, com muitos quadradinhos no ecrã. Sendo então que a necessidade aguça o engenho, e face a estas limitações, era preciso encontrar outras formas de levar o jogador a acreditar que realmente estava naquele mundo, a perder-se no jogo e metamorfosear-se em heróis improváveis: através de uma boa história.

Muitas pessoas da minha idade sofrem de acessos de nostalgia quando se recordam das directas passadas a jogar estes jogos. Da frustração de se encontrarem num beco sem saída, e experimentarem todos os objectos, todas as combinações, falarem com todos os personagens. E do exaltamento quando se conseguia descobrir o enguiço, e se avançava mais um pouco. Era um misto de glória e excitação descobrir que aquele personagem ia fornecer uma pista importante que permitiria o acesso a um local novo, com novos puzzles e novos personagens.

Actualmente, as aventuras gráficas perderam o lugar neste mundo do entretenimento onde predominam os simuladores de desporto e condução, e os first person shooters. Que não precisam de uma boa história (na verdade precisam, ou pelo menos beneficiam bastante, como Half Life 2 demonstrou peremptoriamente), pois que toda a submersão no jogo assenta primordialmente no aspecto visual. Espetem-lhes com suficientes efeitos especiais, shaders, formas orgânicas, movimentos fluidos, espaços de cortar o fôlego, e ninguém vai reparar na falta de substância. É um pouco como os filmes: os CGI (computer generated images) representam sem dúvida um grande avanço, e não podemos negar a sua espectacularidade, mas também é verdade que introduzem um elemento de preguiça na indústria. Aquilo que verdadeiramente cativa as audiências é uma boa história, mas há por aí muitos filmezecos que pensam que o que realmente é preciso são sequências de acção cada vez mais grandiosas, monstros cada vez mais realistas, cenas de destruição cada vez mais bíblicas. Milhões gastos em monumentais flops de bilheteira, na verdade flops da consciência crítica das massas. Não são simulações do amor, são antes prostituições baratas.

Com os jogos passa-se o mesmo. As aventuras gráficas morreram porque pouca gente se preocupa em investir numa história de qualidade, com diálogos credíveis ou ridículos, personagens caricatos ou realistas. Não vale a pena o esforço, financeiramente (ou valerá?). Os últimos esforços no sentido de dar um último fôlego a este género foram sem dúvida fantásticos (Syberia, Grim Fandango, Monkey Island IV), e merecem todo o carinho do mundo porque finalmente vemos uma história que nos agarra desde o princípio servida por gráficos belíssimos; afinal, aquilo que faltava às primeiras aventuras gráficas, que já conseguiam agarrar os jogadores apenas com base na história. Claro que também encontramos outras excepções em outros géneros (ver Warcraft III), nas prateleiras de hoje; mas continuam a ser excepções, nunca a regra.

O abandonware permite-nos voltar a esses saudosos tempos, e, uma vez ultrapassada a estranheza perante imagens tão pixelizadas, lá voltamos nós a ser adolescentes com garrafas de coca cola ao lado do computador, a varar noites de pesquisas e descobertas, sem pensar nos compromissos de amanhã. Depois de cinco minutos nem sequer nos lembramos dos milhões de polígonos debitados pelo jogo X, com texturas hiper realistas e mapas com formas curvas. Vivemos vidas comuns, é certo, e o máximo que podemos pretender é simular que existimos no centro de acontecimentos extraordinários em mundos oníricos, mas que fantásticos sonhos são estes, que nos mentem e convencem com tantas impossibilidades?

Sonhos, sim. É como sonhar. Consigo ser outras pessoas, ser um indivíduo normal em intrigas anormais. Descubro, invento, alcanço, elaboro, converso, e até me apaixono. É uma simulação de amor, claro: não será exactamente o sentimento, mas as palpitações estão muito bem sincronizadas. E que poderei esperar mais, eu que já vivo o amor longe do computador, senão sonhar amor em impulsos eléctricos que sonham ter alma?

(Assunto não esgotado, aguardem novos posts e, antes de tudo o que eventualmente façam, tenham uma boa noite, e bons sonhos)

segunda-feira, agosto 07, 2006

Bits ao abandono

O computador onde escrevo estes textos é uma arcaica peça de museu chamada Pentium II Celeron que funciona a uma velocidade de 450 Mhz, possui 320 Megas de RAM, e dois discos rígidos: um, que foi uma adição tardia, de 10 Gb de capacidade, e o original, com uns impressionantes 2,5 Gb. Este patamar de tecnologia só foi alcançável após um upgrade, há uns anos, visto que a maquinaria original não passava de um rafeiro Pentium MMX adquirido nos idos anos de 1998. O expert de informática que me estará a ler, neste momento, já se benzeu três vezes, e acendeu um velinha ao Santo Intel, com toda a certeza. :-)

Recordo os tempos em que andava no antigo sétimo ano do secundário, e tinha o hábito de me sentar nas escadas da escola, à espera que o professor (a) chegasse, com os olhos fechados, a imaginar batalhas espaciais. Assim mesmo, em 3d, e com uma panóplia impressionante de efeitos especiais, lá andava eu a conduzir o meu caça intergaláctico (bastante parecido com as naves da série “Galáctica”, que idolatrava), a disparar lasers fulminantes ao mesmo tempo que me desviava de inimigos ágeis.

Algum tempo depois entrei em contacto com o fascinante mundo da informática, através de um potente Spectrum Zx 48K, que era de um amigo com pais que tinham capacidade financeira para esses luxos. Era um bichinho impressionante, com teclas de borracha que dificultavam sobremaneira a escrita, ligado a um gravador e acoplado a um televisor, onde jogávamos durante horas a fio aqueles jogos que vinham em cassetes e que, quando estavam a ser carregados para a memória, produziam um ruído sumamente parecido com o de uma legião de gatos a serem esfolados com água a ferver.

Quando jogava esses jogos, que não passvam de uma série de pontinhos coloridos em deslocação no ecran, acompanhados de uma cacofonia digital, sonhava com um jogo que me permitisse explorar os confins do espaço, com planetas a sério, cidades de arquitectura futurista que pudesse sobrevoar com a minha nave. Depois olhava para aqueles bonecos simplistas e pensava: “Não é possível! Como é que eles poderiam fazer um jogo assim?”. Anos mais tarde, com este computador e uma novinha em folha placa gráfica Voodoo 2 (que me custou 56 contos – perdi mesmo a cabeça com esta), pude finalmente experimentar essa sensação de liberdade, com os jogos Wing Commander IV e V, e o Privateer. Foram noites frenéticas de orgasmos mentais consecutivos, por entre o vácuo espacial.

A tecnologia avançou e o meu Groo (este computador: qualquer dia ainda vos explico o porquê deste nome) parou no tempo. Não é que não tivesse capacidade financeira para o actualizar, ou para comprar algo melhor, mas acontece que, nessa altura, o meu emprego fornecia a intervalos regulares máquinas quase-topos-de-gama. Só utilizava este pc durante os fins de semana, em Viseu, pelo que não senti necessidade de maiores investimentos. Entretanto, esse emprego terminou, as capacidades financeiras baixaram drasticamente, e eis-nos chegados ao agora, eu e ele.

Apesar do gosto pela acção espacial, sempre tive uma queda especial por aventuras gráficas. Para quem não conhece, trata-se de jogos onde controlamos um personagem envolvido numa história que o força a descobrir certos segredos, decifrar enigmas, falar com personagens, viajar a determinados locais, realizar acções, recolher objectos, etc. Tudo isto para desvendar o grande mistério, ou completar o hercúleo objectivo, e terminar o jogo. As aventuras gráficas não primam pela acção (mas também não desgosto um Doom), são jogos que se jogam de forma pausada, com calma, e que normalmente obrigam a uma certa capacidade de raciocínio.

