sexta-feira, junho 30, 2006

Leituras V

"Pode abordar o acto de escrever com nervosismo, excitação, esperança ou mesmo desespero - com a sensação de que nunca poderá transpor para a página o que lhe vai na cabeça e no coração. Pode aproximar-se dele com os punhos fechados e os olhos semicerrados, pronto a partir tudo e a registar os nomes. Pode aproximar-se dele porque quer que uma rapariga se case consigo ou porque quer mudar o mundo. Aborde-o de qualquer maneira excepto irreflectidamente. Permita-me que o diga outra vez: não se aproxime irreflectidamente da página em branco.

Não lhe estou a pedir que o faça de maneira reverente ou incondicional; não lhe estou a pedir que seja politicamente correcto ou que ponha de lado o sentido de humor (Deus queira que o tenha). Não se trata de um concurso de popularidade nem das Olimpíadas da moral, e não é a igreja. Mas trata-se do acto de escrever, gaita, e não de lavar o carro ou de pintar os olhos. Se consegue levá-lo a sério, podemos conversar. Se não for capaz ou não estiver disposto, é altura de fechar o livro e de fazer qualquer outra coisa.

Lavar o carro, talvez."

Stephen King, Escrever, Temas e Debates Editora, Lisboa, 2001, página 96.

4 comentários:

Cabeça_d'Ovo disse...

segui o teu conselho, o mundo n se transformou numa ervilha, e crente que iria funcionar, nao pus o despertador. Conclusao: ADORMECI!!
Moral da historia, temos q tentar outra coisa, nao funciona!

p.s esse texto é optimo!

vinte e dois disse...

Pressupondo que é S. King que está a falar, não lhe conhecia esta faceta de orador... muito bem!

Sandman disse...

Este livro, de título completo "Escrever - Memórias de um Ofício", faz parte de um projecto há muito acalentado, pelo autor, de dar a conhecer as suas reflexões sobre a arte, à mistura com uma série de conselhos úteis para quem ambiciona uma carreira nessa profissão. Afasta-se bastante do que é o conjunto da sua obra, mas revela-se um verdadeiro tesouro de curiosidades para quem conhece os livros do autor, pois este dá a conhecer algumas das "dores de parto" que levaram a alguns livros.

Também aborda de forma bastante franca os problemas com álcool e drogas de Stephen King, e ficamos até a saber que o livro "Cujo" foi escrito numa das fases mais negras desse período, sendo que Stephen King não tem sequer memória de o ter escrito.

É importante referir que o livro foi terminado depois do acidente grave que quase o matou, e serviu, de certa forma, para o reconciliar novamente com a escrita, depois de um acontecimento tão traumatizante.

Por último, qualquer pessoa com um mínimo de ambição de se tornar escritor devia pelo menos lê-lo uma vez. Os problemas práticos da criação são aqui abordados de uma maneira sumamente compreensível, e qualquer escritor em início de carreira pode beneficiar deste "acompanhamento", por parte de um "mestre".

Patrícia disse...

Peguei agora no Misery. Primeira incursão pelo imagético do Stephen. Muito visual, mesmo.