terça-feira, junho 13, 2006

Leituras III

"(...)Beijei-lhe a mão como da primeira vez, mas então aconteceu algo que eu não esperava, ela manteve a minha mão agarrada e levou-a aos lábios. Nunca na minha vida uma mulher me tinha feito isto, senti-o como um choque na alma, um estremecimento do coração, e ainda agora, madrugada já, decorridas tantas horas, enquanto acabo de passar ao caderno os acontecimentos deste dia, olho a minha mão direita e encontro-a diferente, embora não seja capaz de dizer em que consiste a diferença, deve ser coisa de dentro, não de fora.(...)"

4 comentários:

maria.c disse...

O que é curioso. Por que se há-de esperar que seja sempre o homem a tomar a iniciativa? A inversão será assimtão inusual?

Cabeça_d'Ovo disse...

ola

venho responder ao teu comentario no meu blog :)

1º, nao é de muito bom tom dizeres a alguem que é «razoalvel»...se n se gosta, e ha sempre esse direito, ou nao se comenta ou se é claro na critica. (quanto aos erros ortograficos, sao uma caracteristica minha, tenho deslexia e no blog n os corrijo, porque assim sao mais pessoais).

Proponho-te que leias post anteriores, concerteza encontraras algum que te agrade mais, eu encontro. No entanto, escrevo para partilhar ideias, sentimentos, estados de alma, nao para agradar.

Agradeço a sugestoa de escrever contos, é uma hipotese q ha muito considero.

Nao acho q as abreviaturas ofendam a lingua de camoes (aconselho q ouças e leias a letra duma musica de caetano veloso «patria» começa com o verso que transcreves-te), apenas sao reflexo da evoluiçao da escrita cibernautica. Se para melhor ou pior, ja é outro assunto.

Tens um blog muito apelativo, parabnes

Sandman disse...

É tardíssimo (ou cedo, depende de que lado do sonho estamos), e acabei de perder imenso tempo a responder ao comentário da tua vizinha de baixo, a explicar-lhe da forma mais humilde possível porque motivo deve ficar feliz quando alguém constata e aponta a nossa própria mediocridade, e como deve considerar tal apontamento como um empurrão para a evolução pessoal. Receio no entanto estar a ditar imposições amordaçantes, cego pela minha própria imagem inchada e vã. Enfim, já está.

Tinha prometido a mim mesmo que te responderia hoje (para quê adiar, se vou estar tão preguiçoso hoje como estarei amanhã?), e acabei de ler (mais) um post seminal no teu espaço, que me daria pano para mangas. Talvez depois. Agora quero falar disto, e já me municiei com um maço de cigarros (eu disse que o senhor do café da esquina adora ficar até altas horas no estabelecimento, e tem as suas vantagens, pois estava a desesperar por uma passa), já cumprimentei o céu que clareia, e liguei o Media Player com a banda sonora apropriada.

Uma nota à margem: sabes que este tempo em que escrevo é considerado o “tempo entre tempos”? Isto é, o momento em que atravessamos uma transição: ainda não é dia, mas também já não é noite. Supostamente, é nestas alturas que as bruxas e feiticeiros fazem os seus rituais, e que podemos alcançar com mais facilidade outros níveis da realidade (algo que pode ser sublime, mas também extremamente perigoso, pois não se sabe o que nos espreita do outro lado).

Adiante. Subscrevo por inteiro a tua perplexidade e interrogação. Mas também é verdade que neste mundo do século XXI ainda há momentos para nos revestirmos de cavalheirismos, e resgatarmos épocas ancestrais onde a iniciativa estava na mão dos homens. Talvez seja genético este comportamento algo obsoleto, ou então trata-se apenas de um movimento tão mecanizado que nem nos apercebemos da incongruência. Sim, as mulheres podem e devem tomar a iniciativa, mas também existem centenas/milhares de jovens e ardorosos cavaleiros, no topo dos seus corcéis tímidos, que anseiam por ver esse conceito traduzido em actos concretos, dada a sua inépcia para impetuosidades amorosas/românticas, e que desesperam por uma atitude mais ousada dos seus objectos de desejo. Que nunca chega, ou tarda face à vontade.