Penso que devo ter jogado todos os grandes clássicos do género: The secret of Monkey Island 1, 2, 3 e 4; Full Throttle; Day of the Tentacle, Simon the Sorcerer 1 e 2, Beneath a Steel Moon Sky, Under a Killing Moon, Indiana Jones and the Fate of Atlantis, The Legend of the Amazon Queen, Broken Sword 1 e 2, Gabriel Knight 1, 2 e 3, Grim Fandango, e muitos, muitos mais. Para os que conhecem estas coisas não terá passado despercebido que a maioria dos títulos mencionados foram lançados pela Lucas Arts, nos seus primórdios, quando ainda se dedicavam em pleno às aventuras gráficas (e eram os mestres do género): destaco particularmente o Grim Fandango, que é um dos mais recentes, e que considero (não apenas eu) uma das melhores aventuras gráficas jamais feitas. Se por acaso acha que gostaria de jogar um jogo deste tipo, aconselho que o adquira o quanto antes: é perfeito (Tim Schaeffer no seu melhor).

Visto esta máquina não ter capacidade para que eu possa jogar aquilo que se vai lançando para o mercado hoje em dia (estou a falar, por exemplo, de Syberia 1 e 2, que são jogos belíssimos), resolvi munir-me da pá e do capacete de mineiro, e escavar as profundezas da Internet, em busca dos velhinhos clássicos que nunca tive oportunidade de jogar. Hoje em dia, estes jogos são chamados de Abandonware, por se encontrarem fora do mercado, e existem centenas de sites que se dedicam a disponibilizarem-nos para todos os saudosistas. Não é legal, aviso desde já, pois os jogos continuam a ser propriedade dos seus criadores, e mesmo o acto de download de um jogo que já não esteja à venda continua a constituir um infringimento das leis de copyright, tanto quanto se o jogo em causa tivesse sido lançado este mês.

Existe no entanto uma certa complacência para com estes sites, uma vez que não se trata de pirataria no sentido real do termo: será mais uma forma das pessoas poderem reencontrar os jogos que fazem parte do seu imaginário infantil e juvenil. É uma homenagem. No meu caso trata-se também de uma forma de conseguir jogar o que quer que seja neste calhambeque, e dessa forma poder aliviar um pouco os sintomas de insanidade mental, e fingir que não tenho um blog para actualizar, he he.

Amanhã falo dos jogos que fui buscar, e dos sentimentos que me despertaram. Tentarei igualmente esta semana dar mais alguma arrumação ao blog, com a adição de links para novos blogs, e a criação de uma imagem para o cabeçalho da página.

Até lá, e como sempre, boa noite e bons sonhos.

quarta-feira, agosto 02, 2006

Cinefilias II (A casa do lago)


Uma das regras de ouro, quando falamos de histórias de amor no cinema, é que o final tem que ser trágico, a puxar para a lagrimazita lamecha, para que o filme seja bem sucedido. Tome-se o exemplo de “Titanic”, “E tudo o vento levou”, “Meu doce Novembro”, “Love Story”, “As palavras que nunca te direi”, “O diário da nossa paixão” ou “Em algum lugar do passado”, e mesmo que alguns destes filme sejam absolutamente insuportáveis, sem dúvida que foram e são acarinhados por uma vasta legião de fãs, maioritariamente femininos (ok ok, por acaso gostei do “Titanic” e do “Em algum lugar do passado”).

Apesar do dourado estatuto, é uma regra que pode ser contornada ou quebrada com algum sucesso – como todas as regras, evidentemente –, afinal, everybody loves an happy ending. Da mesma forma, a observância da regra não garante por si só a conquista de romance imortal, como podemos constatar ao observar “Cold Mountain”, que tem um final trágico, mas não criou grandes correntes de emoção por entre as plateias. É mais o fruto de um equilíbrio delicado, onde a história torna-se tão importante quanto o desempenho credível dos actores envolvidos. Não se trata, portanto, de uma fórmula matemática de sucesso.

Não vou revelar se “A casa do Lago”, com Keanu Reeves e Sandra Bullock, tem um final feliz, ou trágico, mas posso desde já adiantar que não adianta. Estranha escolha de palavras, hum. É um filme infeliz, com um argumento inconsistente, mal realizado, mal filmado, e com péssimos desempenhos, que engana o público que assistiu ao trailer. Sinto-me sumariamente defraudado quando vou ver um filme e concluo que o trailer é infinitamente melhor que o produto acabado: havia ali uma faísca de uma ideia interessante, para uma história que poderia envolver-me por completo, e foram criadas expectativas aos quais o filme, depois de visto, não conseguiu minimamente corresponder. Saio do cinema com a clara sensação de ter sido comido, e nem sequer me deram um beijo na boca, antes. Blargh.

A história gira à volta de uma casa assente sobre um lago, e dos seus dois habitantes, separados temporalmente por um período de dois anos: Keanu Reeves é o atormentado arquitecto que comprou a casa construída pelo pai, com o qual tem problemas emocionais pendentes, e que vive no ano de 2004; Sandra Bullock é a atormentada médica que sofre de problemas emocionais com o pai (falecido), e que vive no ano de 2006. Antes de avançar, permitam-me que coloque as mãos na cabeça, e atormentadamente me pergunte porque raios todos estes personagens têm de ser atormentados pelo passado, e emocionalmente frágeis, já que isso não fornece nenhum dado relevante para a história que se segue.

Por motivos nunca explicados pelo argumento, estes dois personagens conseguem de alguma forma quebrar a barreira temporal que os separa, e desenvolver uma relação através da colocação de cartas na caixa de correio da referida casa, que deve ser uma verdadeira máquina do tempo, pois permite que as missivas ultrapassem este hiato de dois anos e sejam recepcionadas pelos destinatários. Eu sei, é idiota e totalmente inverosímil, não é? Mas uma história inverosímil nunca foi impedimento para uma boa história, desde que convenientemente apresentada, e é aqui que esta transformou-se em idiota: pura e simplesmente não encaixa, mas poderia encaixar, se a abordagem tivesse sido mais cuidada.

Começa logo no incidente inicial: Keanu (não, não me lembro do nome dos personagens, já podem ver o esforço que estou a fazer para me esquecer do filme, heh) compra a casa e muda-se, em 2004. Quando abre a caixa do correio encontra uma carta, supostamente deixada pela anterior proprietária, a pedir para as cartas que receber naquele endereço serem encaminhadas para a sua nova morada. A carta é da autoria da Sandra, que só vai lá viver em 2006… entenderam? Ele recebe uma carta em 2004 de alguém que deixou de viver na casa, em 2006! Mas pronto, vamos aplicar um pouco de suspensão da credulidade em benefício da história: não nos esqueçamos que a caixa de correio é uma máquina do tempo. O problema é que ele resolve escrever uma resposta e, muito inteligentemente, coloca-a na caixa do correio (que só recebe correio, não serve para enviar, a não ser que os carteiros na América também tenham essa função), em vez de a mandar para o endereço que estava na carta da “anterior proprietária”. É este o incidente que dá origem a toda a troca de correspondência entre os protagonistas, e que serve de ignição para o relacionamento que vão viver, e logo aqui temos um enorme buraco no argumento, que o realizador apressa-se a despachar, possivelmente para que não o cheguemos a notar. Não consegue.

E que dizer da posterior troca de correspondência, que mais parece uma conversa de sala de chat? Uma frase que é imediatamente respondida por outra frase, isolada, que por sua vez é também respondida por outra frase, etc, etc… Porra, trata-se de cartas, e ninguém escreve apenas uma frase, e espera que a carta seguinte tenha também uma frase. Entendo que o realizador tenha querido dar alguma dinâmica ao relacionamento, mas acredito que foi uma má escolha: trata-se de um romance, e as histórias de amor pedem discursos bonitos e prolongados, com metáforas e poesias em prosa capazes de fazer suspirar a audiência. Aqui vemos apenas uma conversa em stacatto, de frases disparadas umas a seguir às outras, que não conseguem criar a envolvência necessária. Mais à frente, esse artifício é dispensado, e os personagens passam a falar directamente um com o outro, como se estivessem a conversar, em vez de corresponder-se. Incrível.

Por falar em envolvência, a química de Keanu e Sandra em “Speed” desapareceu por completo (faltam bombas e autocarros desgovernados, esse é que é o problema). Pura e simplesmente não conseguimos acreditar que esteja a nascer amor daquela troca de correspondência. A Sandra até se safa razoavelmente bem no papel de médica triste que vive fechadinha na sua concha emocional, mas o Keanu… ai ai, digamos que um boneco de gesso seria mais expressivo. O rapaz só consegue mostrar alguns dotes de representação em filmes com muita acção, onde esses dotes não são necessários. Numa história que depende, e muito, da capacidade e talento dos actores, mais parece um programa informático de simulação de voz, a tentar imitar emoções na entoação.

