sábado, junho 17, 2006

O futebol não é tudo


Foi nos momentos imediatamente a seguir à derrota de Portugal com a Grécia. Tinha prometido que nunca mais, jurei mesmo, ao deus cristão, aos restantes do panteão celestial, nunca mais vou deixar que estas coisas me afectem desta maneira, não pode ser, o futebol não é tudo na vida de um homem, nem sequer é 10% daquilo que constitui o ror de coisas importantes. Logo eu, que nunca liguei assim tanto a estas coisas, como vejo outros fazerem, logo eu que sorrio quando o Sporting ganha, e encolho os ombros quando perde. O futebol não é tudo. Não é mais que um filho, um beijo, um sorriso, uma amizade, um amor.

Depois arrastei-me sorumbaticamente para o canto mais escuro que encontrei, e, sozinho, pesado, mandei embora o “monstro” para os recessos do subconsciente, enterrei-o sobre camadas de preocupações e existências. O futebol não é tudo, lembra-te das guerras e da fome no mundo, deixa lá isso.

Mas não aprendo. Nunca aprendo. Vejo hoje o jogo contra o Irão, e porra, logo contra um país que quis recuar no tempo, que ameaça toda a gente, maltrata as mulheres, e restantes cidadãos em geral. Logo um país que no passado foi o expoente no que dizia respeito às artes, à orgulhosa história, e agora parece um daqueles brutos no recreio da escola, de pau na mão, a querer bater em todos. E a mim, só me apetece dizer que somos países irmãos, quero sentar-me numa esplanada com um iraniano e conversar longamente sobre como o jogo foi bom, eu com a minha cerveja e ele com o que quiser beber. Quero encontrar uma iraniana à saída do estádio, e trocar a minha bandeira pelo “chador”, erguer bem alto o que é a liberdade, seja em mãos levantada, seja sobre a fronte pousada.

Dá-me para estas coisas, o futebol. Vivo no oposto do ódio ao adversário, existo num mundo redondo que não é o mesmo daqueles que destilam a raiva nos caprichos da bola. Tantos toques elegantes, movimentos coordenados, sinto-me esmagado perante as fintas de génio, os remates mortíferos, as defesas que deveriam ter sido golos, foscas só podia ter sido golo, mas não foram. São bailados as coreografias que se fazem, valha-me Deus que não percebo nada disto, e sofro como nunca sofri, nem me atrevo a chorar, não consigo rir, atravesso os 90 minutos agarrado às mãos, pequeno como os mais pequenos, a enlouquecer porque o jogo ainda não acabou.

Nunca aprendo. Queria ser como os intelectuais que vituperam contra o fanatismo do gosto pelo futebol, e nem percebem que também são fanáticos, do prazer do não-futebol. O máximo que consigo é desenvolver uma serenidade distraída, o alheamento disfarçado, enquanto a febre não entra em ebulição. Depois sento-me, a observar os preparativos, a festa das bancadas, e peço uma cerveja, companhia inseparável dos minutos que não passam. E digo a mim mesmo que, se perdermos este jogo, nunca mais. Garanto-vos que nunca mais, é a última vez.

5 comentários:

Flávio disse...

eh eh eh Excelente texto, amigo Sandman. Eu sou um crítico do excesso de futebol, mas não sou fanático do 'não-futebol' nem tão-pouco intelectual. Limito-me a dizer como os gregos antigos: 'nada em demasia'.

Sandman disse...

He, ao ler as suas palavras lembrei-me das "Mil e uma Noites", esse repositório de histórias que também são sonhos: quando o Califa ameaçou Sheherazade, por esta não querer prosseguir com a sua história - pretextando um adiamento para o dia seguinte - esta replicou que uma boa história, como o sal na comida, deve ser aplicada com conta e medida, para não correr o risto de estragar o prazer de quem a desfruta. E o Califa lá a deixou ir descansar, viva por mais um dia.

Será mais ou menos isso, estou a falar de memória. Mas é apenas para dizer que subscrevo totalmente as suas palavras. Vivo o excesso (em emoções e palpitações) durante os jogos, e depois lá volto à costumeira serenidade.

Sea disse...

fez-me lembrar uma frase de uma música: " never again it's what you swore the time before"

Sandman disse...

Já agora podias colocar aqui o autor e título da música, fiquei curioso...

Às vezes parece-me que amar um desporto, um jogo, uma equipa, sei lá, amar algo de forma assim tão incondicional, é como amar alguém... mas a verdade é que mesmo que uma equipa perca jogo após jogo, e instile cada vez mais frustração e raiva nos seus adeptos, nunca deixa de ser a única, nunca é substituída como elemento de paixão... é assim o amor incondicional, obsessivo, e quantas vezes podemos dizer o mesmo de alguém?

Cláudia Amorim disse...

Olá, Sandman.

É sempre uma alegria ver que o teu talento voltou a encontar um espaço onde possa ser apreciado. :)

Acho que o futebol renova a nossa fé. São 90 minutos que não controlamos, mas em que acreditamos que a nossa equipa pode chegar mais longe, e nós também por arrasto. No momento da vitória, somos todos campeões, dentro e fora do campo, e o mesmo é verdade no momento da derrota.

O futebol dá-nos a oportunidade de sermos semelhantes a deuses por breves instantes. E essa sensação de poder é viciante!

Um abraço*