Pelo menos, eu sei que passei longas noites a desejar mais espírito de iniciativa feminina, e penso que estaria condenado a uma vida de intercalada solidão, se não tivesse tomado as rédeas uma vez por outra. Sabes… dou por mim a pensar, ocasionalmente (e como adoro recorrer a temas “o que poderia ter sido mas não foi”, já deves ter percebido – acho extremamente poética esta ideia de desejo encruzilhado), no que estaria agora a fazer, no que traria no peito, se não tivesse ignorado por completo todas essas ideias progressivas de mulheres contemporâneas, e rebuscado em mim uma centelha de caçador pré histórico, dois anos e alguns meses atrás. Teria perdido um beijo, e sinceramente não sei se o voltaria a encontrar. E quem seria agora?

No texto que referi, é compreensível o espanto do protagonista do livro: o senhor José é um espírito solitário, afastado de todo e qualquer contacto mais íntimo com os seus semelhantes, e que tenta colmatar esse vazio de existência atribuindo uma personalidade caprichosa e inquisidora ao tecto da sua casa, com quem mantém conversas deliciosas, plenas de justificações. E através da colecção de fichas de registo de personalidades famosas do seu país.

Convém acrescentar que o senhor José sempre trabalhou na Conservatória do Registo Civil, onde estão registados todos os nomes de quem já nasceu, viveu e morreu, e que vive há longos anos numa casa colada à Conservatória, unidas por uma porta de passagem, que utiliza nas suas transgressões nocturnas (surripiar temporariamente os tais registos, para minuciosamente os copiar para os seus próprios arquivos).

É esse o seu hobby, e a sua única ambição, até encontrar um verbete de uma mulher desconhecida no meio de cinco verbetes de indivíduos destacados da sociedade. Embarca então numa verdadeira epopeia de busca da identidade da mulher desconhecida, e o que encontra, afinal, é a si mesmo.

Adoro este livro. Gosto muito de ler Saramago, acho a sua forma característica de nos contar uma história bastante poética, mas admito que por vezes peca por uma seriedade brincalhona dos temas que aborda. Não aqui, no entanto: aqui tens um Saramago que claramente adorou o personagem e a sua história, e que se deve ter divertido imensamente em relatar as suas aventuras e desventuras. E que sarilhos! O senhor José busca, ao fim ao cabo, tudo aquilo que nós também buscamos, em maior ou menor grau: estabelecer contacto, mesmo que não saiba o que fazer com ele, quando o encontrar.

Esse momento é perfeitamente delineado na passagem que transcrevi: repara na sua desorientação quando a mulher (que não é a que busca) toma a iniciativa e o beija na mão, o toca, o puxa para a sua vida. Como se espanta com o que sente, e se apercebe que algo dentro dele mudou. E a faísca da ignição dessa mudança partiu dele, na verdade, tanto quando foi despoletada pelo acto da mulher. Queres ver?

Encosta-te para trás na cadeira, coloca o “Comptine d'un autre été”, se o tiveres, a tocar, e permite-me que te leia uma passagem ocorrida momentos antes:

“(…)A mulher pousou secamente a chávena no pires e disse, olhando a direito o visitante, Temos aqui estado, o senhor e eu, no outro dia e hoje, um que desde o princípio sempre disse a verdade, outro que desde o princípio sempre esteve a mentir, Nem menti, nem estou a mentir, Reconheça que em todos os momentos lhe falei franco e claro, abertamente, que nunca lhe pôde passar pela cabeça que houvesse uma só mentira nas minhas palavras, Reconheço, reconheço, Então, se há nesta sala um mentiroso, e tenho a certeza que o há, esse não serei eu, Não sou mentiroso, Acredito que não o seja por natureza, mas vinha a mentir quando entrou aqui pela primeira vez, e desde então tem mentido sempre, A senhora não pode compreender, Compreendo o suficiente para não acreditar que a Conservatória o tivesse alguma vez mandado procurar a minha afilhada, Está enganada, asseguro-lhe que mandou, Então, se não tem mais nada para me dizer, se a sua última palavra é essa, saia da minha casa agora mesmo, já, já, as duas últimas palavras foram quase gritadas, e a mulher, depois delas, começou a chorar. O Sr. José levantou-se, deu um passo para a porta, depois tornou a sentar-se, Perdoe-me, disse, não chore, vou contar-lhe tudo.” (Páginas 194/195)

Acho que, por vezes, a verdade liberta-nos. E também por vezes, a verdade começa nas mentiras.

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maria.c disse...

Sou preguiçosa qb. Gosto que me beijem a mão sempre.Aqui. Na vida real não. Tomo sempre a iniciativa. Mas este é o meu tempo de lazer e aqui adoro que teclem para mim...
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