O argumento procura apresentar imediatamente as características do personagem, nas primeiras cenas, ao invés de tentar construir pessoas credíveis ao longo da história, e ainda que isto seja uma regra que decerto deve estar sublinhada no livro da escola de cinema onde o realizador estudou, falha por completo. É ridículo sermos informados que a Sandra é uma pessoa sensível apenas porque não conseguiu salvar um homem que foi atropelado, e está a chorar a um canto (alguma objectividade, hum? é uma médica, afinal); é estúpido que os problemas do Keanu com o pai autoritário sejam apresentados de forma peremptória, na cena em que este o encontra pela primeira vez, e é ignorado com um rude aceno de mão, se alguns minutos adiante vemos o pai e filho num jantar caseiro, e o pai está afável, afectivo até, interessado naquilo que o filho tem andado a fazer. Para quê apresentar características que deveriam definir as personagens, se depois as personagens vão contradizer-se?

Paralelamente, há momentos em que vemos claramente a mão do argumentista: deus ex machina. Isto sucede quando o argumento chega a um beco sem saída, e é preciso que aconteça algo, para avançar na história. Isto acontece, por exemplo, na cena em que o cão do Keanu sai disparado, e vai justamente parar junto de um personagem que, por acaso, namora com a Sandra (em 2004), e que até o convida para a festa de aniversário dela. Ou então na cena em que a Sandra, já no seu apartamento de 2006, decide sem mais nem menos afastar a carpete e começar a bater os pés, com raiva, no estrado de madeira, apenas para se aperceber de uma tábua solta, que oculta um esconderijo onde estão guardadas cartas do Keanu (era de supor que a qualidade de construção fosse um pouco melhor, ou que o problema da tábua fosse notado aquando da colocação do tapete). Não percebo o ar de surpresa na sua face: não foi ela que colocou as cartas ali?

Já agora, posso revelar que o grande dilema do filme é a distância que separa os apaixonados: no entanto, mais ou menos a meio, verificamos que afinal os seus destinos até se cruzaram, em 2004; dançaram agarradinhos e deram um chocho. Ora… se nessa altura o Keanu já sabia quem ela era, de tantas cartas trocadas, porque motivo não se preocupou em seduzi-la em 2004, ao invés de por correspondência, em 2006, já que isso iria garantir (inteligentemente) que em 2006 estariam juntos? Para quê tanto tormento e tanto drama?

E se o que dá origem à história é um buraco no argumento, então o final é uma cratera. Para além de não ter qualquer lógica – na lógica do filme –, é mais um exemplo de deus ex machina: o argumentista teve de intervir, mais uma vez, para levar o filme para um final satisfatório. Digamos, sem revelar nada de importante, que não apenas cria uma série de paradoxos temporais, que o filme despreocupadamente ignora, mas também subverte a lei das cartas na caixa do correio (deixa de ser necessária, não me perguntem porquê).

De permeio temos algumas informações irrelevantes sobre arquitectura que não acrescentam nada, e o realizador (que creio ser espanhol), ainda aproveitou para colocar os personagens a falar bem de Barcelona (uma tentativa publicitária provinciana), e para recrutar uma actriz que deve ser espanhola, a julgar pelo sotaque, e que soa soberanamente antinatural quando debita os seus diálogos.

O filme procura apresentar-se em tons sombrios, de cores esmaecidas, o que provoca, por sua vez, que algumas cenas estejam pessimamente iluminadas, e que outras pareçam ter saído directamente de um vídeo amador, com tons esverdeados e imagem granulada. A estocada final será a cara do Keanu Reeves, que parece ter inchado desde o “Matrix”: ou o homem descuidou-se na balança, ou andou a levar injecções de colagénio nas bochechas. A Sandra está bastante bonita, diga-se.

Resumindo: vejam o trailer gratuitamente, e sonhem com a bela história de amor que é sugerida. O filme que vão realizar na imaginação será sempre superior a esta porcaria implausível, que nem para DVD merecia ir. E tenho dito.

terça-feira, agosto 01, 2006

Welcome to your life


Sempre associei o fim de férias à taciturnidade do Outono, condicionado por anos de inícios de um novo período escolar, quando andava no ensino obrigatório. É um sentimento doce, porque se trata de uma despedida de dias leves ainda frescos na memória, e simultaneamente amargo, por se tratar de despedida, claro está. Tudo o que começa tem o seu fim, mas um final nunca é um descerrar completo da cortina, trata-se mais de uma reorganização dos cenários e de outras falas para decorar, em arranque de nova peça. Tudo o que começa, nesta vida, fá-lo sobre as cinzas de algo que terminou.

Gosto de dizer que sou uma pessoa de Verão, mas o Outono também me proporciona um sentimento geral indefinido, perpassado por uma melancolia que decerto já habita em mim, e que apenas encontra eco na imagem de encerramento sazonal. Um sentimento de perda, o devaneio de quem está a perder mas também prestes a ganhar algo, em troca. E depois temos a suave reflexão, a calma meditativa de dias dourados com folhas que tombam devagar, da cor da terra queimada. E o cheiro das castanhas assadas. Poucas coisas me fazem sentir tão docemente triste como o odor das castanhas assadas, trazido pelo vento que principia a arrepiar, em dias de sol que já não aquece.

É assim. Quando começo a perder o Verão, ocorre-me sempre tudo o que perdi, e o que já está perdido, pois que nunca o tive. Fico calado por dentro, e só me apetece recolher a uma cadeira, com um copo de cacau quente, a observar o infinito através da paisagem do lado de lá da janela.

Terminaram as férias, e o Verão ainda mal começou, mas sinto que já o perdi. Passou, e só me resta olhar para as árvores e esperar que a primeira folha caia, gentilmente. Amanhã começa a rotina, a luta diária pela procura de um sentido que a vida das 8 às 5 não tem. “Bem-vindo à tua vida”, é o que o escritório me vai dizer quando acender as luzes e ligar o computador. Depois serão muitos e-mails para responder, telefonemas para fazer, relatórios para elaborar, e reuniões para comparecer.

Trata-se de um choque de água fria, este entrar em contacto com uma realidade que esqueci demasiado facilmente, mas pelo menos posso dizer que os primeiros salpicos já me prepararam para o mergulho, na forma de uma carta do I.R.S., a solicitar comparência na repartição de finanças mais próxima, para fazer prova das declarações dos dois anos anteriores. E dizer que há dois dias a minha maior fonte de stress era saber se comia a bola de Berlim agora, ou mais daqui a pouco.

Bem-vindo à tua vida? Pffffffff. Se a vida me matar, enterrem-me no areal, por favor.

sexta-feira, julho 21, 2006

Carpe Diem


Até ao próximo dia 29 estarei a viver a vida em modo offline, num belo repouso algarvio. É a primeira vez que passo férias no Algarve, e estou a modos que ansioso por dias de areia escaldante e águas tépidas. Daqui a uma hora farei como os pássaros, que sempre foram mais espertos que qualquer um de nós: rumarei a Sul.

A todos os que por aqui passam (e porque não? a todos os que nunca por aqui passaram, igualmente), desejo uma boa semana, quer estejam a viver os dias calmos, ou no meio das horas asfixiantes de produtividade.

Voltarei renovado, e de escrita renovada. Levo comigo a Sr.ª Patrícia Highsmith e o Sr. Truman Capote, para me fazerem companhia, mas posso também adiantar que terei outra companhia mais palpável e infinitamente mais agradável, pelo que prevejo umas boas férias.

Fiquem bem, e continuem a sonhar. Até logo.

Leituras VII

"- Costuma ler o Record?

- Olho para ele mas não o leio. Os jornais não dizem verdades, só contam factos. Quer discutir essa questão?

- Fica para outra vez - respondeu Ellery, sorrindo. - Mas tenho de confessar que o admiro, Toyfell. Tem aguentado muito bem golpes que teriam deitado abaixo um homem mais fraco. Em pouco tempo, morrem-lhe dois patrões e um amigo, e você continua aqui... a filosofar.

- Conhece-te a ti mesmo - disse Harry Toyfell, ajoelhando novamente [no jardim]. - A alma do homem é imortal e imperecível.

- Você é religioso?

- Foi um pagão que disse isto. Leia Platão. Mas as pessoas já não lêem Platão. Só os jornais. A minha religião é adorar a Deus em cada semente. Na igreja não há nada além de flores cortadas."

Ellery Queen, Cara ou Coroa, Biblioteca Visão Mestres Policiais, Linda a Velha, 2000, páginas 71 e 72.

Lugares de sonho II


(continuando)

Trata-se, portanto, de uma colisão entre a realidade vivida e imaginada com a realidade existente. Digo vivida e imaginada porque nunca os nossos lugares de sonho foram tão perfeitos na altura em que os frequentámos, como quando agora os imaginamos; existe sempre uma cortina de idílio que cobre o véu das recordações, e esconde as arestas mal entalhadas da paisagem; é assim que sei que o recanto debaixo da ponte até era um pouco desconfortável, com todos aqueles mosquitos e moscardos em busca de carne quentinha para aferroarem as suas presas. E a pedra onde estendia a toalha também ficava a dever um pouco ao conforto de um espaço de terra macia coberta de relva.

Mas era o meu lugar de sonho, na medida em que passei lá muitas boas tardes, que agora procuro resgatar da memória.

Assim, como o personagem do romance de Nick Hornby que ansiava por um emprego numa moldura temporal específica, também acredito que há locais que apenas podemos encontrar num determinado tempo: são os nossos lugares de sonho. Já não existem na esfera material da realidade presente, porque dificilmente conseguiremos reunir todas as condições para que os mesmos sentimentos – recordações – sejam sentidos espontaneamente.

O que não deixa de me provocar certa tristeza, pois relembrar momentos felizes do passado significa assumir que nunca mais poderemos existir naquela série de circunstâncias, e estamos voluntariamente a dizer a nós mesmos que aquela felicidade não volta mais. E não volta mesmo. São lugares de sonho porque permanecem apenas nos sonhos, e só os evocamos num determinado tempo, que, como todo o tempo do mundo, correu, correu, gastou-se e passou, sem olhar para trás.

Quem conseguirá ficar totalmente feliz, depois de ter vivido momentos felizes, mesmo que agora esteja a viver outros momentos felizes? A lembrança da felicidade passada não trará apenas um certo amargo aos dias presentes? Poderemos verdadeiramente congratularmo-nos por uma infância alegre, despreocupada, se o próprio facto de a estarmos a recordar significa que – melancolicamente falando – nunca mais os dias serão assim tão inconsequentes? Porque será que fico triste quando me lembro de quão pouco triste era?

Arquivamos essas memórias como livros na prateleira, que servem como reconforto de uma vida plena mas também como monumento à perenidade das coisas: tudo acaba, tudo chega ao seu termo, nada volta ao que era. Tentar resgatar isso apenas introduz um elemento de anormalidade na vida, porque não podemos regredir no tempo, e já não somos as mesmas pessoas que viveram aqueles momentos. Crescemos, evoluímos, e como cobras que despem a pele que já não lhes serve, como uma meia velha, também nós temos que descartar certas vivências, e atirá-las para um poço de lembranças.

Estes três dias que passei em Viseu serão, no futuro, um lugar de sonho: Viseu, entre 14 e 16 de Julho de 2006. Foi um tempo e um local onde me entreguei por completo à despreocupada felicidade, mesmo tendo alguns maus augúrios a ensombrarem-me o céu sem nuvens. Foram dias de jantar na esplanada de um restaurante na zona antiga da Sé, ao som de um concerto ao vivo dos Fingertips a vinte metros das mesas, depois de uma tarde quente dividida entre o repouso na relva fofa e o mergulhar na água fresca. Foram fins de tarde carinhosos com alguém que muito amo na varanda de casa, por entre goles de cerveja e festas ao gato que ofereci à minha sobrinha, ao som da mais acertada escolha de músicas da RFM que já presenciei.

E foram também os dias da desilusão do encontro com o monstro de cimento que o rio debaixo da ponte se tornou, mas também dias mágicos de descoberta da ponte romana, mais adiante, que conduz a outra enseada verdejante, igualmente bela.

São assim os meus lugares de sonho. Existem apenas geográfica e temporalmente precisos em momentos que não se repetem, mas que melhoram com o passar dos anos. Pertencem ao mapa e ao calendário, o que os torna ainda mais distantes daquilo que sou agora. Posso esquecê-los, eventualmente, mas não são esquecidos. Evoluem, como eu.

Este post também evoluiu para direcções diferentes daquelas que eu imaginava levá-lo. Queria que tivesse saído um pouco mais poético, porque era esse o meu estado de espírito quando me decidi a escrevê-lo, e espero bem que me sirva de lição: nunca adiar a escrita quando ela quer ser escrita. Serve no entanto de aviso à navegação, pois amanhã por esta hora estarei a rumar para um lugar de sonho (Vila Real de Santo António, entre 22 e 28 de Julho de 2006), o que significa que privarei os meus três ou quatro leitores e leitoras do aborrecimento de lerem monólogos fastidiosos e intermináveis durante alguns breves dias :).

Até lá, boa noite, e bons sonhos.

segunda-feira, julho 17, 2006

Lugares de sonho I



No livro “Alta Fidelidade” de Nick Hornby, a dada altura vemos o personagem principal a tentar elaborar uma lista com os seus cinco empregos de sonho. O primeiro é, se a memória não me falha, ser jornalista da Rolling Stone entre 1972 e 1977 (os anos podem ser diferentes, não me apetece ir vasculhar os livros acumulados para conferir).

Cheguei hoje de uma viagem de três dias com a namorada (chuac!), da mui nobre e bela cidade de Viseu, pátria dos meus segundos passos da infância, que costumo visitar com alguma frequência, pois toda a família é de lá, e penso que poderemos aplicar um raciocínio similar aos nossos lugares de sonho.

Que todos temos, julgo. – Seja uma praia onde se passaram férias fantásticas, seja um local que se partilhou com alguém especial, seja o restaurante onde fomos pedidos (as) em casamento, ou aldeia onde crescemos, e até mesmo o chaparro debaixo do qual perdemos a virgindade. – Ou que, pelo menos tenho eu, e como tal os identifico. Embora não tenha perdido a virgindade debaixo de um chaparro (nem em cima, já agora).

O mal dos locais de sonho é a erosão do tempo. Não estou a falar da memória que eventualmente se desvanece, ou encapsula as recordações distantes numa forma de idílio celestial. Refiro-me ao desgaste físico, ou mesmo à destruição por mão humana. É assim que a praia que foi palco de um romance inesquecível, marcada por horas de namoro debaixo do pôr do sol, pode apresentar-se-nos, viajantes sedentos em busca do resgate de memórias saudosas, coberta de gaivotas histéricas, fruto da instalação recente de canos fétidos que desembocam na linha de água. E é uma desilusão.

Já passei por esse sentimento de perda demasiadas vezes; havia uma passagem na estrada velha que ligava Viseu a Vila Nova de Paiva, logo após uma curva ampla que concluía uma recta tão côncava como as dobras na virilha de uma mulher, que sempre considerei mágica: as árvores em volta da estrada quase que pareciam estar a dobrar-se, a quererem tocar-se através do espaço vazio, e formavam um longo túnel de verde frondoso que criava padrões de luz surreais nos dias solarengos. Foi com um constante pasmo de beleza, reverente respeito, que passei ali vezes sem conta, e foi com uma dor física no peito que verifiquei, há alguns anos, que um incêndio elevado a catástrofe reduzira aquele túnel, que nos abraçava com folhas, a uns poucos cotos enegrecidos nas margens do alcatrão. Ainda me dói quando lá passo, felizmente que construíram uma estrada alternativa.

Nessa mesma estrada (deverão já ter percebido que a própria estrada é para mim um local de sonho), quilómetros antes, há uma passagem que cruza com o rio Vouga, em forma de ponte em arco. A ponte eleva-se a uma altura respeitável sobre um desfiladeiro fundo, onde o rio cava, lá em baixo, o seu infindável caminho. Esse ponto do rio, há cerca de vinte, trinta anos, era bastante concorrido, e recordo-me de tardes alegres nas enseadas que então existiam, passadas com a família. Ainda sinto o cheiro do churrasco preparado ao ar livre, da fome de uma manhã passada a chapinhar atrás dos peixes.

Vieram entretanto as vias rápidas para o mar, as agências de viagens com pacotes turísticos pagos a prestações, a moda de ir para fora lá fora, e o local foi sendo progressivamente abandonado, deixado ao crescimento desenfreado das silvas e giestas. Só uns poucos resistentes voltavam ano após ano, e acreditem, havia bons motivos para isso: mesmo debaixo da ponte formava-se um pequeno açude convertido em piscina natural, que terminava numa escorregadia cachoeira que, por sua vez, era ladeada por enormes pedras que pareciam estar sempre em equilíbrio precário, e onde meia dúzia de banhistas estendiam as toalhas e se refastelavam como lagartos ao sol.

Admirava a beleza simples do local, a harmonia entre a cascata construída há décadas por mãos humanas e a beleza da natureza envolvente, que se tinha inteligentemente adaptado a uma arquitectura antiga feita de pedras empilhadas unidas com cimento grosso. Todas as casas das aldeias parecem habitar a paisagem como se tivessem sido feitas pela natureza, e aquela cachoeira dava a sensação de ter sido feita à custa do martelar constante da água, não destoava mais do que os rochedos gigantes. Foi sempre um local de sonho. Até lhe perdoei quando a minha irmã escorregou nas algas – e poderia ter sido muito mais grave – e ficou com um dedo virado ao contrário na mão que usou para se apoiar.

Frequentador assíduo do espaço, verifiquei como, de ano para ano, a minha toalha ia ficando mais sozinha na pedra gigante. Não me importei, e nem me preocupei se o motivo da falta de visitantes estaria de alguma forma relacionado com a qualidade da água. “Óptimo, mais sossego tenho”. E nunca deixei de voltar ao local, com a família, nos dias sufocantes do Verão.

Até há um par de anos, quando algumas mentes brilhantes – diria mesmo iluminadas – consideraram que seria uma excelente ideia encher o local de cimento em pontos estratégicos, desviar o curso da água lateralmente, promover a cascata a barragem à custa de quilos de massa, e, de uma forma geral, deformar completamente a paisagem, que passou de harmonia entre rochas, água e verde, a profusão de cinzento árido e água estagnada.

Porra.
(amanhã continuo)

terça-feira, julho 11, 2006

Leituras VI


"Apontei para a secretária vazia de Miss Fromsett e a loura acenou com a cabeça e carregou numa cavilha. Abriu-se uma porta e Miss Fromsett surgiu com o seu ar altivo, indo sentar-se à secretária, fitando-me com uma expressão fria e interrogativa.

- Faça favor de dizer, Mr. Marlowe. Mr. Kingsley ainda não chegou.

- Estive agora mesmo com ele. Onde podemos conversar os dois?

- Conversar?

- Queria mostrar-lhe uma coisa.

- Ah, sim? - Olhou desconfiada para mim.

Talvez muitos outros homens tivessem tentado atraí-la com coisas para lhe mostrar. Noutra altura qualquer também eu próprio era capaz de tentar a minha sorte."

Raymond Chandler, A Dama do Lago, Biblioteca Visão Mestres Policiais, Linda-a-Velha, 2001, página 100.

Palavras caras


Estive este Domingo na Feira do Livro, no Parque Urbano de Ermesinde, por um feliz acaso. Este tipo de eventos é o meu Toys ’R’ Us dos dias adultos, mas não pelos descontos nos livros novos; esses passam-me ao lado, é mesmo pelos livros em segunda mão. Confesso que me perco quando começo a vaguear pelas mesas de livros amarelados, com capas adoravelmente kitsch, e um vago odor a mofo. Metamorfoseio-me em mulher fanática por compras, na época de saldos. Acredito, inclusive, que os instintos femininos assomem à superfície, pois recuso-me a comprar o que quer que seja antes de ter manuseado tudo o que há para ver (“comprava já isto, mas e se na próxima loja estiver algo que me agrade ainda mais?”)

Duas horas depois estava com um saco em cada mão, razoavelmente cheios, restos de gelado no lábio, e um ar satisfeito de quem acabou de adquirir:

~ Shōgun, James Clavell, Vol. I, Publicações Europa-América, 541 páginas.
~ Shōgun, James Clavell, Vol. II, Publicações Europa-América, 543 páginas.
~ Cara ou Coroa, Ellery Queen, Biblioteca Visão Mestres Policiais, 256 páginas.
~ A Clínica do Terror, Mary Higgins Clark, Biblioteca Visão Mestres Policiais, 272 páginas.
~ A Dama do Lago, Raymond Chandler, Biblioteca Visão Mestres Policiais, 206 páginas.
~ A Sangue Frio, Truman Capote, Biblioteca Visão Mestres Policiais, 320 páginas.

Total: 6 livros, 2138 páginas, 10 euros (na verdade os dois primeiros foram oferecidos - obrigado amor -, mas o preço total está correcto).

À partida, não seria necessário escrever mais nada, uma vez que se a (o) cara (o) leitora (or) – é bom variar hábitos de escrita para o feminino, não acham? – tem paciência para me ler, não lhe serão alheios os preços mercenários da literatura, hoje em dia. Mas vamos penetrar só mais um pouquinho no âmago da questão (adicionei esta expressão fálica para os leitores não pensarem que beneficio apenas as mulheres).

O livro “A Sangue Frio”, de Truman Capote, está actualmente a ser comercializado a um custo de 17,96 € (dados obtidos na Fnac, Edições D. Quixote), e também aqui quaisquer óbvias conclusões tornam-se redundantes. É correcto afirmar que a edição na Fnac tem uma capa bonita, em alusão ao filme recentemente estreado, e fará melhor figura na estante lá de casa do que a edição de capa dura da Visão, que até diz “Colecção Lipton”, com o respectivo logótipo da bebida na contracapa. Mas isto é totalmente irrelevante para quem compra livros para ler (talvez esteja a aplicar o meu molde a todos os bons leitores, mas eu – sei bem – não compro livros para expor na prateleira. Não o faria, sequer, se tivesse uma prateleira).

Por outro lado, quem visita livrarias com alguma frequência, e vai para além das estantes frontais dos tops do momento, sabe decerto que o preço do livro de Truman Capote não estava tão inflacionado, antes da estreia do filme. Não há qualquer censura implícita nesta jogada da editora, afinal, tudo é negócio, e se se podem colocar livros tecnicamente off the immediate market a render mais umas moedas, quais prostitutas desdentadas momentaneamente elevadas à condição de novidade da semana, hey hey hey, more power to you, mighty publisher.

Mas não resisto a dar uma rapidinha na novidade da semana: só mesmo na mente de um bando de mentecaptos gananciosos que ouviram demasiadas teorias de marketing é que um livro com 40 anos de existência poderia ser trazido para a ribalta de preços de primeira edição, depois do relativo sucesso comercial de um filme baseado nesse livro de 40 anos, sendo que a punch line, nesta triste anedota, é que o filme deve a sua existência justamente ao sucesso do livro em questão. Confusa (o)? Já estou a ver os masterminds da editora a salivarem de antecipação perante as notícias da box office, os olhinhos cheios de cifrões, como os desenhos animados de há 40 anos, a imaginarem as dúzias de pacóvios que vão generosamente abrir as carteiras para pagar preços mais elevados por um livro, só porque alguém decidiu, um dia, adaptar a história ao cinema. E na maior parte das vezes nem se dão ao trabalho de disfarçar: é imprimir umas sobrecapas com as trombas do actor que faz o papel do personagem principal, embrulhar nas edições encalhadas em centenas de livrarias, e já está; saldos ao contrário, aproveite antes que façam a sequela. Outras vezes não é preciso encapotar o abuso; basta comparar os preços do Código da Vinci, que cheguei a encontrar a 13 ou 14 euros, depois de esgotada a euforia inicial, e agora já se alavancou a uns respeitáveis 16,16 €, com o lançamento do filme.

Os filmes baseados em livros incentivam a leitura das obras originais? Claro que sim. Os abutres também voam em círculos onde sentem carne fresca, mas isso não é motivo para tentar sacar mais alguns tostões das poucas pessoas cujos hábitos de lazer sustentam essas mesmas editoras. Queixam-se que actualmente se lê pouco? Da minha parte, considero que a invenção das sanitas de assento fez mais pela criação e incentivo de hábitos de leitura do que estas empresas que só sabem contar moedas.

E já sei o que fazer de agora em diante: estar bem atento às notícias sobre cinema, para decidir que livros comprar, antes que alguém decida prostituí-los.

sábado, julho 08, 2006

Cinefilias I (Poseidon)



Na década de 70 o cinema americano era fértil em filmes catástrofe: “A torre do inferno” (incêndio), “Aeroporto” (desastre aéreo), “Terramoto” (abelhas assassinas, obviamente), e muitos outros, tendo “A Aventura do Poseidon” alcançado um certo degrau de sucesso comercial.

Essa fase conheceu o seu inevitável fim, e eis que quase 40 anos depois voltamos à fase do revivalismo, onde parece que os argumentistas ficaram todos sem ideias de jeito, pelo que se entretêm a desempoeirar velhos hits do passado, com uma roupagem ligeiramente modificada, e a apresentá-los com uma panóplia alucinante de efeitos especiais. Também poderia dizer que esta é a fase dos filmes visuais, ou bombásticos, onde qualquer personagem credível, diálogos inteligentes e histórias coerentes, são substituídos por efeitos especiais caríssimos, de arregalar a vista, que visam exclusivamente colmatar todas as falhas referidas (a outra táctica é contratar mulheres com seios enormes – nunca falha).

Felizmente que “Poseidon” não é nada disto (está bem, eu confesso: é). Sim, tem efeitos especiais de cortar a respiração. Sim, os personagens são tão superficiais e caricaturizados quanto os dos livros da Margarida Rebelo Pinto. E sim, a história, apesar de tentar manter alguma pouca coerência, é simplista o quanto baste (pensaram que eu ia escrever q.b. não pensaram, seus hereges?). O filme sofre de todos os defeitos que normalmente caracterizam o consumo de massas preparado especialmente para acéfalos comedores de pipocas, mas, pelo menos, assume totalmente essa vocação comercial, atira-nos para uma montanha russa de emoções e perigos, e manda-nos para fora da sala com a refrescante sensação de que fomos total e obliviamente entretenizados.

Muito rapidamente, a premissa do argumento: Barco gigante de recreio, na noite de passagem do ano novo, é atingido por onda gigante, e fica virado ao contrário. Alguns passageiros recusam-se a esperar pela salvação (uma atitude bastante sensata, pois a cavalaria, em Hollywood, chega sempre tarde demais) e unem esforços para escapar pela única saída possível: a abertura das hélices.

É um pouco forçado, eu sei, mas neste tipo de filmes temos que nos sentar com a “suspensão da credulidade” ligada no nível máximo. E mesmo assim, há algumas passagens que realmente são demasiado inverosímeis (a sequência dos parafusos na grade, por exemplo), mas enfim, tudo é sacrificado em nome de uma boa diversão.

Wolfgang Petersen parece estar a especializar-se em: a) filmes catástrofe (ver “The Perfect Storm” e “Das Boot”) e b) filmes de ambiente náutico (ver “The Perfect Storm” e “Das Boot”), e consegue dirigir a história com segurança e mestria, optando por um ritmo avassaladoramente rápido, intercalado nos momentos certos por pequenas pausas na acção que permitem que nos recostemos para trás, e acalmemos os nervos. E acreditem que nervos é o que o espectador (bem como as personagens) mais vai sentir, seja pelas situações de insuportável aflição em que os personagens se vêem metidos, seja pelo facto de estarem sempre, sempre, sempre, a sair da frigideira para o fogo, em momentos de tensão cumulativamente mais stressantes.

Apreciei algumas opções do argumento que, ao evitar a banal sucessão de clichés de filmes do género, consegue surpreender (ver a cena do Valentin no elevador, e do afogamento de um personagem que em qualquer outro filme, seria intocável). Também gostei de notar que o realizador não se coibiu de nos mostrar todas as pouco higiénicas cenas macabras que um desastre destas dimensões certamente teria, se tivesse realmente acontecido (ao contrário do avião despenhado de Spielberg, no “Guerra dos Mundos”, que concerteza não tinha um único passageiro a bordo).

E depois é o festim visual: começa com a cena inicial, onde apreciamos as tremendas dimensões do navio, num plano de travelling só possível através de efeitos digitais, de belíssimo efeito. O momento do embate da onda também está muito bem concebido, e os cenários do navio, seja antes do desastre (um luxo grandioso), seja depois (um caos grandioso), são de uma perfeição difícil de igualar (reparem no hall principal do navio, antes e depois). Tecnicamente, “Poseidon” está impecável, e nota-se o extremo cuidado posto no projecto, o que só por si serve como garantia da (alguma) qualidade do filme, mesmo sendo pipoqueiro ao extremo. Os actores servem o propósito do argumento, e não se esforçam muito a aprofundar subtilezas: aqui, é sempre a correr, e para a frente, numa cadeia de dificuldades sucessivas, em crescendo. Notam-se aqui e ali alguns clichés, rapidamente engolidos quando o filme começa a acelerar.

Resumindo: para quem procura o significado da vida enquanto entidade intangível da sublimação do real no imaginário, o filme é mais do que apropriado, uma vez que quem tem esse tipo de problemas tende a encontrar respostas no que quer que seja que se lhes apresenta à frente, através de enfatuados processos mentais.

Agora se o que desejam é desligar o cérebro durante cerca de duas horas, mais vale irem ver um filme expressionista alemão, ou impressionista francês, para dormirem um pouco. Neste filme, ninguém dorme, todos nadam.
E correm.

Quer uma segunda opinião?

terça-feira, julho 04, 2006

O sobrevivente


15 minutos atrás. Estou a chegar a casa. Na rua paralela à da minha humilde residência sou bloqueado pelo camião do lixo, e municio-me de paciência, pois já sei, de encontros anteriores, que ainda vou apanhar mais três contentores carregados de dejectos citadinos, antes de chegar ao cruzamento onde posso virar, e afastar-me do mamarracho de ferro. Não tenho hipótese de fuga, a rua é estreita, de paralelos, revestida de carros estacionados de ambos os lados. Mais vale acender um cigarro, e esperar.

Admiro a profissão dos homens do lixo; têm um trabalho duro, odorífero, e deve dificultar sobremaneira os engates, depois de lhes perguntarem o que fazem. São úteis, e condenados à incompreensão social.

Um dos contentores está mais cheio do que o normal, provavelmente alguma empresa que despejou o lixo acumulado do fim-de-semana. Observo a azáfama dos homens, entre o distraído e o atento à música na rádio, e reparo que um deles pára por momentos o que está a fazer, para observar o objecto que tem nas mãos: é um livro. Parece antigo, ainda do tempo em que as pessoas mandavam encadernar os livros com capas castanhas e letras a dourado, para aumentar a durabilidade, e desenhar uniformidade nas estantes da sala. Também tem um volume de páginas respeitável. Imagino que tipo de idiota achou que seria boa ideia atirar com um livro para o lixo, e pergunto-me se não haverá mais amontoados de palavras, presas dentro daqueles sacos azuis, inchados. É um pouco triste.

Felizmente, aquele livro em particular recusa-se a resvalar para o esquecimento; não quer morrer uma morte pouco digna por entre os detritos. O homem do lixo, trajado com roupas fluorescentes, folheia por breves segundos as suas páginas, o papel amarelo a deslizar por entre as luvas grossas de cabedal, e encaixa o sobrevivente numa das protuberâncias de metal do camião. Não sei qual o título na capa, nem o que terá ele lido que despertou a sua atenção, mas sei que foram palavras poderosas, palavras que não estavam destinadas a perder-se. Cada vez que disser, de hoje em diante, que não escolhemos os livros, eles é que nos escolhem a nós, vou recordar-me do livro condenado, que se salvou nos últimos instantes. O sobrevivente.

Aquele livro nasceu de um sonho que alguém um dia teve, e dedicou dias e noites a materializar em palavras o que até então era apenas traduzível em imagens, sons, e recordações; foi lido por alguém que decidiu que o conteúdo era bom o suficiente para levar outros a disponibilizarem-se a pagar uma determinada quantia, para conhecer os sonhos do autor; já esteve disposto nos escapatares de uma livraria, a cheirar a novo, com uma capa colorida, e atraiu a atenção dos passantes; foi lido, possivelmente relido, adorado ou odiado, e depois arquivado numa estante, ou num canto de uma secretária; talvez anos mais tarde tenha sido transferido para um sótão, onde acumulou pó durante anos e anos; pode ter sido herdado por algum energúmeno, que não se deu ao trabalho de ler o que continha, e decidiu matá-lo, atirá-lo para o limbo dos livros que já ninguém lê, nunca ninguém lerá. Aquele livro estava destinado a nunca mais ser lido, e compreendam que para um amante de livros, como sou, estas são palavras terríveis, com uma fatalidade de dimensões trágicas. Estou contente por ter sobrevivido, por ter encontrado o caminho de casa.

As palavras nunca morrem.

sexta-feira, junho 30, 2006

Leituras V

"Pode abordar o acto de escrever com nervosismo, excitação, esperança ou mesmo desespero - com a sensação de que nunca poderá transpor para a página o que lhe vai na cabeça e no coração. Pode aproximar-se dele com os punhos fechados e os olhos semicerrados, pronto a partir tudo e a registar os nomes. Pode aproximar-se dele porque quer que uma rapariga se case consigo ou porque quer mudar o mundo. Aborde-o de qualquer maneira excepto irreflectidamente. Permita-me que o diga outra vez: não se aproxime irreflectidamente da página em branco.

Não lhe estou a pedir que o faça de maneira reverente ou incondicional; não lhe estou a pedir que seja politicamente correcto ou que ponha de lado o sentido de humor (Deus queira que o tenha). Não se trata de um concurso de popularidade nem das Olimpíadas da moral, e não é a igreja. Mas trata-se do acto de escrever, gaita, e não de lavar o carro ou de pintar os olhos. Se consegue levá-lo a sério, podemos conversar. Se não for capaz ou não estiver disposto, é altura de fechar o livro e de fazer qualquer outra coisa.

Lavar o carro, talvez."

Stephen King, Escrever, Temas e Debates Editora, Lisboa, 2001, página 96.

quarta-feira, junho 28, 2006

O porquê das coisas: Rosto

Sandman, ilustração de Gene Colan (cores invertidas)

“Beyond, outside my Dreamworld there is infinite dust, infinite dark. And the Dreamworld is infinite although it is bounded on every side. The way to the center is a slow spiral. One passes the houses of mystery and secrets... old way stations on the frontiers of nightmare. From there one charts a course nightward until one reaches the Gates of Horn and Ivory. I carved them myself, when the world was younger, and order was needed. I hasten to the Gates.

The dreams that pass through the gates of Ivory are lies, figments and deceptions. The other admits the truth. No one guards the horned gate anymore. I remember the way of old. Once through it I can see my castle. Through it I will be able to see... my home...”

Neil Gaiman, Sandman, Vol. I Preludes & Nocturnes - Imperfect Hosts

O Sandman sempre fez parte do folclore, desde tempos imemoriais, presente em inúmeros contos infantis contados de forma a iludir as crianças para irem para a cama. Tradicionalmente, o Sandman espalha um pouco de areia nos olhos das crianças, para que estas adormeçam e tenham sonhos felizes; as remelas que todos temos, pela manhã, são os resquícios dessa areia mágica que abriu as portas do sonho.

É uma ideia bela. Demasiado bela para não ser aproveitada, e realmente foi. Tanto em livros, como em bandas desenhadas, sempre existiram histórias do Sandman. Na Detective Comics, o Sandman era um herói de ideais ingénuos próprios da década de 40, que combatia o crime com uma arma de gás que adormecia os malfeitores; em 1970 o personagem foi alvo de uma revitalização, mais adequada aos tempos de então, e passou a ser um super herói de fato justo amarelo e vermelho, que protegia as crianças quando estas se aventuravam nos reinos do pesadelo.


Em 1988, um jovem autor de nome Neil Gaiman, que até à data havia apenas escrito duas novelas gráficas (nome popularmente dado a histórias independentes em banda desenhada que se afastam dos cânones normais de publicação, e que primam por uma maior qualidade gráfica), propôs à DC Comics a publicação de uma revista mensal, com o Sandman como personagem principal. A ideia foi aceite, mas ninguém sabia bem o que iria sair dali.

O “Sandman” teve uma publicação mensal ininterrupta de 75 revistas, desde 1988 a 1996, e pelo caminho tornou-se um verdadeiro fenómeno de massas, tendo revolucionado por completo o género. Até à data, as revistas de banda desenhada eram consideradas como entretenimento superficial para crianças e adolescentes, estreladas por heróis de corpo quadrado em fatos de spandex, e heroínas de seios voluptuosos e curvas perfeitas, em trajes minúsculos.

“ROSE: Say, whoever you are. Do you know what Freud said about dreams of flying? It means you're really dreaming about having sex.

MORPHEUS: Indeed? Tell me, then, what does it mean when you dream about having sex?”

Neil Gaiman, Sandman, Vol. II The Dolls House - Into The Night

O “Sandman” destacou-se justamente por ser uma das poucas revistas que existia totalmente fora desse universo, e apresentou uma série de histórias destinadas a um público maduro, abordando assuntos adultos e controversos, prenhe de uma qualidade de escrita considerada literária, e assumindo com justiça um lugar de destaque no pódio das grandes obras literárias do século XX. Os prémios que recebeu durante a sua publicação foram demasiados para serem enumerados, mas há pelo menos um que posso indicar, e que demonstra cabalmente a qualidade da obra: A história “A Midsummer’s Night Dream”, onde William Shakespeare apresenta a peça com o mesmo nome, pela primeira vez, ao Sandman e a uma delegação das Fadas, ganhou o prémio World Fantasy Award, em 1991, para Best Short Fiction, e o ultraje foi tamanho que no ano seguinte as regras do concurso foram alteradas, para que nunca mais uma história em banda desenhada pudesse concorrer contra histórias em prosa.

O personagem principal é o Sandman, ou Dream, senhor do reino dos sonhos (Lord of The Dreaming), que não mais é do que uma personificação antropomórfica imortal dos sonhos. A sua família é composta de mais seis personagens, chamados “The Endless”, e cada um deles assume também uma representação de algum aspecto da realidade (Delirium, Despair, Destruction, Desire, Destiny e Death), e é conhecido por vários nomes (Morpheus, Oneiros, Lord Shaper, Dream).

“Never a possession, always the possessor, with skin as pale as smoke, and eyes tawny and sharp as yellow wine: Desire is everything you have ever wanted. Whoever you are. Whatever you are.

Everything.”


Neil Gaiman, Sandman, Vol. IV Season of Mists – Episode 0

Não é uma personagem simpática, a princípio, este Sandman. No primeiro volume de histórias (Preludes & Nocturnes), é aprisionado, e forçado a passar 70 anos dentro de uma bolha de vidro, enquanto no mundo grassa a “Doença do Sono”. Quando se liberta, há algo que mudou em si, apesar dele não se aperceber, e é nas histórias seguintes que vamos ver o que o Sandman era antes do seu cativeiro, e no que se tornou depois. Eventualmente, essa série de mudanças levará a um fim trágico, mas isso é outra história.

Entrei em contacto com estas revistas no longínquo ano de 1989, era eu um adolescente borbulhento, no Brasil. Foi o meu grande amigo, Renato, que não vejo desde 1991 (mas que ainda é um grande amigo), que me emprestou os primeiros volumes, que eu devorei como uma debulhadora a funcionar a todo o vapor, em seara de trigo. “Isto é diferente”, lembro-me de dizer a mim próprio. Infelizmente (e felizmente, por uma série de outros motivos) depois voltei para Portugal, e nunca mais tive acesso às suas histórias, até ao belo ano de 1998, numa visita à Livraria Inglesa, no Porto. Comprei os 12 volumes originais, que reuniam a compilação de todas as revistas, e fiquei fã. Quando comecei a explorar estes mundos virtuais, de salas de chat e conversas com desconhecidos, foi o nick que adoptei, porque me identifico com a ideia geral por detrás das histórias, com a poesia submersa nas palavras de Neil Gaiman, e porque sou um sonhador inconformado, desperto ocasionalmente.

“DESTRUCTION: I like the stars. It's the illusion of permanence, I think. I mean, they're always flaring up and caving in and going out. But from here, I can pretend. I can pretend that things last. I can pretend that lives last longer than moments.

Gods come, and gods go. Mortals flicker and flash and fade. Worlds don't last; and stars and galaxies are transient, fleeting things that twinkle like fireflies and vanish into cold and dust.

But I can pretend.”


Neil Gaiman, Sandman, Vol. VII Brief Lives – Chapter 8

Foram as histórias do Sandman que despertaram em mim o desejo de começar a escrever as minhas próprias histórias: como pequenas teclas que emitem sonoras vibrações, houve partes de mim que vibraram com insistência, enquanto lia (e leio), e me fizeram pensar “Isto é muito bom, e eu quero tentar fazer algo assim. Mesmo que não consiga, como provavelmente não conseguirei. Mas quero tentar”. O “Sandman” nunca foi algo destinado a ter o sucesso que teve, e deveria realmente ter sido uma pequena série de histórias obscuras, destinadas a afundarem-se no nevoento esquecimento.

Neil Gaiman apenas sabia que era aquilo que queria escrever, independentemente de quaisquer estudos de mercado ou estratégias de marketing ou literaturas destinadas a atingir a máxima rentabilidade financeira. Ele queria escrever aquelas histórias, de um mundo trágico rodeado de personagens de contos de fada, mitológicos, fantasiosos, que reflectia exactamente o mundo interior em que todos vivemos, fora das quatro paredes que construímos para nos protegermos. E escreveu.

Consigo identificar-me plenamente com esse sentimento: não estou aqui para tentar ser rico a escrever spin offs de romances históricos de fundo religioso, ou amontoados lamechas de palavras comercialmente românticas que apelam ao piegas que há em todos nós. Posso escrever isso se quiser, e talvez o faça, eventualmente, mas agora não; sei que tenho uma escrita por vezes maçuda, e que talvez a maioria das minhas histórias não despertem grande apelo comercial, posto que não têm muita acção, nem bombas e murros portentosos; são mais revoluções interiores. Mas é isso que quero fazer, e realmente é pelo prazer que o faço, mesmo sendo um tanto ou quanto realista, e sonhando inocentemente um dia conseguir tornar-me algo parecido com um escritor a tempo inteiro. Na verdade, nem é pelo dinheiro, é só porque detesto acordar cedo. :) E isso, camaradas, é sermos nós mesmos.

“AMELIA: A woman shouldn't have to sleep her life away. Women aren't about dreaming. We're about the real world. Even your grandma woke before she died. Women are about waking, Rose.

As mothers we wake them from nothingness to existence. As maidens we wake them to the joys and miseries of adulthood, wake them to the worlds of lust and responsibility. And when their time's up, it's always us has to wash them for the last time, and we lay them out for the wake.”


Neil Gaiman, Sandman, Vol. IX The Kindly Ones – Six

Curiosamente, também foi o “Sandman” o responsável pela entrada maciça de leitoras femininas no universo da banda desenhada, mundo até há algum tempo exclusivo dos homens; é a força com que os personagens são retratados, a realidade com que vemos as mulheres daquele mundo, no que dizem, pensam, e fazem. O modo como interagem entre si, ainda que nas situações potencialmente absurdas em que por vezes se vêem enredados (as).

As histórias permitem que nos percamos e passemos alguns minutos bem passados, mas também servem como fonte de reflexão, e podem inclusive engrenar novas perspectivas de ver o mundo. Ou, pelo menos, uma sonhadora e poética maneira realista de ver o mundo em que vivemos.

“MORPHEUS: It has always been the prerogative of children and half-wits to point out that the emperor has no clothes. But the half-wit remains a half-wit, and the emperor remains an emperor.”

Neil Gaiman, Sandman, Vol. IX The Kindly Ones – Eight

Foi com alguma perplexidade que alguém um dia observou que os leitores do “Sandman” transcendem um pouco o que é normal no meio, na medida em que desenvolvem uma vontade latente de ser algo mais do que um mero espectador: querem também ser os encenadores dos seus próprios sonhos (na arte de contar histórias). Não fico surpreendido, pois sou um perfeito exemplo disso, e considerando que foi deste desejo que nasceu este blog, nada mais apropriado do que beber directamente da fonte, e criar algo que reflicta um pouco esse espírito: sonhar e contar, contar e sonhar. Sonhar, e fazer sonhar.

“CHORONZON: I am a dire world, prey-stalking, lethal prowler.

MORPHEUS: I am a hunter, horse-mounted, wolf-stabbing.

CHORONZON: I am a horsefly, horse-stinging, hunter-throwing.

MORPHEUS: I am a spider, fly-consuming, eight legged.

CHORONZON: I am a snake, spider-devouring, posion-toothed.

MORPHEUS: I am an ox, snake-crushing, heavy footed.

CHORONZON: I am an anthrax, butcher, bacterium, warm-life destroying.

MORPHEUS: I am a world, space-floating, life nurturing.

CHORONZON: I am a nova, all-exploding... planet-cremating.

MORPHEUS: I am the Universe -- all things encompassing, all life embracing.

CHORONZON: I am Anti-Life, the Beast of Judgement. I am the dark at the end of everything. The end of universes, gods, worlds... of everything. Sss. And what will you be then, Dreamlord?

MORPHEUS: I am hope.”


Neil Gaiman, Sandman, Vol. I Preludes & Nocturnes – A Hope In Hell

Boa noite, e bons sonhos.

segunda-feira, junho 26, 2006

O porquê das coisas: Voz


Após inúmeros e insistentes pedidos (na verdade foi só um, e bastante polido) por parte de uma gentil leitora, vou explicar os motivos por detrás deste blog. Não serão os motivos pelos quais escrevo e criei o blog, uma vez que estes já foram extensivamente respondidos, mas antes um esclarecimento sobre o nome que este modesto escriba adoptou (acto que por si só revela uma ignominiosa soberba), e outras curiosidades que tais.

Primeiro, a voz do Sandman. "Passengers" é o título de uma das suas histórias, e que contém a minha citação favorita de toda a série (que podem ler parcialmente logo abaixo do título do blog). Convém no entanto dizer que o Sandman é o equivalente do nosso "João Pestana", personagem que borrifa os olhos dos humanos com areia, para que estes adormeçam e sonhem. Nos livros de Neil Gaiman, o Sandman é Morpheus, o Senhor dos Sonhos, e utiliza os sonhos das pessoas, para viajar pelo mundo, sendo que a citação completa refere justamente uma destas viagens (em que ele busca a cidade de Mayhew, à procura de uma jóia - big story - don't ask - read the book):
"I am a passenger. I am moving through your dreams. I am riding in your dreams.
I ride on dragonback from Manhattan, the dragon is made of rivetted iron and smells of cotton candy. I travel briefly by bus: in the back the dreamer copulates desperately, not noticing his autonomous passenger. I sit at the front and talk to the driver.
Approaching the state of Delaware, the dreamer is a small dog, dreaming impatiently of a past life, long forgotten when he sailed tall ships across uncharted. The salt spray of the ocean stings my face.
I am moving through dreams, pulling toward Mayhew, feeling for the jewel. Through your dreams, my sleeping children, you had a passenger, and you never knew."
Há qualquer coisa nesta citação que me arrepia... a pura poesia interior, a forma como as imagens se casam perfeitamente com as palavras (neste caso no livro, em B.D.), e como as palavras aguentam bem sem as imagens. A ideia de deslocação, passagem de um ponto/estado/local/sentimento para outro é algo que ressoa forte em mim, porque pode ser (como muitas outras coisas, mas esta particularmente) uma poética metáfora para a vivência.
Haverá algo que defina tão bem a miséria e glória humanas como a esplanação do percurso de uma vida, assente nos risos e lágrimas que vamos coleccionando pelo caminho?
Eis portanto que nasce o texto "Passengers", e muito posteriormente a ideia do blog, sujeito a uma multiplicidade de temas, e com uma série de constrições e libertações, mas, principalmente, dedicado aos sonhos, e não apenas aqueles que vivemos nas horas mortas da noite.
Todos os sonhos, até aqueles que já esquecemos.
Continuamos amanhã. Boa noite, e bons sonhos.